Esportes

Para além do racismo: entenda como funciona a interseccionalidade no esporte

Por Bruna Azevedo, Daniel Ribeiro e Maria Luisa Machado

Interseccionalidade é a ideia de que diferentes formas de preconceito (como racismo, homofobia e capacitismo) não ocorrem isoladamente. Elas se misturam e criam experiências únicas de discriminação. Sob o contexto de reivindicação de direitos de mulheres negras nos EUA, o termo foi utilizado pela primeira vez em 1989, em um artigo da jurista e ativista Kimberlé Crenshaw.

Maria Luiza Tenure e João Vitor Rodrigues investigam como racismo e capacitismo se cruzam na experiência de atletas paralímpicos (Foto: Daniel Ribeiro)

Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o orientando de iniciação científica João Vitor Rodrigues e a professora Maria Luiza Tenure, chefe do Departamento de Atividade Física Adaptada, pesquisam esse tema com ênfase no racismo e no capacitismo.

A pesquisa registrou o caso de uma atleta que sofreu racismo em uma competição internacional paralímpica. “No contexto paralímpico, onde a deficiência é uma característica comum a todos, ela foi estigmatizada por ser negra” e acrescenta “é uma experiência que se torna mais complexa e específica quando outros fatores se somam, como gênero, sexualidade, classe social e origem”.

Na prática, essa sobreposição de preconceitos causa dificuldade em isolar a causa de uma discriminação. É o que destaca João Vitor, ao explicar que no contexto internacional, a xenofobia é um fator a mais que pode ser confundido com outras discriminações.

Dentro de um contexto regional, o Secretário de Esportes de Campinas, Fernando Vanin, explica que pôr em prática a legislação vigente contra qualquer tipo de discriminação, seja racial ou não, ainda é um desafio. Vanin conta que por questões orçamentárias, a Secretaria de Esporte não consegue fazer esse trabalho de forma integral, por isso precisa buscar novos recursos, sejam estaduais ou federais, para poder atingir esse fim.

Segundo o Secretário, o setor tem implementado regras de convivência para os espectadores e promovido ações de conscientização, por meio de congressos técnicos e faixas educativas, elaboradas em parceria com times de futebol e outras modalidades esportivas. Todas essas ações com a finalidade de mudar um panorama atual de exclusões.

Já a professora Tenure aponta a naturalização de falas e atos discriminatórios como problemática principal a ser enfrentada, sendo uma ferramenta crucial em um mecanismo de opressão. Para ela, a falta de conscientização dificulta a identificação e a punição desses crimes. O problema se agrava pela interseccionalidade não percebida: muitas pessoas atribuem a violência que sofrem apenas ao capacitismo, sem reconhecer que o racismo também está presente e atua de forma combinada. Para a pesquisadora, essa confusão faz com que vítimas frequentemente não nomeiem ou relatem episódios de racismo, por acreditarem que a opressão se restringe à sua deficiência.

Tenure ressalta a necessidade de nomear esse tipo de violência para facilitar a identificação de situações de intersecção. “Se não soubermos nomear uma coisa, ela não existe”, explica. Ela acredita que a distinção de casos com intersecção pode despertar reflexões sobre a causa e conscientizar a população sobre falas e atos preconceituosos. “Estamos começando a reconhecer que a identidade da pessoa com deficiência é interseccional”, afirma a pesquisadora.

Outro aspecto abordado pela pesquisadora é a invisibilidade de pessoas negras com deficiência na mídia. Criticando a abordagem de superação que alguns veículos de informação utilizam ao retratar a trajetória, conquistas e desafios de atletas paraolímpicos, de forma repetitiva e genérica.

De acordo com a professora, a ideia de que atletas com deficiência precisam superar uma condição que faz parte de sua identidade é problemática. Ela afirma que veículos de informação precisam conscientizar a população sobre o trabalho dos atletas e abordar discussões relacionadas à causa contra o racismo para pessoas com deficiência.

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Contraponto: atletas não veem racismo, mas capacitismo

À frente das aulas de basquete em cadeira de rodas do Gadecamp (Grupo de Amigos Deficientes e Esportistas de Campinas/SP) estão o presidente Henrique de Moraes e o vice-presidente Alexandre Cândido. Para eles, as opressões podem se sobrepor e nem sempre se manifestam da mesma forma.

Na experiência de ambos, o racismo não é uma questão percebida dentro das quadras. O preconceito mais evidente em suas trajetórias é o capacitismo. Alexandre conta que “as pessoas primeiro enxergam a cadeira de rodas antes do ser humano” e afirma a importância do esporte: “aqui nós provamos diariamente que a deficiência não nos define”.

Para Henrique, que encontrou no basquete em cadeira de rodas uma ferramenta de ressocialização após se tornar paraplégico, a comunidade PCD no esporte forma uma rede de apoio e acolhimento fundamental para construir laços de amizade e fortalecer o sentimento de pertencimento. “Nosso meio é muito mais unido pelo que temos em comum: a deficiência” e sustenta “a luta aqui é outra, preconceito racial não é algo que tenha vivenciado ou testemunhado”.

A deficiência fez parte da vida de Alexandre Cândido desde a infância, como sequela da poliomielite. Já Henrique de Moraes tornou-se paraplégico aos 18 anos, após ser baleado durante um assalto. Foi no basquete que ambos encontraram uma ferramenta de transformação social, acolhimento e aprendizado, elementos cruciais na luta contra a exclusão por meio do esporte, defendidos por Tenure.

Nesse contexto, o atleta paraolímpico Lenilson de Oliveira compartilha uma trajetória semelhante. Ele tornou-se uma pessoa com deficiência na vida adulta, após um acidente de moto, e precisou se adaptar às novas condições. Lenilson relata que o racismo não se manifesta de forma explícita em seu cotidiano. Em contraste com a pesquisa apresentada por Tanure, e as observações do estudante João Vitor, Lenilson acredita que os incentivos da comunidade esportiva são suficientes para contribuir e reduzir casos de discriminação racial em treinos e competições.

Lenilson de Oliveira, atleta paralímpico: relata não sofrer racismo explícito em sua rotina no esporte (Foto: Reprodução)

Para os pesquisadores da Unicamp, nomear preconceitos específicos ajuda na identificação e combate à exclusão de grupos marginalizados. O que contrasta com o posicionamento de Lenilson, que diz não enxergar preconceitos no meio esportivo. Apesar disso, um relato comum entre todos os entrevistados é o papel transformador desempenhado pelo esporte na vida de diversas pessoas, seja como superação, construção de identidades, ou seja, pela luta contra preconceitos dentro do esporte e em sociedade.

Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana



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