Esportes

Entre a teoria e o campo: o desafio de punir o racismo

Por Luis Gallo e Murilo Pascale

O cenário é familiar para quem acompanha o futebol longe dos grandes holofotes: uma partida da quinta divisão do Campeonato Paulista, onde a paixão pelo esporte se manifesta longe das câmeras e do glamour da elite. Em campo, Independente de Limeira e Tanabi não disputavam apenas três pontos, mas a chance de subir de divisão no futebol paulista. Para o atleta Diogo Vieira, do Tanabi, era apenas mais um dia de trabalho, de foco na tática, no movimento seguinte. Até que um ruído vindo da arquibancada rompeu com a normalidade do jogo.

Não foi um grito de gol ou a corneta de um torcedor, foi uma ofensa racial. O impacto, para Diogo, foi imediato e desorientador. “No começo, nem acreditei que era comigo”, relatou o jogador. A incredulidade inicial deu lugar a uma “mistura de choque, tristeza e revolta”. O ato racista não é apenas uma ofensa, é um evento que quebra a realidade, rompendo o fluxo do esporte por uma violência social que o campo de jogo deveria, em tese, anular. Naquele instante, a partida parou, não apenas pela intervenção do árbitro, mas na perspectiva do próprio atleta.   

Este episódio, longe dos grandes holofotes, acionou um mecanismo criado para combatê-lo: o protocolo antirracista da Federação Paulista de Futebol (FPF). A existência de uma diretriz formal representa um avanço na luta contra a discriminação. Contudo, a aplicação dessa regra e os desfechos de casos semelhantes pelo Brasil revelam um cenário complexo e, algumas vezes, contraditório. Enquanto um protocolo bem-intencionado oferece apoio em São Paulo, um caso no Paraná chocou o país ao punir a vítima com mais rigor que o agressor. O sistema está realmente preparado para proteger os atletas ou apenas para gerenciar crises?

O que diz o Protocolo

Para além de notas de repúdio, a FPF estruturou o “Tratado pela Diversidade e Contra a Intolerância no Futebol Paulista”, um documento que busca estabelecer um procedimento claro de combate à discriminação. Com uma base conceitual que reconhece o racismo como uma “construção histórica e sociocultural”, o tratado adota uma postura ativa, citando a filósofa Angela Davis, “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”.

O protocolo da FPF prevê a paralisação do jogo, mas a eficácia da punição ainda é um desafio cultural e logístico (Foto: Reprodução/Protocolo FPF)

O foco do protocolo é o acolhimento da vítima. Orientações de “escuta ativa” e proteção são pilares, com sugestões de frases de apoio como “Você não tem culpa pelo que está acontecendo”. O procedimento é claro: o jogo é paralisado, o diretor da partida é acionado, a vítima é ouvida e o agressor, identificado. A denúncia é então formalizada e encaminhada para as esferas esportiva e criminal. Para dar peso a essa promessa, o Regulamento Geral de Competições prevê sanções que vão de suspensão a multas de até R$ 400.000,00.

No caso de Diogo Vieira, os primeiros passos do protocolo funcionaram. O atleta sentiu-se amparado pela equipe de arbitragem e pelos dirigentes. “Sim, senti que houve um movimento para seguir o protocolo e me ouviram no momento. Fico agradecido pelo apoio deles, eles foram excelentes nesse quesito”, relata Vieira. Contudo, a percepção de Diogo sobre a eficácia do sistema a longo prazo é menos otimista. “O papel aceita tudo, mas na prática muita coisa falha. A reação tem que ser mais rápida, mais dura”, afirma o jogador. Ele acredita que, enquanto o agressor não sentir uma consequência real, o ciclo de violência persistirá.

