Nomes atribuídos a atletas negros muitas vezes são normalizados e aceitos sem análise profunda
Por Enzo Zaros, Gustavo Cabral e Murilo Sacardi
O futebol sempre foi visto no Brasil como momento de união, paixão e expressão cultural. No entanto, por trás das coisas boas envolvidas no esporte, existe uma forma de violência velada, manifesta nos apelidos de alguns jogadores negros. Esses nomes, geralmente atribuídos ainda na infância, escondem uma violência simbólica que a sociedade insiste em normalizar, tratando o racismo como brincadeira e bom humor.
Apelidos como “Negueba”, ex-jogador do Flamengo, Grafite, ex-jogador do São Paulo e da seleção brasileira, Gui “Negão”, atacante do Corinthians, entre tantos outros, começam circulando nas categorias de base, onde jovens atletas negros são identificados não por suas habilidades ou características individuais, mas pela cor da pele. O que é inicialmente tratado como “brincadeira” nos treinos, acaba acompanhando esses jogadores por toda a carreira, transformando-se em marcas registradas que escancaram o racismo e a violência que ainda estão presentes no esporte.

O presidente do conselho deliberativo da Associação Atlética Ponte Preta, Tagino Alves dos Santos, explica como o racismo recreativo causa danos às pessoas e aponta ações que visam combater a violência dentro do esporte. “O agente desse tipo de crime tem o propósito de diminuir a qualidade de uma pessoa por conta da cor da pele. Isso é perigoso porque, quando essa situação ocorre de maneira reiterada, a vítima desse racismo pode passar a acreditar que realmente é uma pessoa inferior. Dentro de um clube de futebol, por exemplo, essas brincadeiras prejudicam o crescimento e o desenvolvimento profissional de um atleta que sofre isso”, conta.
Tagino expressou, também, sua opinião sobre as punições e o papel da sociedade no combate ao racismo. “Uma outra questão importante de se pensar é que o racismo não é um problema só dos negros. O preconceito é ruim para os brancos também, pois afeta a economia, os clubes de futebol e a sociedade como um todo. Portanto, creio que todos deveriam se posicionar de forma mais incisiva para acabarmos com o racismo, não só as vítimas dele. Punir as pessoas que cometem esse crime é extremamente necessário também, não basta apenas promover ações educativas. Levar a mensagem é importante, mas temos também que punir os agentes”, avalia.
A naturalização desses apelidos é reflexo de uma sociedade que historicamente minimiza o racismo, tratando-o como algo folclórico ou parte da cultura popular. Quando um jogador é chamado por um termo pejorativo com tom “carinhoso”, poucos param para refletir sobre a carga histórica e o preconceito embutido ali.
O lateral-esquerdo Matheus Souza, promessa das categorias de base da Ponte Preta, expressou sua opinião sobre como os clubes e federações deveriam lidar com isso. “Acredito que os clubes deveriam fazer campanhas e palestras para mostrar aos jogadores, da base ou do profissional, como se portar dentro de campo, mostrando que o racismo não faz parte do jogo. No meio do futebol existem apelidos que acabam ofendendo a pessoa, mas são tratados como “zoeira”. Esses apelidos, em muitos casos, acabam pendendo para o racismo. Alguns atletas até lidam bem com eles, mas outros se sentem ofendidos, e uma “brincadeira” acaba tendo tons de maldade. Isso não é correto e as federações deveriam ter regras e fiscalizações mais rígidas, aplicando multas em casos de racismo e violência, por exemplo. Combater o racismo no esporte é sinônimo de lutar por uma sociedade melhor”, considera o atleta.
A neuropsicóloga e psicanalista, especialista em saúde comportamental, Andrea Ladislau, diz que o racismo não é brincadeira. Para ela, “em qualquer indivíduo, os atos racistas podem provocar um estrago mental. As falas vão criando marcas psiquicamente. No caso de um atleta, essa situação se agrava ainda mais, porque o bom desempenho dele também está relacionado ao bem-estar emocional. O racismo diminui a autoestima, gera sentimentos de inferioridade, incapacidade, insegurança e potencializa quadros clínicos de ansiedade e depressão severas”.
Matheus Souza conta, ainda, como se sentiu após ter sido vítima de uma ofensa racial durante a disputa de um campeonato. “Fui jogar um torneio em uma escola perto de casa. No calor da disputa, o jogador adversário me ofendeu me chamando de “neguinho”. Isso desconcentra a gente durante o jogo e depois nos faz perder a cabeça. Então, é preciso ter muito cuidado para que essas situações sejam punidas adequadamente e não afetem a vida de alguém. Nós atletas devemos sempre tratar nossos companheiros e adversários com respeito”, defende.

É importante destacar que essa prática, geralmente, começa nas divisões de base, quando crianças negras, muitas vezes vindas de contextos sociais vulneráveis, recebem os apelidos impostos como forma de recreativa e não sabem lidar com isso. O silêncio e a aceitação tornam-se, para muitos, estratégias de proteção. Mas o impacto psicológico e identitário permanece.
Andrea conta que a explicação para o racismo recreativo pode estar na própria competição em si. “No campo emocional, quando eu diminuo um adversário, quando eu o faço entender que vale menos do que gostaria, eu ganho força e visibilidade em cima dele. Ou seja, é uma forma de mostrar a minha superioridade, diminuindo o outro. E o racismo não deixa de ser essa ferramenta ou mecanismo utilizado para atingir esse objetivo”.
Para a neuropsicóloga, é necessário desenvolver, dentro dos clubes, trabalhos de prevenção ao racismo e a qualquer forma de violência. “Precisa integrar o grupo para que todos consigam compreender, de forma empática e com compaixão, o que dói em mim e o que dói no outro. Também é necessário que os clubes entendam que a psicoeducação deve fazer parte de todo o processo organizacional da instituição. Afinal os atletas são seres humanos que integram o time e estão sempre vivendo sob uma atmosfera que cobra muito deles”, explica.
Tagino Alves também destaca a falta de profissionais negros em outros cargos no futebol brasileiro. “Nós temos hoje pouquíssimos treinadores negros no Brasil, essa situação é, dentre tantas coisas, uma consequência do racismo recreativo também. Falando sobre as formas de combate, nós temos dentro da Ponte Preta uma diretoria de inclusão social, prevista no estatuto, voltada ao combate não só ao racismo, mas a todas as formas de exclusão. Realizamos também um ciclo de palestras com os meninos da base sobre o racismo no esporte, para conscientizá-los. Por isso, é importante ter pessoas negras nos cargos de gestão dos clubes também”.
Mais do que combater o racismo quando ele explode nas manchetes, é preciso agir na raiz. Clubes de futebol, federações e escolas de formação têm o dever de implementar políticas de educação antirracista, ouvindo os atletas, acolhendo suas histórias e, principalmente, enfrentando as práticas que sustentam esse ciclo de violência. A mudança passa por reconhecer que o racismo não está apenas nos xingamentos explícitos das arquibancadas, mas também nos apelidos ditos com um sorriso no rosto e na conivência de todos ao redor. Denunciar esses apelidos é uma forma de justiça e de mostrar que violência não é piada. Por trás de cada pessoa vítima de violência, existem uma história de vida e o direito de ser tratada com dignidade.
.
.
.
.
Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

