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Jornada pela presença feminina na cobertura esportiva

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Por Ana Luiza Frozino e Bianca Bernardes

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A luta das mulheres pela conquista de espaços é uma realidade desde o século passado e permitiu a aquisição de inúmeros direitos que antes eram exclusivos dos homens. Ao longo do tempo, a população feminina se mobilizou para derrubar o patriarcado e conquistou o direito de votar, de trabalhar e até mesmo de praticar esportes. No Brasil, um decreto-lei de 1941 e uma resolução de 1965 do Conselho Nacional de Desportos chegou a proibir a prática de diversas modalidades por mulheres, como o futebol, reforçando os estereótipos de gênero que bloqueavam a presença feminina nesses locais.

Com a justificativa de que o esporte não se adequava ao físico das mulheres porque elas eram sensíveis e o impacto poderia levar à infertilidade, o governo brasileiro refletia, na realidade, questões mais profundas de gênero, frutos de um machismo estrutural, como conta a pesquisadora doutoranda em comunicação pela Unesp e autora do livro “Mulheres em campo: Gênero no Jornalismo Esportivo Brasileiro”, Erika Alfaro, no vídeo abaixo.

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A quebra desse preconceito só foi começar em 1977, com a realização da CPI da mulher, que procurou investigar a histórica posição subalterna das mulheres na sociedade e propor soluções. Dos 22 senadores e deputados que compunham a investigação, apenas uma era mulher: a deputada Lygia Lessa Bastos, que foi encarregada de redigir um documento com o relatório das investigações e uma série de recomendações ao poder público. Funcionou. Em 1979, o governo passou a abrir a primeira brecha para a prática esportiva feminina.

Regiani defende que as mulheres devem desenvolver um estilo próprio (Foto: arquivo pessoal)

No ano seguinte, Regiani Ritter, uma das primeiras jornalistas esportivas do Brasil, começava a dar os primeiros passos da sua história com o esporte. “Não estava nos meus planos ser jornalista esportiva. Eu tinha um programa musical com variedades, de 2 horas, na Rádio Gazeta Am, e falava por 5 minutos de futebol sobre resultados do dia anterior e classificação e próximos jogos. Arriscava até uns comentários, mesmo entendendo pouco da matéria. Até que um dia, em 1980, o diretor de esporte, Pedro Luiz Paoliello, me convidou para cobrir um repórter que ia viajar com a seleção brasileira e ficar fora uns 2 meses, que acabaram virando 30 anos”, conta.

Como única mulher naquele ambiente, que ainda pertencia praticamente 100% aos homens, Regiani teve que ouvir muita coisa difícil e enfrentar uma série de desafios. “Embora eu soubesse que ia causar estranheza, foi mais. Alguns jornalistas me receberam bem ou ficaram neutros, mas tinham os hostis, que deixavam claro que não me aceitavam e tentaram dificultar, mas não conseguiram”, conta a jornalista.

Ela ainda relembra de um momento marcante que viveu nesse período, que quase a fez desistir. “Impactante foi um episódio ocorrido no Brinco de Ouro, em Campinas, num jogo Guarani x Palmeiras. Pelo túnel dos jogadores, fui para o gramado rumo ao vestiário do Palmeiras quando vi uns 20 torcedores agrupados na arquibancada gritando palavrões para mim, me insultando. Fiquei em choque e pensei em ir embora  me questionando o que eu estava fazendo ali”, relembra. 

Quase 45 anos depois, a realidade mudou, mas ainda não é tão diferente. As mulheres passaram a conquistar mais espaços nas redações esportivas e as modalidades femininas passaram a ganhar reconhecimento. Em dezembro de 2020, a rede Globo anunciou a primeira mulher narradora esportiva da história da emissora, Renata Silveira, e hoje já conta com um time de mulheres em suas coberturas. Nas Olimpíadas de Paris 2024, o futebol feminino teve recorde de audiência e o Brasil conquistou a medalha de prata, demonstrando maior interesse e investimento na modalidade. Além disso, atualmente, muitas meninas ingressam no jornalismo já com o sonho de seguir no esporte, o que na época de Regiani nem era uma possibilidade.

Ingrid Serafim aponta que os ataques vêm da falsa sensação de liberdade (Foto: arquivo pessoal)

Esse é o caso da estudante de jornalismo na PUC-Campinas, Ingrid Serafim. Ex-estagiária no Globo Esporte e produtora no Canal Goat, ela ingressou no curso já com o intuito de seguir carreira esportiva, fruto de uma paixão da infância pelo esporte. Ela teve a sua primeira oportunidade logo no seu segundo ano de faculdade, quando foi transferida do Portal G1 para o Globo Esporte em seu estágio. 

Apesar disso, a estudante, assim como a repórter Natália Santana, que trabalha atualmente na Rede TV e na Santos TV, ainda enfrentam desafios muito semelhantes aos de Regiani, mas com um toque moderno, fruto das redes sociais. O preconceito ainda existe e, infelizmente, o ambiente esportivo ainda é hostil para as mulheres. Elas relatam as suas experiências no áudio abaixo:

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Para contornar essa situação, Érika pontua que é necessário um trabalho coletivo, que parta desde uma educação mais inclusiva, que incentive as mulheres a ocuparem esses espaços e os homens a respeitá-las, até a preparação das redações jornalísticas para lidar com essas questões. “Eu acredito que o único caminho possível para mudar isso é a educação. Então, é preciso que os profissionais sejam preparados para o mercado, com cursos de jornalismo que promovam essas discussões de gênero e prezem por uma sociedade diversa, mas também que as redações mudem, revisando as práticas internas e refletindo sobre a inclusão feminina nesse meio”, aponta a jornalista.

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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

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