Seja no vôlei ou no futebol, atletas e equipe técnica agem juntos para romper o silêncio e enfrentar o racismo que atravessa os campos e as quadras
Por Luiza Pessopane e Pedro Rabetti
Em um campo onde o talento deveria importar mais do que a cor da pele, o apito final ainda não encerrou a luta contra o racismo. No Brasil, a Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, determina que crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, sejam punidos com detenção de dois a cinco anos, mesmo tempo de pena para a injúria racial. Prevendo uma reclusão de um a dois anos e multa para quem cometer atos violentos em eventos esportivos, o projeto de lei (PL) 2.889/2023, aprovado pela Comissão de Esporte (CEsp), proíbe por três anos a frequência em locais destinados a práticas desportivas como estádios e ginásios.
Para o ex-goleiro Mário Lúcio Duarte Costa, mais conhecido como Aranha, essa é uma medida que pode incentivar o indivíduo a pensar várias vezes antes de cometer determinado crime. “Qualquer pessoa que entra já com o espírito, com esse ímpeto, com essa vontade de praticar a violência, e se depara com uma propaganda sobre punição, não tem como não parar um pouco para refletir. Então, se o torcedor entrasse no estádio e já se deparasse com esse tipo de propaganda, alertando sobre a punição que o seu time do coração poderá sofrer por um ato de violência, acho que esse torcedor repensaria muito”, reflete.
Vítima de ofensas racistas vindas da arquibancada em uma partida entre o Santos e o Grêmio, em 2014, o caso de Aranha marcou o futebol brasileiro e, de certa forma, ampliou o debate sobre racismo. “Só de estarmos falando sobre esse assunto, já é um avanço muito grande”, reconhece, lembrando que a visibilidade do tema é um progresso e que é preciso continuar falando para fortalecer a luta.

A iniciativa mencionada por Aranha, é uma das condutas adotadas pela equipe do Vôlei Renata, time sediado em Campinas. Historicamente considerada a última cidade a abolir a escravidão, a metrópole carrega até hoje heranças da sociedade escravocrata do século XIX. “Para conscientizar a torcida, mantemos alertas antes de cada jogo. O narrador reforça que atos discriminatórios podem resultar em perda de pontos ou exclusão do campeonato, já que o clube também pode ser responsabilizado por atitudes da torcida. Essa conscientização é essencial não só pelos nossos valores, mas também para evitar punições esportivas”, revela o Assessor de Comunicação do Volêi Renata, Lucas Simionato.
Ele reitera que, apesar dos alertas e protocolos terem seu valor, é triste ainda ser necessário lembrar o público de que racismo é crime e destaca que esse comportamento não deveria existir na sociedade.
Diante dos reflexos do racismo estrutural, ainda é possível se deparar diariamente com uma relutância da sociedade em compreender a seriedade do ato discriminatório, muitas vezes banalizado no meio futebolístico. “Eu costumo dizer que o racista precisa de duas coisas no estádio para poder praticar o ato dele. Ele precisa se sentir seguro e confortável. Seguro, no sentido de que ele sabe que não vai acontecer nada com a integridade física dele. Confortável, porque sabe que vai praticar o ato e as pessoas que estão ao redor não vão condenar. Muitas vezes vão rir ou vão republicar. Então, se ele estiver seguro e confortável, ele vai de alguma forma praticar a sua violência”, esclarece Aranha.
Embora ressalte que, diferentemente do futebol, o vôlei seja um esporte olímpico que possui uma cadeia institucional muito ligada ao apoio governamental, gerando uma cobrança maior sobre condutas éticas, Lucas afirma que a modalidade ainda não está imune a esses problemas. “Recentemente, passamos por uma situação de crime flagrante em um jogo das categorias de base. O técnico precisou retirar o atleta da quadra para registrar boletim de ocorrência e seguir o protocolo. O processo corre sob sigilo. Nossa prioridade é proteger quem foi vítima, sem expor publicamente o jogador, que é jovem e ainda está amadurecendo. Damos todo o suporte psicológico e jurídico e seguimos com a denúncia, pois consideramos esse tipo de situação inadmissível em uma competição esportiva”, pontua.
