Esportes

Competição esportiva por recursos só ganha quem sabe jogar

Por Johnny Lima, Madu Ferreira e Lizandra Lima


Em Campinas, o esporte é apresentado como política de inclusão. Mas, na prática, editais inacessíveis, ausência de critérios sociais e concentração de recursos em bairros nobres revelam um modelo excludente que reforça desigualdades raciais e territoriais. Em contraponto, lideranças comunitárias e pesquisadores defendem a necessidade de pensar o esporte como um direito efetivo para todos.

O Fundo de Investimentos Esportivos de Campinas (FIEC), principal ferramenta de fomento ao esporte na cidade, financia projetos de formação, rendimento e paradesporto. Ele atende desde grandes equipes, como a base do Vôlei Renata, até núcleos de detecção e criação de atletas no município. Porém, segundo Danilo Ciaco Nunes, doutorando em Educação Física pela Unicamp e pesquisador em políticas públicas de esporte e lazer, a lógica que sustenta essa política é excludente.

“Quando falamos em FIEC, é necessário contextualizar que atualmente em Campinas não existe uma política de esporte que levante dados sobre racialidade ou gênero. Não temos mecanismos de pesquisa para isso, já sendo um apagamento do assunto. Sem acesso a esses indicadores, não conseguimos formular políticas públicas adequadas, porque tudo fica mascarado,” explica.

Ele ainda acrescenta, “se pensarmos na perspectiva de território, isso aumenta o processo de desigualdade, pelas concentrações de esportes existentes em bairros e polos. O fato de se preocupar mais com o esporte de rendimento do que com o de base é algo negativo. Ainda mais diferenciar o de base e de rendimento e dar prioridade pelo rendimento”.

Racismo estrutural e institucional

O racismo estrutural não se manifesta apenas em ofensas ou atitudes individuais. Ele se infiltra nas instituições, nas políticas públicas e nas práticas cotidianas que definem quem tem acesso a direitos e oportunidades.

No esporte, essa desigualdade ganha forma em editais, critérios e burocracias que, embora pareçam neutros, reproduzem exclusões históricas.

Valdicinei Lacerda, Mestre Topete que lidera o projeto “Escola de Capoeira Angola Resistência”, concorda que “o racismo, o preconceito racial, social, religioso e financeiro é estrutural”.

Esse diagnóstico é reforçado por Danilo, “quando pegamos dados raciais e econômicos do IBGE, podemos afirmar que quem mora em áreas mais pobres da cidade é o povo negro. Logo, podemos afirmar também que o povo negro é segregado em Campinas”.

Segundo o IBGE 2022 e o levantamento municipal mais recente (maio de 2022), as regiões Sul e Sudeste de Campinas, que concentram bairros como Campo Belo, Jardim Icaraí, Jardim São Domingos, Jardim Itatinga e Vida Nova, somam cerca de 74 mil pessoas cadastradas no CadÚnico, e a maioria da população é preta.

Já na região Noroeste, onde estão os bairros Jardim Florence e Jardim Lisa, vivem outras 61 mil pessoas em vulnerabilidade. Enquanto isso, os bairros Taquaral, Cambuí e Centro, com alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), encontram-se entre as áreas mais beneficiadas por recursos públicos esportivos.

Eliel Santos, idealizador do projeto “Box na Comunidade”, considera a burocracia e o acesso às informações como grandes problemas para o acesso aos recursos públicos (Foto: Arquivo pessoal)

Mestre Topete resume a desigualdade de forma direta: “você não vai lá no bairro do Matão perguntar quem faz ginástica rítmica, porque ninguém faz. É um esporte de elite, enquanto a capoeira continua sem apoio”.

Entre 2022 e 2025, o FIEC investiu mais de R$10 milhões em projetos esportivos e paradesportivos. Embora a Lei Municipal nº 16.264/2022 preveja equilíbrio territorial, não há relatório público que detalhe a distribuição por regiões. A análise das Organizações da Sociedade Civil (OSCs ) contempladas indica concentração em bairros centrais e nobres, enquanto áreas vulneráveis receberam menos projetos.

“O recurso tá lá, mas a gente não consegue ter acesso”, desabafa Eliel Santos, treinador e idealizador do projeto comunitário “Box na Comunidade”, resumindo a sensação de exclusão que os coletivos periféricos e negros enfrentam na cidade.

