Alta nas contratações acompanha recuperação econômica, aponta economista; setor de serviços e comércio lidera absorção de imigrantes na metrópole
Por Ana Elisa Desiderá e Vitória Sadakane
O número de trabalhadores estrangeiros com carteira assinada em Campinas cresceu 244% nos últimos cinco anos. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), as admissões passaram de 667 em 2020 para 2.299 em 2025. O saldo de empregos, diferença entre contratações e demissões, foi de 13 vagas negativas em 2020, no auge da pandemia. Já em 2025, registrou superávit de 610 vagas.
A economista e professora da Escola de Economia e Negócios da PUC-Campinas, Eliane Rosandiski, afirma que o crescimento é resultado da recuperação de vagas perdidas na pandemia e de condições econômicas favoráveis, que aumentaram a demanda por trabalho em Campinas.
“Foi uma recuperação. E depois, uma subida que ruminou em 2025, que como a gente está vendo, está muito positivo. Nós estamos com taxas de desemprego muito baixas, com o mercado de trabalho que está gerando muitas vagas. Inclusive, conseguindo absorver essa mão de obra extra que está entrando no nosso território”, explica.

Setores que mais contratam
O setor de serviços e comércio foi o que mais contratou estrangeiros em 2025, com 1.259 admissões. Seguido pelo segmento de produção de bens e serviços industriais, que registrou 385 contratações. E em terceiro lugar, somando 260 admissões, encontra-se o serviço administrativo.
A maioria dos estrangeiros contratados tem ensino médio completo (1.390), mas há também 351 com ensino superior. Segundo Eliane, a presença de multinacionais na Região Metropolitana de Campinas (RMC) atrai profissionais qualificados para cargos especializados.
“Tem gente qualificada entrando nesse mercado. O que significa isso? Nós temos uma região marcada pela presença de muitas empresas multinacionais que trazem esse tipo de profissional para exercer determinadas funções”, aponta.
De acordo com a Prefeitura de Campinas, muitos estrangeiros atendidos pelo Centro de Educação Profissional de Campinas (Ceprocamp) buscam cursos de português. A formação é oferecida em parceria com o Centro de Referência para Imigrantes, Refugiados e Apátridas (SCRIRA).
Recomeço
A colombiana Brenda Maria Gaviria Palaci é um exemplo. Ela vive no Brasil desde 2019 e divide a rotina entre trabalho e estudo. Pela manhã, atua como estagiária no Ceprocamp e, à noite, faz curso técnico em Administração.
A mudança para o país ocorreu após o marido conseguir trabalho na área metalúrgica. Brenda chegou cerca de um ano depois. A ideia inicial era ficar pouco tempo, mas ela decidiu permanecer após se adaptar.
Nos primeiros anos, o casal viveu no Brás, em São Paulo. “Muitas pessoas da região utilizavam o ‘portunhol’ e tivemos poucas chances de praticar o português. A situação mudou quando passamos a morar em Campinas.”
Ela conheceu o Ceprocamp em 2020, durante a pandemia, após ver uma publicação nas redes sociais. Começou pelo curso de português, que ajudou na integração ao país.
Para continuar os estudos, ela trouxe da Colômbia o certificado de conclusão do ensino médio. Os documentos foram encaminhados à Delegacia de Ensino, que realizou a análise e o reconhecimento, permitindo que Brenda se matriculasse no Ceprocamp. Contudo, nos dois primeiros anos no país, as oportunidades de trabalho foram mais limitadas.
“Eu acreditava que conseguiria emprego apenas na área de limpeza. Também achei que o diploma obtido na Colômbia não teria validade no Brasil”, relata. A experiência de adaptação motivou Brenda a compartilhar informações com outros estrangeiros, ela mantém um perfil no Instagram voltado a pessoas que falam espanhol e desejam aprender português, além de publicar conteúdos sobre sua rotina no Brasil.

Caminho para o mercado formal
A inserção no mercado formal depende diretamente da regularização documental. O SCRIRA realizou 1.171 atendimentos a 747 pessoas estrangeiras, com média de 1,6 atendimento por pessoa. No primeiro trimestre de 2026, foram registrados 288 atendimentos.
O atendimento a estrangeiros em Campinas começa no SCRIRA, que orienta sobre documentação, serviços públicos e trabalho. Também é feito um cadastro para identificar as principais demandas.
Entre os serviços, está a orientação para regularização, incluindo pedidos de residência ou refúgio. O atendimento também identifica necessidades como acesso à saúde, educação e emprego.
Durante o atendimento, também é realizada uma escuta para identificar outras necessidades. As demandas, de acordo com a entidade, envolvem matrícula em escolas, serviços de saúde, assistência social e oportunidades de trabalho.
O trabalho do SCRIRA é coordenado por Virgílio Alves, psicólogo, mestre em Educação e doutor em Psicologia e Sociedade.
De acordo com ele, muitos imigrantes chegam ao Brasil em situação de vulnerabilidade social e econômica, o que pode aumentar o risco de exploração no mercado de trabalho.
“O imigrante e o refugiado são um público muito explorado no campo do trabalho. Muitas vezes chegam sem renda e acabam sendo alvo de propostas de emprego precárias, em condições análogas à escravidão”, afirma.
Apoio
Para ampliar as oportunidades, o centro de apoio atua em parceria com o Centro Público de Apoio ao Trabalhador (CPAT). O órgão faz contato com empresas e organiza vagas, enquanto o SCRIRA encaminha os estrangeiros.
Apesar disso, o coordenador aponta que ainda existem desafios para que o estrangeiro possa entrar no mercado formal, como demora na emissão da documentação, barreira causada pelo idioma e a dificuldade em conseguir moradia.
Para reduzir a barreira linguística, o SCRIRA também mantém parceria com o Centro de Educação Profissional de Campinas (Ceprocamp), que oferece cursos de português voltados ao letramento de imigrantes.
Além desses trabalhos em conjunto, muitos estrangeiros contam com redes formadas por familiares e conhecidos que já vivem na cidade – costumam oferecer acolhimento temporário a quem acaba de chegar, contribuindo para o processo de adaptação até que consigam trabalho e moradia própria.
A empresária peruana Karen Stephanie Villegas Susana vive no Brasil desde 2002. Ela é dona de um restaurante em Barão Geraldo, aberto em 2024. O estabelecimento, que abriu às portas em 2024, se destaca pela culinária internacional. Segundo ela, 60% da equipe é formada por estrangeiros.
“O brasileiro não domina a nossa culinária e ensinar algo que é de raiz é mais complexo”, afirma.
Não só peruanos, mas colombianos, angolanos, venezuelanos, argentinos, chilenos e brasileiros integram a equipe que atende os clientes e prepara os pratos do restaurante.
“Estrangeiro em terra alheia é como se fosse um órfão, não está seguro 100%, não está na sua terra. Então ela (a mãe) me falou que todo estrangeiro tem que ser bem tratado. A pessoa está longe de casa, não tem ninguém de perto”.
Orientação: Profa. Rose Bars
Edição: Gabriel Rosa

