Esportes

Entre o racismo e o machismo: o duplo desafio das mulheres negras no futebol brasileiro

Por Bianca Freitas, Gabriela Moda e Júlia Domingues

O futebol feminino brasileiro vive, atualmente, um momento expressivo quando o assunto é popularidade. A expansão da cobertura na mídia é um dos motivos que explicam esse crescimento, acompanhado de investimentos e competições de alto nível. Em setembro deste ano, o primeiro jogo entre Cruzeiro e Corinthians pela final do Brasileirão Feminino bateu recorde de público no estádio para a modalidade feminina, com cerca de 20 mil torcedores.

De acordo com o Google Trends, a busca por futebol feminino cresceu 170% no Brasil nos últimos cinco anos. Esse avanço mostra que a modalidade tem potencial no país, mas ainda falta muito para se igualar ao masculino. Para Ana Rafaela, lateral direito do Operário FC, faltam investimento e cobrança. “Hoje, um clube só é obrigado a ter um time feminino se o masculino estiver na primeira divisão, fora isso, não é obrigatório. Então, infelizmente os clubes preferem não investir. Mas eu acredito que isso vai mudar. Espero que logo a segunda divisão também seja obrigada a ter um time feminino profissional, assim mais meninas terão oportunidade de jogar”, comenta.

Ana Beatriz Silveira atua no time universitário Morsa, da Atlética de Comunicação e Artes da PUC-Campinas, e revela a realidade de quem joga por paixão, sem estrutura ou reforço financeiro. No áudio a seguir, ela descreve a realidade que enfrenta dentro do campo e dos campeonatos amadores e como isso impacta sua trajetória no futebol.

Ana Beatriz Silveira, jogadora de futebol amador da Morsa, Atlética de Comunicação e Artes da PUC-Campinas
Equipe de futsal feminino da Atlética de Comunicação e Artes da PUC-Campinas e treinadores Leonardo Ambrosin e Vitor Macedo (Foto: Arquivo pessoal)

Da base ao profissional, o futebol feminino enfrenta salários desiguais, estrutura precária de treinamento e falta de visibilidade na mídia. Além disso, jogadoras relatam casos de assédio, racismo e discriminação de gênero, que muitas vezes passam “despercebidos”.

No campo, o peso das desigualdades também é sentido. Lurdinha, atacante do Fluminense e uma das promessas do futebol feminino brasileiro, resume em sua trajetória o duplo desafio de ser mulher negra no esporte.

Ana Lourdes, conhecida como Lurdinha, atacante do Fluminense FC, reivindica igualdade para o futebol feminino em relação ao masculino e destaca que “talento não tem cor nem gênero” (Foto: Arquivo pessoal)

Criada na periferia do Rio de Janeiro, ela começou jogando em escolinhas mistas, onde era frequentemente deixada de lado. Hoje, mesmo atuando por um grande clube, relata que a diferença de tratamento entre atletas homens e mulheres é visível e ainda mais acentuada quando se trata de jogadoras negras. “Muitas vezes a gente escuta que não tem o mesmo porte físico ou o mesmo ‘perfil’ para ser destaque. Isso machuca, porque o talento não tem cor nem gênero”, afirma Lurdinha.

A jogadora acredita que o futebol feminino tem avançado em visibilidade, mas ressalta que a representatividade ainda é restrita. “Quando ligo a TV e vejo uma mulher negra sendo narradora ou comentarista, sinto que posso estar ali também. Mas ainda são poucas. A gente precisa ocupar mais espaços”, diz.

Assim como outros atletas, Lurdinha enxerga a falta de investimento e de oportunidades como barreiras estruturais. O apoio, segundo ela, precisa começar na base, para que mais meninas negras consigam chegar ao profissional. Mas o desafio não está somente no campo.

Segundo pesquisa realizada pela ONU Mulheres em 2024, apenas 2,7% dos cargos de gerência nos clubes de futebol brasileiros são ocupados por mulheres. Isso vai contra a legislação esportiva do Brasil, que estipula 30% de mulheres em cargos de liderança nas organizações que recebem dinheiro da loteria esportiva.

