Mesmo reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, prática esportiva ainda enfrenta desvalorização
Por Diogo Mosna, Larissa Idem e Yasmin Souza
Originada como expressão da cultura afrodiaspórica durante o período escravocrata, a capoeira atua como uma ferramenta de resistência ao racismo no Brasil. Em Campinas, a luta que combatia a escravização dos corpos negros transcende as rodas esportivas e mantém vivas as tradições da comunidade afrodescendente.
A prática combina dimensões culturais, filosóficas e históricas, atuando como um modo de vida para praticantes em todo o mundo. Mesmo com o aumento de 26,3% dos registros de crimes de racismo e de 41,4% de injúria racial no País, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em comparação com 2024, cerca de seis milhões de brasileiros praticam capoeira.
Segundo o jornalista e mestre em Educação pela Unicamp, Luciano Medina Neto, a capoeira existe como um espaço de afirmação da identidade negra. Para ele, a capoeira é um movimento político que já nasceu resistindo à opressão imposta aos afro-brasileiros. Ao longo dos séculos, ela se transformou à medida que as circunstâncias da política, da cultura e da sociedade também se transformaram.
Capoeirista há mais de 30 anos, Neto enxerga a capoeira não como um sistema de luta fechado em si, mas como um movimento de mudança permanente que se molda às circunstâncias da política, da cultura e da sociedade, e que segue lutando contra a opressão racial no País.
“A capoeira serve para mim como uma escola e como uma universidade. Até hoje eu aprendo com ela. A capoeira me levou para a universidade, para a militância e continua me levando para lugares que, às vezes, nem imagino que eu vou”, relata Neto.
Conforme explica em sua dissertação de mestrado, Neto enxerga a capoeira por meio do conceito de cultura de fresta, desenvolvido pelos pedagogos e capoeiristas cariocas Luiz Rufino e Luiz Antonio Simas. Para Neto, cultura de fresta se trata da ocupação de espaços vazios no sistema de produção.
“As frestas são os espaços de oportunidade que os corpos negros escravizados tiveram e observaram para desenvolverem as tecnologias afrodiaspóricas, como a capoeira, o Candomblé, o samba, o samba de coco, a Jurema, o coco de umbigada. Todas as expressões afros que serviram para celebrar a vida foram criadas nas frestas”, diz.
Já para Tiago de Camargo, conhecido como Mestre Formiga nas rodas de capoeira em Campinas e fundador do Instituto Brasileiro de Esporte, Cultura e Arte (IBECA), a capoeira é uma arte de resistência. Praticante há 37 anos, o capoeirista a considera sua “fonte de viver”.
“A capoeira é uma fonte muito rica. Ela está em todas as classes sociais, não importa o gênero, a raça, nem a religião. A capoeira está para todos e, hoje, está em todas as comunidades, escolas e inserida na universidade”, comenta.
De acordo com Camargo, a capoeira nasceu a partir da dança pela liberdade dos escravizados. Além de ser uma arte marcada pela cooperação entre os praticantes, que jogam um com o outro, a capoeira pode ser considerada uma arma de resistência que nasceu do oprimido e não do opressor.
“Se não fosse uma arte criada pelo oprimido, imagine onde a capoeira estaria. Com todas as dificuldades e preconceitos que existem dentro da nossa arte, ela conquistou o mundo. Se ela fosse criada pela elite, tem noção do valor que ela teria?”, questiona o capoeirista.
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Combate ao racismo
Considerada crime em 1890, segundo o artigo 402 do Código Penal do Brasil, a capoeira deixou de ser considerada assim apenas em 1937. Embora seja reconhecida pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade desde 2014, a capoeira ainda enfrenta o racismo e a falta de reconhecimento que marcaram seu desenvolvimento.
Segundo Camargo, os capoeiristas brasileiros sofrem a todo o momento perseguição religiosa, artística e social, além da desvalorização da profissão.