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Das arquibancadas às redes

A experiência de quem já sofreu a violência tanto nas arquibancadas, quanto nas redes, cria a sensação de que na internet tudo pode. Para Mário Aranha, a solução passa menos por leis e mais por uma mudança de mentalidade. “Acho que o nosso problema é mais cultural”, afirma ao ponderar que o racismo encontrou um novo espaço de reverberação no mundo digital, e, com a rápida capacidade de reprodução das redes sociais, o estrago é ainda maior. “Nós nos acostumamos a um ferir o outro e agora, com a internet, você consegue ferir várias pessoas ao mesmo tempo, em um curto espaço de tempo”, resume.
Em 2015, o ex-goleiro voltou a ser alvo de ataques, dessa vez em um grupo de torcedores no Facebook. As ofensas mostraram como o preconceito migrou dos estádios para o ambiente virtual, revelando um novo tipo de violência silenciosa, rápida e multiplicada em comentários, curtidas e compartilhamentos. “Por mais que você tenha um perfil falso, alguma coisa, você sempre vai deixar rastro, você vai ser descoberto, principalmente se cometer um crime”, alerta. O ex-goleiro afirma que é nesse ponto que está o papel da educação e da responsabilidade coletiva: transformar o ambiente digital em um espaço de convivência, e não de violência.
Lucas explica qual é o método de conduta adotado pela equipe que, diante de casos de racismo digital, não permite que os comentários se proliferem. “Em casos mais graves, nosso protocolo começa acionando as ferramentas da própria rede social, denunciando o conteúdo. Depois, oferecemos apoio psicológico, para o qual temos uma psicóloga e uma assistente focadas nas categorias de base, e, se necessário, envolvemos o departamento jurídico”, informa o assessor.
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Impacto psicológico
A violência racista no esporte não termina quando o árbitro apita. Em uma partida em que o talento deveria ser ditado pela performance, mas é punido pela cor, ela reverbera no corpo e na mente do atleta.
Segundo a psicóloga esportiva Karina Saraiva, os jogadores jovens aprendem rápido que expor um caso pode custar espaço, vaga e carreira, e muitas vezes acreditam que devem engolir o sofrimento em nome do sonho. “Tem esse medo. Então, além de tudo, esses seres humanos precisam ter medo de perder mais ainda em algumas situações. ‘Pô, meu sonho é ser jogador de futebol. Se eu falar, vou ser dispensado’”, exemplifica ao manifestar o motivo de insistir em uma postura ativa dentro dos elencos. “Eu sou a maior incentivadora de encorajar esses atletas a falarem, a não ter medo de se expor em favor de valores”, ressalta.
Quando o ataque não acontece no estádio, mas nas redes sociais, a situação se agrava, porque o controle praticamente desaparece. Karina conta que acompanha atletas — inclusive menores de idade — que se tornam alvo de exposição e passam horas presos em um ciclo de leitura de comentários e julgamentos. “Esses jovens não conseguem dizer ‘não, não vou olhar’. Eles querem olhar, e isso vai alimentando a ansiedade, a angústia, a tristeza e a raiva”, declara a profissional ao advertir que o resultado desse consumo contínuo de hostilidade é emocionalmente corrosivo, principalmente para atletas entre 12 e 13 anos que estão iniciando a carreira. “Um ataque racista pode quebrar as expectativas em relação ao próprio esporte, ocasionando uma ruptura de tudo aquilo que ele idealizou. É um impacto tão forte no emocional do atleta, que pode ser que ele nem volte a jogar mais. Não é uma questão de entregar um bom desempenho, mas de não performar mais”, esclarece.

