Esportes

Independência financeira ainda é obstáculo para atletas negros de alto rendimento

Por Gabriela Belloto, Isabelle Layara, Isabelly Godoy, e Maria Eduarda Inácio

Na última Olimpíada de Paris, em 2024, das 15 medalhas individuais conquistadas pelo Brasil, nove vieram de atletas negros. Os resultados, porém, contrastam com a realidade de quem precisa se desdobrar para continuar competindo. Pesquisa do SEBRAE (2023) destaca que 51% da população preta brasileira está à frente de um negócio, principalmente por necessidade ou autonomia financeira. Entretanto, faltam dados segmentados sobre pessoas negras empreendendo especificamente no setor esportivo, evidenciando uma lacuna importante de representatividade e acesso ao mercado.

Faixa preta em Jiu-Jitsu, em 2024, Denis Seixas conquistou ouro no sul-americano e faz parte da equipe FIDE Brazilian Jiu-Jitsu (Foto: Isabelly Godoy)

Essa é a realidade de Denis Seixas, professor e competidor de jiu-jitsu há mais de uma década, que se prepara para disputar o European Jiu-Jitsu 2026, no mês de janeiro, em Lisboa. Para arcar com as despesas, ele já precisou vender rifas e até paçoca no semáforo, além de arrecadações por “vaquinhas” online. “Na minha carreira toda, tivemos que buscar incentivo próprio. Porque financeiro, no começo, não tem nenhum. Infelizmente, não temos incentivo nem do governo, nem das empresas privadas, que priorizam esportes coletivos, como o futebol”, afirma.

Além do custo, Denis relata o preconceito contra as modalidades individuais de luta. “A gente é taxado como competidor, mas não é visto como esportista”, critica. Em viagens, por exemplo, a logística vira mais um adversário. Em Curitiba, quando foi competir por conta própria, enfrentou problemas de estadia, por não conseguir hotel para dormir, e lutou exausto. Mas mesmo assim conquistou a medalha de prata.

A falta de apoio não é uma experiência isolada. Justamente neste contexto, o trabalho de iniciativas como a Afro Esporte se torna um novo caminho. Criada em 2019 pela jornalista Mia Lopes, a sportech de impacto social acelera a carreira de pessoas pretas no universo esportivo por meio do empreendedorismo e da tecnologia. “Um atleta não deveria precisar fazer uma rifa para competir. Principalmente se ele vai defender o seu país”, afirma a CEO.

Foi dessa inquietação em relação ao mercado esportivo e a cobertura da mídia sobre os atletas negros, que os conteúdos compartilhados no perfil de Mia, se tornaram um grande projeto de impacto social.

Jornada do herói

Mia Lopes, além de diretora-executiva da Afro Esporte, é jornalista e reconhecida como Linkedin Top Voices. Também é líder e fundadora do “Nós no Corre” desde 2023. Um projeto da Afro Esporte que busca tornar a corrida de rua um espaço mais diverso. Curiosamente, ela lutou boxe até os 16 anos
(Foto: reprodução Instagram @mialopesmaia)

Durante a pandemia da Covid-19, Mia viu de perto atletas negros enfrentando desafios para sobreviver vendendo marmitas ou como motoristas de aplicativo, além de ONGs e centros esportivos comunitários fechando as portas. Enquanto observava os atletas, percebeu que aqueles com o mínimo de conhecimento digital saíram na frente. Assim, ela decidiu agir, ao entender que a raiz do problema está em como o Brasil enxerga o esporte. “Aqui, o esporte é tábua de salvação. Nos países que mais ganham medalhas, o esporte é valor social.” 

Segundo ela, o jornalismo esportivo ainda insiste em narrativas que exaltam a superação individual, quase sempre atreladas à pobreza e à violência. O que reforça a ideia de que pessoas pretas só vencem após sofrimento extremo. “Há uma dificuldade em contar a história de um atleta negro sem ser nesse lugar da dor. Isso é perigoso, porque coloca na mente de outras pessoas pretas, de crianças, esse storytelling, onde para você ter sucesso, você precisa sofrer por ele”, diz Mia.

O desenvolvimento do atleta na Afro Esporte é pessoal.  “O que queremos aqui é que o atleta promova esse desenvolvimento social e econômico para a independência financeira. Ter condições de ler um contrato e conseguir entender, de utilizar inteligência artificial para dar suporte àquilo que ele não sabe fazer “, conta a jornalista, e acrescenta que além de promover a independência do atleta, o objetivo é também treiná-lo para o contato com a mídia.

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Do corre ao empreendedorismo esportivo

Como CEO da Connect Fight desde 2017, hoje, Denis entende que ter um perfil empreendedor completo é importante para o crescimento de um atleta. De acordo com um levantamento feito pela Endeavor (2022), atletas de alto rendimento possuem um perfil empreendedor valioso: são resilientes, focados em metas e têm disciplina, características fundamentais para liderar negócios. E são perfis como esse que levaram Mia a criar o Afroesporte Fund, que hoje é o 1º Fundo de apoio ao empreendedorismo esportivo. 

A cada edição do projeto, 10 atletas negros de alto rendimento são selecionados para participar de uma jornada de crescimento pessoal e profissional ao longo de um ano, com foco no desenvolvimento econômico dessas carreiras. Atualmente, em sua quarta edição e com patrocínio da Betano, o Afroesporte Fund oferece uma bolsa mensal de R$ 6 mil e um programa completo que inclui mentoria financeira, media training, acompanhamento psicológico individual e masterclasses sobre letramento racial, branding, produção de conteúdo, finanças e empreendedorismo. Tudo visando fortalecer a presença dos atletas no setor esportivo e ampliar sua visibilidade digital.

Com 180 candidaturas enviadas nesta última edição, a procura surpreendeu por incluir atletas olímpicos, reforçando a falta de formação para além do físico. “A gente se perguntava: ‘O que essa pessoa está fazendo aqui?!’ E olhando os nomes, nós ficamos emocionados vendo como o atleta entendeu que a Afroesporte pode ofertar para eles o que, às vezes, a própria agência que eles já estão não oferta,” conta Mia. Dessa forma, é nítida a necessidade de atletas precisarem de alguém para ensinar e questionar.

Mia Lopes, além de diretora-executiva da Afro Esporte, é jornalista e reconhecida como Linkedin Top Voices. Também é líder e fundadora do “Nós no Corre” desde 2023. Um projeto da Afro Esporte que busca tornar a corrida de rua um espaço mais diverso. Curiosamente, ela lutou boxe até os 16 anos (Foto: reprodução Instagram @mialopesmaia)

Além disso, a construção da autoestima é um pilar fundamental para a CEO, pois, “às vezes os atletas chegam com vários valores no mercado. ‘Ah, eu sou tímida’, como muitos falam. Aí perguntamos: ‘você é tímida ou você foi silenciada?’”, reflete a jornalista. 

Um exemplo foi a atleta participante da 4⁠ª edição, Natália Vitória Santos Cardoso, de São Bernardo do Campo (SP), que pratica atletismo desde os 8 anos. “Ela é uma mulher negra, retinta, com o corpo não padrão, que tem uma mecha loira no cabelo. Ela chegou e disse: ‘Ah, eu sou tímida.’ E eu disse: ‘Alguém que pinta no cabelo  uma mecha loira na frente é tudo, menos tímida’, compartilha Mia.    


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