“Quem leva a capoeira para o mundo todo é o próprio capoeirista. Quem patrocina a capoeira é o próprio capoeirista. Não existe outro patrocinador. Não existe outro apoio”.
Em Campinas, há escassez de patrocínio na capoeira, cuja sobrevivência nos ambientes sociais e culturais depende da dedicação dos professores e da contribuição dos alunos. Para o capoeirista, o preconceito e a falta de conhecimento são as maiores causas que perpetuam essa desvalorização.
Ligados à visão histórica de que a capoeira é um esporte criminalizado, os prejulgamentos bloqueiam os brasileiros para entrarem em contato com a capoeira.

“O mundo todo aceita a capoeira, somente o brasileiro ainda tem resistência. O brasileiro prefere colocar o filho em outra arte do que valorizar a sua própria arte. A capoeira está em mais de 170 países no mundo, só as empresas brasileiras ainda não viram o valor que ela tem”, comenta Mestre Formiga.
Aluno de Camargo no IBECA, Antonio Eduardo Godin Júnior, 31, pontua que enxerga a capoeira como uma forma de resistência ao preconceito que a capoeira sofre, “assim como tudo que é do negro e do preto também sofre”.
Conforme considera Neto, umas das estratégias para pensar o combate ao racismo é conhecer o diferente. Segundo ele, a capoeira tem princípios de aproximação, que enfrentam o preconceito racial e outras formas de discriminação, como homofobia, machismo e xenofobia.
“A ideia de aproximação é se permitir conhecer o outro e conhecer o diferente. A partir disso, você começa a se desenvolver taticamente e estrategicamente, a se desarmar, e começa, de maneira sutil, a combater o preconceito em todas as suas formas”.
Embora a capoeira também reflita as relações e contradições que existem fora da comunidade, o jornalista ressalta que a prática esportiva promove um processo de socialização que ultrapassa os limites do país e atinge escala mundial. Neto menciona que a rede comunitária formada entre os capoeiristas campineiros ajuda a transmitir o combate ao racismo e a solidariedade entre os praticantes.
“A capoeira é uma prática educativa, porque a capoeira de Campinas continua formando educadores, atletas e cidadãos, desde da década de 1970, quando seu segundo período começa a se desenvolver”, completa.
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A capoeira em Campinas
Por sua vez, Neto explica que a capoeira em Campinas é segmentada em duas fases: passagem do século XIX para o século XX e a partir da metade do século XX, principalmente na década de 1970. No entanto, ele esclarece que a prática se constituiu como processo de inclusão, de fato, apenas nos anos 1990, quando se transformou em uma ferramenta pedagógica.

“A capoeira foi proibida por muito tempo. Quando ela é permitida, começa a atender outras demandas, por exemplo, a demanda desportiva. Aliás, ela só é permitida ser praticada a partir dessa dimensão do esporte. Ao contrário, não seria permitida. Essa era uma condição velada no final dos anos de 1920”.
Já na segunda metade do século XX, Neto diz que a capoeira passou a absorver as demandas da sociedade, principalmente nas escolas e universidades campineiras. Segundo o jornalista Neto, no cenário campineiro, a capoeira não é massificada na mídia por não ser um esporte de alto rendimento, embora também existam setores da capoeira que priorizam competições esportivas e eventos nacionais e internacionais.
Já para o aluno Erik Luiz Lopes Ribeiro, 30, que conheceu o esporte ainda criança, o impacto da capoeira foi transformador em sua vida. Passadas duas décadas desde o primeiro contato com a capoeira, Erik conta que o que mais o marcou na capoeira foi sua história de resistência ao racismo.
“Quanto mais você senta aqui e escuta o Mestre Formiga falar, mais você entra na história, mais se apaixona e mais o preconceito vai se esvaindo. O coração, quando se faz capoeira, treme inteiro porque você se sente em casa. Até o fim da minha vida vai ter capoeira no meu coração”, finaliza Erik.