Apesar dos avanços, o espaço ocupado pelas mulheres no futebol está longe do ideal. Se dentro de campo elas conquistam cada vez mais visibilidade e oportunidades, fora dele, em cargos de comando, gestão ou na mídia, o cenário segue concentrado nas mãos dos mesmos homens que sempre controlaram o esporte. “Quando uma mulher entra em um espaço de poder, ela ainda precisa provar o tempo todo que merece estar ali. E quando essa mulher é negra, o caminho é duas vezes mais difícil”, explica a pesquisadora Júlia Barreira, docente da Faculdade de Educação Física da Unicamp.

A técnica Lindsay Camila, formada na Europa, passou pelas categorias de base do Lyon e trabalhou com equipes masculinas antes de retornar ao Brasil para integrar a comissão técnica da Seleção Feminina Sub-17. Em 2021, fez história ao conquistar a Copa Libertadores com a Ferroviária, tornando-se a primeira mulher a vencer o torneio como técnica.

A presença feminina à beira do campo ainda provoca reações marcadas pelo machismo e pelo racismo. Lindsay conta que, mesmo depois de anos de experiência, ainda percebe comportamentos que refletem uma cultura patriarcal profundamente enraizada. “A mulher acaba criticando a narradora porque não está habituada a ouvir mulher narrando. É a mesma coisa com treinadoras. A gente vem de um país muito patriarcal, e muitas vezes até nós, mulheres, replicamos comportamentos machistas sem perceber”, reflete.

Os episódios de racismo, infelizmente, ainda são uma realidade dolorosa no esporte. Lindsay relembra um caso marcante, uma jogadora do Bahia foi chamada de “macaca” por um treinador adversário durante uma partida. “O choro dela foi tão real, tão forte, que eu me emocionei. Se já é difícil pra mim como mulher, imagina pra ela, uma atleta negra, ouvir aquilo em campo”, conta, com a voz embargada. Para a treinadora, o combate ao racismo precisa ir além das notas de repúdio e campanhas simbólicas. “Acho que tem que existir punições severas. Excluir a equipe mesmo, assim como já aconteceu em outras competições. É muito bonito no papel, mas na prática a gente precisa agir”, exige.

A técnica acredita que o suporte institucional ainda é insuficiente. Segundo ela, visibilidade, estrutura e investimento são os primeiros passos para mudar o cenário. “O futebol feminino pode ser um produto melhor se tiver formação, estrutura física e financeira. E se houver obrigatoriedade de mulheres na comissão técnica, não por cota, mas com formação e oportunidade real”, defende.

A trajetória de Lindsay carrega um peso histórico. Em um país onde o futebol feminino foi proibido por décadas e o machismo ainda define quem pode mandar em campo, mulheres no comando são exceção e inspiração. Sua carreira, marcada por conquistas, improvisos e resiliência, simboliza uma geração que abriu caminho para outras. “Cada experiência me trouxe algo. Ainda somos poucas, mas estamos melhor do que outras modalidades. Espero que, com o tempo, a mulher no comando deixe de ser vista como exceção e passe a ser apenas mais uma profissional qualificada fazendo o que ama: trabalhar com futebol”, desabafa a treinadora.

Assista ao depoimento da técnica Lindsay Camila, uma das poucas mulheres à frente de um time de futebol feminino no Brasil.

Lindsay Camila, primeira mulher a vencer a Copa Libertadores como técnica de uma equipe de futebol feminino

A estrutura do futebol ainda reproduz as mesmas violências de gênero e raça que estão enraizadas na sociedade. A diferença de salários, o assédio, o racismo e a falta de representatividade das lideranças mostram que a luta pela equidade está longe do fim.

Nesse cenário, a mídia esportiva tem um papel decisivo. Ao mesmo tempo em que pode denunciar injustiças e abrir espaço para novas narrativas, também é capaz de reforçar estereótipos e silenciar vozes. “Quando a mídia escolhe sempre mostrar o mesmo padrão de mulher, ela contribui para a invisibilidade das jogadoras negras. Mas quando decide escancarar as desigualdades, pode gerar mudanças reais”, aponta Júlia.

Para que o futebol avance rumo à igualdade, é preciso que clubes, federações e a própria sociedade assumam responsabilidades concretas. Ações educativas, políticas de inclusão e punições efetivas ao racismo são passos fundamentais. “A diversidade nas gestões muda o olhar sobre o esporte. Mulheres negras, lésbicas, com filhos, com deficiência, todas precisam estar representadas, porque só assim as políticas serão realmente diversas”, defende a professora da Unicamp.



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