Contradições do discurso oficial

Fernando Vanin, Secretário de Esportes e Lazer de Campinas, garante que não existe desigualdade na seleção dos projetos.

“No edital principal, não fazemos distribuição territorial. Avaliamos a qualidade do projeto, independentemente de onde ele será executado. O FIEC é de livre concorrência e a lei não prevê cotas de raça, cor ou gênero. Nosso foco é a qualidade do projeto escrito, especialmente na formação e no alto rendimento. Acreditamos que o esporte, na sua essência, não tem cor, e a avaliação é estritamente técnica”, relata.

A ideia de neutralidade, presente na fala do Secretário, foi criticada pelo pesquisador. “Dizer que o critério é só técnico é fugir do problema. Não podemos afirmar que os critérios de submissão são técnicos e ignorar as desigualdades que existem. Precisamos reconhecê-las e combatê-las.”

Para Danilo, o discurso de imparcialidade acaba mascarando as desigualdades estruturais no acesso ao fomento público. A ausência de políticas de inclusão e a complexidade dos processos burocráticos mantêm as organizações com maior estrutura e recursos em vantagem.

“É compreensível que o governo precise prezar pelo seu dinheiro. Mas como resolver problemas de acesso se o problema é a ação, e não a prestação de contas? Quais são as medidas que a Secretaria toma para democratizar esse acesso? Se não, usamos o argumento da burocracia como um impedidor, e quem sempre conseguiu utilizá-la vai continuar conseguindo”, finaliza.

Desigualdades de acesso

Atletas do grupo de ginástica rítmica GR-Campinas, do Clube Regatas. O projeto é beneficiado com recursos municipais do FIEC (Foto: Arquivo pessoal)

Organizadores de projetos sociais explicam como foi a submissão para obter recursos públicos do FIEC. “Foi um processo extremamente longo, de muita pesquisa com outras OSCs. Nós, treinadores, juntamente com os pais membros da associação, tivemos que buscar mais conhecimento sobre documentação, licenças, conta bancária, entre outros assuntos”, explica Mariana Faria, treinadora do projeto de ginástica rítmica “GR – Campinas”, equipe do Clube Campineiro de Regatas e Natação. “Criamos uma comissão só para conseguir os documentos exigidos. Foram meses organizando tudo e escrevendo os pré-projetos”, acrescenta Rômulo Ordine, pai de aluna e ex-presidente da associação durante o desenvolvimento do projeto financiado pelo FIEC.

A ginástica rítmica integra o grupo de esportes que mais recebem apoio da Prefeitura, ao lado de projetos de futsal, tradicionalmente posicionados como os mais financiados.

Sem nunca ter conseguido aporte financeiro, o Mestre Topete conta que depende dos próprios alunos para lidar com a parte burocrática e digital: “eu não entendo de tecnologia. Quem me ajuda são os alunos”.

Já Eliel relata que muitas das organizações que conhece “não têm conhecimento nem de planilha”.

Sobre a possibilidade de facilitar o acesso das iniciativas com menor estrutura técnica, o Secretário Municipal de Esportes afirma que “a Lei 13.019 já facilitou muito a vida das OSCs na busca por recursos públicos. A questão da acessibilidade aqui é mais sobre capacitação do que sobre flexibilização da lei. A legislação federal exige documentação.”

A fala, embora juridicamente correta, contrasta com a realidade enfrentada por lideranças comunitárias. “Os caras gourmetizam tanto as palestras que a gente não consegue entender”, reclama o treinador de boxe, referindo-se aos cursos de empreendedorismo oferecidos pela Secretaria.

O pesquisador Danilo Ciaco Nunes considera que a desigualdade no esporte como questão estrutural é um desafio que precisa passar por políticas afirmativas. “Precisamos incluir critérios raciais, econômicos e territoriais nos levantamentos e pensar o esporte como saúde, lazer e cidadania. Isso sim é projeto de um país mais justo.”

Sem incentivo e sem formação adequada, essas organizações seguem sobrevivendo à margem do sistema, sustentadas por recursos pessoais e pela persistência de seus idealizadores, como Eliel Santos, do Boxe, e Mestre Topete, da Capoeira Angola.

Mestre Topete lidera o projeto “Capoeira Angola” com vendas de roupas, doações e recursos próprios (Foto: Johnny Lima)



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