Esportes

História da Ponte Preta carrega a luta contra o racismo em Campinas


Por Daniel Rosa, Giovana Perianez e João Pedro Pocciotti

A Ponte Preta, fundada em 1900 por um grupo de amigos do Colégio Culto à Ciência, tem em sua história memórias de combate ao racismo e resistência contra uma Campinas elitista do final do século XIX.

Miguel do Carmo, fundador e jogador da Ponte Preta (Foto: Patrimônio Histórico e Cultural Ponte Preta)

Miguel do Carmo, primeiro atleta negro da história do futebol brasileiro, Donana, torcedora símbolo, e Tiãozinho, primeiro negro presidente de um clube na série A do país, são nomes que marcam a identidade do clube na luta contra o racismo. Luta que nos dias de hoje busca um reconhecimento oficial por essa batalha.

Para Marco Antônio Castiglieri, Diretor de Patrimônio Histórico e Cultural da Macaca, a figura de Miguel do Carmo infelizmente não é reconhecida da maneira que deveria nos dias de hoje. “Criou-se uma narrativa inverídica de que o Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, foi o primeiro time do Brasil a ter um jogador negro, mas na verdade a primeira Democracia Racial do Brasil é a Ponte Preta que teve não só o primeiro jogador de futebol negro, como também um dos fundadores do clube”, afirma Castiglieri.

Já o jornalista campineiro e pontepretano Israel Moreira afirma que a identidade da Ponte Preta na luta contra o racismo é fundamental pela identificação com a torcida. “A Ponte influenciou muito a forma como penso e ajo. Sendo negro e campineiro, tenho clareza da luta do clube ao lado da comunidade negra da cidade desde os anos 1900. A Ponte foi instrumento de inclusão social em uma Campinas cafeeira, pelo menos até o fim da década de 1920. Sua atuação extrapolou os limites do esporte, alcançando a cultura, a religiosidade e até a política local. Isso marcou profundamente minha forma de compreender a sociedade e reforçou meu engajamento contra o racismo”, relata Moreira.

O apelido Macaca para a Ponte Preta surgiu de forma pejorativa na metade do século XX. Com a inauguração do Estádio Moisés Lucarelli em 1948, os torcedores da Ponte se reuniam nos bares no início da Rua Barão de Jaguara e depois subiam a rua até o estádio para os jogos, grupo formado majoritariamente por pessoas pretas. No meio do caminho até o campo estavam os torcedores do Guarani, que se reuniam no Edifício R. Monteiro, na mesma rua, e sempre que este encontro entre os torcedores rivais acontecia, os pontepretanos ouviam dos bugrinos: “olha lá, lá vem a macacada”.

Os insultos se repetiam em jogos fora de casa. A torcida da Ponte Preta sempre foi muito popular, de origem pobre da classe operária e ao mesmo tempo muito apaixonada e fanática e nunca mediu esforços para acompanhar o time. Em jogos fora de Campinas a torcida sempre comparecia em grande número fazendo muita festa, como ato covarde e preconceituoso, as outras torcidas repetiam o xingamento.

O apelido pejorativo na época foi adotado pela diretoria e pela torcida com orgulho, chegando a se tornar a mascote oficial do time. Ainda segundo Castiglieri, tem a questão de gênero: “A macaca é única no Brasil e no mundo. Nós temos várias mascotes e repetidos, temos vários tigres, leões, tubarões, índios, mas Macaca é único, só a Ponte Preta”.

Moreira afirma que o racismo recreativo sempre existiu e ainda existe, que este tratamento se normalizou na época e que hoje não cabem mais. “A própria Ponte Preta carrega em sua história a transformação de sua mascote, resultado de sucessivas atitudes racistas de adversários. Hoje a mascote, ao lado do estádio, é um dos maiores ícones da Ponte, representando sua essência popular, de resistência e pertencimento”.

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Memória, pertencimento e combate

Em relação à memória do clube, a Ponte Preta sempre adotou uma postura de reconhecimento histórico com seus atletas, ex-atletas, torcedores e todas as personalidades que fizeram parte do clube. Além de Miguel do Carmo, a Macaca exalta também a figura de Donana, torcedora símbolo.

Ela dedicou grande parte da sua vida à Ponte Preta. Saía de sua casa todos os dias, de ônibus, e ia para o estádio Moisés Lucarelli limpar a Capela, os troféus da Ponte e conversar com os jogadores.

Sebastião Arcanjo, o Tiãozinho, ex-presidente da Ponte Preta (Foto: PontePress/RogérioCapela)

Apesar de sua origem popular e histórico de lutas em defesa das pautas raciais, a Ponte Preta só foi ter o seu primeiro presidente preto em 2019, Sebastião Arcanjo, ou Tiãozinho, como era conhecido. Na época ele era também o único presidente negro das três primeiras divisões do campeonato brasileiro!

Tiãozinho foi importante para a questão racial no futebol brasileiro e tentou fazer com que a Macaca fosse reconhecida como a “primeira democracia racial” pela FIFA. Ele encaminhou pedidos formais com o histórico do clube na inclusão e luta contra o racismo, mas o principal órgão do futebol mundial ainda não concedeu este título. Para João Carlos de Freitas, jornalista esportivo, o fato da Ponte Preta ser uma associação atlética pode ter dificultado, não tendo influência política no futebol internacional. Hoje a Macaca se autodenomina a primeira democracia racial, usando registros e sua história como argumento.

Há dois anos o clube realizou a reforma do seu Estatuto Social e duas novas Diretorias foram criadas: a Diretoria de Patrimônio Histórico Cultural e a Diretoria de Inclusão Social. A Diretoria de Patrimônio Histórico Cultural criou o CEMAAPP (Centro de Memória da Associação Atlética Ponte Preta), que é responsável pela coleta, armazenamento e divulgação de todo material relativo à Ponte Preta e sua história.

Para Israel Moreira, os clubes, em sua maioria, promovem ações sazonais de combate ao racismo, sendo insuficientes para enfrentar o problema de forma efetiva. Já no contexto da Macaca, ele acredita que a situação mudou para melhor nos últimos anos: “Percebo uma mudança, impulsionada pelo alcance das redes sociais, que ampliou a discussão. Nesse contexto, o reconhecimento da Ponte Preta tornou-se muito relevante em nível nacional. Falar sobre racismo no futebol sem citar a Ponte e sua importância histórica é impossível”, considera o jornalista.





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