Racismo e desigualdade econômica ainda afastam jovens brasileiros do esporte, que segue restrito aos mais favorecidos
Por Gustavo Zuffo, Henrique Alves e João Viana
O tênis é um dos esportes mais praticados do mundo, com mais de 87 milhões de tenistas, de acordo com a Federação Internacional de Tênis. Mas, no Brasil, apenas 1% da população pratica o esporte. O alto custo e o preconceito, são os maiores impasses para atrair jovens como Leonardo Tancredo. Aos 16 anos, ele tentou se profissionalizar como tenista, mas o racismo afastou o jovem negro do seu sonho.
Leonardo começou a praticar tênis por lazer, aos 12 anos de idade. Ainda menino, ele buscava apenas se divertir. Com o tempo, se apaixonou pelo esporte e quatro anos depois, decidiu buscar ajuda profissional para se aprofundar nas competições. No entanto, ao entrar em contato com um treinador, foi prontamente recusado, sob a justificativa de que o “tênis não é para pessoas como você”.
Sem ao menos um teste, conversa ou qualquer chance, seu sonho foi interrompido. Decepcionado, Leonardo buscou respostas com colegas do técnico e ouviu que ele não trabalhava com “pessoas de cor”.
A frustração criou um trauma no jovem, que se afastou do esporte por cinco anos. “Eu queria jogar tênis mais do que qualquer coisa na minha vida, mas por muitos anos eu fui convencido de que não teria espaço no esporte, por conta da minha cor e situação financeira.”
O professor de tênis da Sociedade Hípica de Campinas, Gustavo Petreca, também relata um caso que presenciou. “Nós temos um estagiário que se chama Murilo e é preto e estava com uma professora dando aula para quatro crianças de 5 anos. Durante a aula, a professora pediu para que um aluno específico fosse fazer uma atividade com o professor Murilo, a criança respondeu: “O nome dele não é Murilo, o nome dele é gorila”.

Casos como esses provam que o racismo está muito vivo no esporte e essas ofensas acontecem com tenistas profissionais também. Após eliminação na primeira rodada no ATP 250 de Stuttgart de 2025, o então número 42 do mundo e ex-top 10 do ranking mundial, Gael Monfils, sofreu inúmeros insultos em suas redes sociais. O francês gravou um vídeo e postou em seu Instagram uma resposta às ofensas recebidas. “Estamos em 2025 e vocês estão falando sobre a cor da pele. O que a cor da minha pele tem a ver com o meu desempenho em quadra?”, disse Gael.
Essas ofensas acontecem na arquibancada também. No Rio Open, maior torneio de tênis do Brasil, o empresário Murilo Miyazaki foi acusado de chamar um segurança do evento de “macaco”, segundo o Ministério Público do Rio (MPRJ). Ao ser convidado a se retirar pelo funcionário por estar atrapalhando o jogo, Murilo se revoltou e desferiu os insultos ao segurança. Ele foi preso em flagrante, mas solto na sequência.
O crime de injúria racial está descrito na Lei 7.716/1989 e prevê uma pena de dois a cinco anos, além de multa. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 foram registradas mais de 18.000 denúncias no país, além de um aumento de 40% em relação ao ano anterior. O estado de São Paulo é o líder, com mais de 7.000 casos registrados.
Em casos de racismo ou injúria racial, a advogada Laura Borsati recomenda não reagir, e se possível, registrar o ocorrido, mas sem se colocar em risco. Se o crime estiver acontecendo, o recomendado é ligar para a Polícia Militar pelo 190. Neste caso, os policiais irão até o local e podem realizar a prisão do agressor em flagrante. Também é possível denunciar pelo Disque Direitos Humanos, discando 100 ou registrar um Boletim de Ocorrência Online.
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Além da cor, o dinheiro
A dificuldade para se tornar um tenista profissional no Brasil não é apenas uma questão de talento ou dedicação, é uma questão financeira também. Aulas para treinamento de tênis mensais podem ultrapassar o valor de um salário mínimo (R$1.518), por exemplo. Além disso, para praticar o esporte também é preciso comprar uma raquete, que possui um valor médio de R$ 200, de acordo com a Escola Guga.
Segundo Gustavo Petreca, “para baratear o esporte é preciso começar lá de cima. Por exemplo, com as premiações de torneios, aumentando o valor das premiações, e com os materiais, já que os importados possuem alto custo aqui no Brasil”.
Outro impasse que atinge a maior parte da população brasileira é a falta de quadras públicas. Em Campinas, de acordo com a Secretaria Municipal de Esportes, somente cinco quadras são abertas ao público. Na Lagoa do Taquaral, são disponibilizadas três quadras de saibro, e no Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim, outras duas quadras sintéticas podem ser utilizadas.
O tênis, embora seja um esporte global, ainda está distante de ser acessível a todos. Em muitos países, ele segue mais presente entre as classes de maior renda, o que reforça um padrão histórico de exclusão. Essa desigualdade econômica se soma às barreiras sociais e raciais, que dificultam a entrada e a permanência de pessoas negras e de baixa renda nas quadras.
No Brasil, a situação se repete: a falta de estrutura pública, o custo elevado de equipamentos e as recorrentes situações de discriminação limitam o crescimento do esporte fora dos círculos mais privilegiados. O caso de Leonardo revela como o preconceito e a desigualdade caminham lado a lado, afastando talentos antes mesmo que tenham a chance de começar.
Diante desse cenário, o tênis segue sendo um reflexo das divisões da sociedade, um esporte que ainda precisa se abrir para representar, de fato, a diversidade de quem sonha em praticá-lo.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