Essa brecha entre teoria e prática é admitida por José Rotoli Mansur Filho, Diretor de jogo da FPF, que aponta dois grandes desafios. O primeiro é logístico: em jogos de menor visibilidade, o efetivo da Polícia Militar é reduzido, e a segurança privada, com “preparo e treinamento diferente”, nem sempre consegue identificar o agressor na torcida. O segundo desafio é cultural. Mansur descreve o futebol como um ambiente em que por anos “tudo se podia em relação a ofensas”, sob a justificativa da “paixão”. Mudar esse cenário, segundo ele, é um processo lento, que pode levar “5, 10 anos” e depende de punições exemplares e conscientização contínua.

O dilema do árbitro

Renata Ruel, comentarista e ex-árbitra, fala sobre a seletividade da mídia e a falta de preparo psicológico dos árbitros (Foto: Divulgação/ESPN)

Por trás da execução de qualquer protocolo está o fator humano. O árbitro é quem, sob a pressão do jogo e da torcida, deve transformar o regulamento em uma ação efetiva. No entanto, segundo a ex-árbitra e atual comentarista Renata Ruel, a arbitragem brasileira não está preparada para essa tarefa. “Não há treinamento específico para arbitragem lidar com situações de racismo dentro de um jogo”, afirma Ruel.  

Essa ausência de treinamento cria uma brecha que é preenchida pela subjetividade da interpretação. Em vez de um procedimento padronizado e psicologicamente embasado, a resposta em campo “vai muito da reação de cada ser humano”. Ruel ilustra essa fragilidade com uma experiência pessoal, quando, atuando como quarta árbitra, ouviu um colega ser chamado de “macaco” pela torcida. “Eu lembro que eu me desestabilizei no campo de jogo bandeirando, eu fiquei sem chão”, recorda. A reação do colega ofendido ao dizer “deixa, eu já tô acostumado”, e a sua própria perda de concentração, revelam o impacto psicológico que esses eventos causam em todos os envolvidos, não apenas na vítima direta.

A Seletividade da Mídia


A trajetória de um caso de racismo no esporte, desde o gramado até os tribunais, é frequentemente influenciada pelo poder da mídia. É ela quem pode transformar um episódio em um debate nacional ou deixá-lo morrer no relatório da partida. Renata Ruel é direta ao descrever o funcionamento seletivo da mídia. “Faz diferença se o Vini Jr. sofreu racismo e se foi um jogador da segunda divisão, a forma de noticiar simplesmente muda”, valia.

Essa cobertura desigual cria um cenário em que a indignação do público e a pressão por respostas oficiais são influenciadas pelo status do atleta. A ofensa é a mesma, mas o impacto é diferente. Renata Ruel defende uma mudança de postura, na qual a mídia assuma um papel proativo, promovendo “campanhas de conscientização” que vão além de slogans como “Basta de racismo”. O objetivo, segundo ela, deve ser incentivar uma real “mudança de comportamento social e cultural”, explicando a gravidade e as raízes do preconceito.  

Nesse cenário, a coragem da vítima se torna indispensável para qualquer mudança. A fala de Diogo soa como um convite a agir. “Eu diria pra não se calarem. O silêncio só fortalece quem faz o errado. A denúncia é o que faz as coisas mudarem.” Isso faz com que o atleta, muitas vezes isolado e em uma posição vulnerável, precise dar o primeiro passo. 

O atleta Diogo Vieira, do Tanabi, relata que a experiência o fez ter ainda mais orgulho de sua cor e da sua história após sofrer racismo em campo (Foto: Reprodução/Instagram)

Apesar da criação do “Tratado pela Diversidade” da FPF, a jornada entre a política no papel e a justiça dentro de campo é longa e cheia de obstáculos. A análise dos casos e dos relatos de quem vive o problema revela que um protocolo, por si só, é necessário, mas insuficiente.

A solução exige uma abordagem em frentes que combinem a necessidade de punição com a paciência da educação. Começa com o pedido de Diogo Vieira por punição real para que o agressor sinta o peso de seu ato. Passa pelo relato de Renata Ruel que solicita uma formação mais eficaz para a arbitragem. E alcança a visão de José Rotoli Mansur, que entende a mudança como um processo cultural lento, que depende da persistência de todos os envolvidos.

Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana




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