Casos como esse acontecem mesmo em modalidades nas quais há muitos atletas negros atuando, o que desmonta a ideia de que certos ambientes seriam ‘mais protegidos’ e de que a discriminação não deveria acontecer em determinado ambiente. Para a psicóloga, enfrentar esse quadro passa por uma mudança estrutural na forma como o esporte brasileiro enxerga a saúde mental. “Psicologia não pode ser tratada como luxo, nem como emergência após o dano. Tem que fazer parte da construção do atleta. Eu sempre recomendo que todos os atletas tenham um acompanhamento psicológico independente do assunto da demanda. O atleta tem que ter a nutricionista, o fisioterapeuta, o preparador físico, e tem que ter o psicólogo junto com ele”, esclarece ao garantir que a demanda começa cedo. “Ele fala, quero ser atleta. Então, vamos lá, vamos pegar e vamos contratar um psicólogo esportivo junto com toda uma equipe, uma comissão”, complementa.
Karina defende que esse trabalho é minucioso e exige um conhecimento profundo da história de vida de quem está competindo. “O atleta não chega ‘zerado’ à quadra. Ele já carrega vivências de exclusão, pressão e medo. ‘Quem é esse atleta? Qual é a história de vida desse atleta? O que esse atleta já passou nesse período?’”, questiona ao declarar que ninguém está emocionalmente blindado aos ataques e não se deve romantizar a dor e, especialmente, a ideia de que o sofrimento pode virar motivação esportiva. “As dores dos atletas não podem ser minimizadas. Não é assim que funciona. Empurrar o atleta de volta à arena sem cuidado, só amplia o estrago emocional. Se ele estiver no próximo jogo e ele perder, essa dor só vai duplicar aquele estresse mental que ele teve. Aquilo vai tomar uma proporção muito maior dentro dele”, adverte.
A psicóloga salienta que a mídia também tem papel no protocolo antirracista. “A mídia, independentemente de onde ela esteja, tem que passar essa informação da melhor maneira possível, de forma correta, na verdade. E isso começa por parar de tratar ofensas raciais como ‘exagero ou ‘normalidade de jogo’, menciona Karina ao relembrar o caso recente de um atleta que reagiu em campo e ouviu depois que ‘era só falar com o juiz’.
Ao projetar o futuro, a psicóloga resume três passos que, para ela, ainda faltam para que o esporte seja emocionalmente seguro e racialmente responsável. O primeiro é acesso real, com preparo humano, não só físico. O segundo é permitir que profissionais de saúde mental atuem sem bloqueio interno dos clubes. E o terceiro, é um princípio que ela chama de urgente: “A terceira coisa para mim é humanizar, é essa a palavra.”
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Vozes que revolucionam
Uma década depois de ter sido alvo de ofensas racistas, Mário Aranha continua sendo uma das figuras mais firmes na luta contra o preconceito no futebol. Com palestras motivacionais, dois livros publicados e uma premiação pelo Ministério dos Direitos Humanos, o ex-goleiro acredita que a principal mudança dos últimos anos, está no comportamento das vítimas e da sociedade diante dos casos. “As pessoas começaram a se encorajar mais para poder denunciar. A gente vê as pessoas na rua já com um comportamento diferente, filmando, tentando pegar provas, fazendo a denúncia, não aceitando”, assegura.
Mais do que revisitar um episódio de dor, Aranha decidiu transformar a própria história em ferramenta de aprendizado. Com a visibilidade que conquistou, ele tem usado suas palestras e a literatura para levar a educação antirracista às escolas e às arquibancadas. Autor de Brasil Tumbeiro (2021) e Patrocínio (2022), o ex-goleiro apresenta referências negras, resgata memórias apagadas e convida jovens a enxergarem caminhos para além do futebol. “O silêncio sempre foi um aliado do preconceito. Continuar falando é, talvez, a forma mais poderosa de combatê-lo”, finaliza o idealizador do projeto que nasce do compromisso de usar sua voz pública para promover respeito e consciência.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

