Famílias campineiras relatam sentir o impacto nas escolhas mensais e na qualidade da alimentação
Por: Laura Godoy e Poliana Belo
Em março de 2026, o valor da cesta básica em Campinas – SP registrou alta de 7,12%, chegando a R$ 831,77, um aumento de R$ 55,31 em relação a fevereiro, quando o custo da alimentação básica era de R$ 776,46. Os dados são do Observatório da PUC-Campinas e apontam para um quadro de pressão contínua sobre os preços dos alimentos, que impacta principalmente as famílias de baixa renda, que passam a reavaliar suas prioridades diante do orçamento mais “apertado”, cenário que se intensifica quando se considera o salário mínimo de R$ 1.621,00, já que a cesta básica compromete 51,3% da renda. Como o cálculo leva em conta a alimentação de um trabalhador por mês, a estimativa para uma família de quatro pessoas, sendo dois adultos e duas crianças, é de três cestas básicas, o que elevaria o gasto mensal apenas com alimentação para R$ 2.495,31, reforçando o peso desses itens no orçamento doméstico.
Fatores externos e safra explicam alta
A elevação é explicada por uma combinação de fatores, que vão dos efeitos da guerra no Oriente Médio, com impacto direto no preço do diesel e, consequentemente, no custo do transporte, até a entressafra de produtos agrícolas, explica Pedro Miranda, economista da PUC-Campinas.
Custo da cesta básica em Campinas

Tomate lidera aumentos em 2026
Em março de 2026, o tomate foi protagonista no aumento do preço da cesta básica, sendo responsável por 51,98% do valor total. O valor do kg em fevereiro era de R$ 7,27, passando para R$ 11,05 em março.
A quantidade de tomate por cesta básica é de 9kg, segundo o Observatório da PUC-Campinas. No mês de fevereiro, o valor total de R$ 65,43, porém, com o aumento de R$ 34,01, passou a custar R$ 99,45 em março.
Sendo um alimento essencial e que compromete 11,96% da composição da cesta básica (ficando atrás apenas do pão francês, que tem uma participação de 12,95% – em reais, 107,74 – e da carne, que compõe 38,30%, tendo um valor R$ 318,57) aumentos significativos no preço podem ocasionar em uma substituição do tomate por outros produtos, causando um impacto na alimentação das famílias campineiras.

O economista, Pedro de Miranda Costa, afirmou que o tomate também foi o alimento que mais variou em valores durante os meses de janeiro e fevereiro.
Impacto na qualidade nutricional
Com o aumento no preço dos alimentos, muitas famílias vivem a necessidade de um reajuste nas compras mensais, trocando certas mercadorias por opções mais baratas, impactando diretamente na qualidade nutricional das suas refeições. A nutricionista Fernanda Carvalho Mangabeira falou sobre como essas escolhas, na maioria das vezes industrializadas, podem prejudicar diretamente no dia a dia e na saúde destas pessoas.
“O aumento proporcional do custo da cesta básica em relação ao salário mínimo impacta diretamente a segurança alimentar das famílias, levando à redução da diversidade alimentar e à priorização de alimentos mais baratos e energeticamente densos.”, afirma.
Outro ponto abordado por Fernanda sobre o aumento de enlatados e ultraprocessados, que além de afetarem a qualidade nutricional diária das famílias, pode ter efeitos mais graves à longo prazo. As doenças crônicas, quando atingem crianças, podem ter resultados irreversíveis que seguem por toda a vida adulta. “Observa-se uma tendência de transição nutricional caracterizada pelo aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares, gorduras saturadas e sódio, em detrimento de alimentos frescos. Isso contribui para o aumento simultâneo de deficiências nutricionais e de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade, diabetes mellitus tipo 2 e hipertensão arterial.”, informa a especialista.
A nutricionista trouxe a educação alimentar como uma forma de minimizar os impactos que o aumento no preço dos alimentos pode causar na diversidade alimentar das famílias com rendas menores. “A educação alimentar é fundamental para capacitar indivíduos e famílias a fazerem escolhas alimentares mais conscientes, equilibradas e economicamente viáveis, contribuindo para a manutenção da qualidade nutricional mesmo em cenários de restrição financeira.”, conclui Fernanda.
Moradores relatam efeitos no orçamento
Cíntia Regina Argonino, moradora do Jardim Chapadão, em Campinas, afirma que precisou mudar os hábitos de consumo diante da alta dos alimentos. Auxiliar de cozinha em Sousas, ela diz que tem reduzido as compras e optado por produtos mais baratos.
“Antes, eu comprava para 15 dias. Hoje, compro para uma semana. Como moro sozinha, levo só o mínimo, porque não dá para gastar tudo o que eu ganho”.
Apesar das mudanças, Cíntia afirma que alguns itens continuam indispensáveis no dia a dia. “O café não tem como substituir. E algumas frutas e verduras também não consigo deixar de comprar, mesmo com a alta, como o tomate.
Sobre o pagamento, ela ressalta: “Já parcelei antes, mas você acaba consumindo tudo e ainda fica pagando depois. Hoje faço o possível para pagar à vista.”
Moradora do Campo Belo,a dona de casa Aura do Santos Silva, relata que a alta dos alimentos agravou uma rotina já marcada por dificuldades. Mãe de cinco filhos, ela vive com um salário mínimo do BPC da filha mais nova, que tem deficiência e exige cuidados constantes.
“Recebo R$ 1.621, pago R$ 800 de aluguel e ainda tem os remédios. Não sobra nada”.
Sem poder trabalhar, Aura afirma que deixou de fazer compras no mercado e hoje depende de doações. A alimentação também mudou “Carne eu não compro mais. A gente come frango, ovo, o que for mais barato”, conta.
Segundo ela, frutas e verduras que fazem parte de uma alimentação saudável e nutritiva quase não fazem parte da rotina. “A gente vai se virando do jeito que pode”.
Juliana Pereira, diarista e moradora do Jardim Tamoio, também relata sentir de forma intensa os impactos do aumento no valor da cesta básica. Segundo ela, os reajustes têm comprometido diretamente o orçamento mensal. “Todo mês eu sinto que o dinheiro rende menos, principalmente com alimentação, que é essencial e não tem como cortar”, afirma.
Apesar das dificuldades, Juliana diz que não recorre ao parcelamento de compras no supermercado. Ela explica que prefere se organizar com os recursos disponíveis no momento para evitar dívidas futuras. “Parcelar acaba virando um peso depois”, destaca.
A alta nos preços também já provocou mudanças no consumo da diarista. Ela conta que precisou reduzir a compra de alguns itens e substituir produtos por opções mais baratas. “Coisas que antes faziam parte da rotina, como carne com mais frequência, hoje eu tenho que diminuir”, relata.
Orientação: Profa. Rose Bars
Edição: Gabriel Rosa

