Clube conhecido como a primeira democracia racial do futebol tem papel importante na luta racial
Por Diego Linardo, Kauan Panontin e Théo Miranda
A Associação Atlética Ponte Preta carrega em sua própria história um símbolo de resistência. O mascote “macaca”, que nasceu de um insulto racista, foi ressignificado pela torcida e se tornou motivo de orgulho.
A origem do apelido, como explica o historiador José Moraes dos Santos Neto, remonta à fase amadora do futebol em São Paulo, nas décadas de 1920 e 1930. Naquele período, existiam duas ligas principais no estado: a LAFE (Liga Amadora de Futebol) e a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos).
Antes da profissionalização e antes de Ponte Preta e Guarani jogarem no Paulistão, as competições se organizavam em torno das ferrovias, principalmente a Mogiana e a Funilense.
A torcida da Ponte acompanhava o time de trem, ajustando-se aos horários das viagens para cidades como Rio Claro e Ribeirão Preto. Essas excursões reuniam um grande número de torcedores negros, vindos em sua maioria do bairro da Ponte Preta, uma região popular de Campinas.

A imprensa local, nas cidades onde o time jogava, passou a descrever o comportamento animado dessa torcida, que cantava, dançava e fazia festa nas praças antes das partidas, de forma preconceituosa, como “macacos”.
Com o tempo, o apelido “macaca”, usado de modo racista, foi ressignificado pela própria torcida. “Quando o time ia jogar como visitante, era chamado de ‘macaco’ de forma pejorativa. A Ponte adotou o mascote como símbolo de resistência”, explica Tagino Alves dos Santos, presidente do Conselho Deliberativo do clube.
Com uma trajetória marcada pela representatividade negra, a Ponte Preta atua de maneira constante, embora ainda busque avanços, no combate ao racismo dentro e fora de campo.
O clube ocupa há cerca de dez anos uma cadeira no Conselho de Desenvolvimento e Participação da Comunidade Negra de Campinas, onde participa de debates sobre políticas de inclusão. Também é suplente no Conselho Estadual da Comunidade Negra, reforçando seu papel nas discussões sobre igualdade racial.
Internamente, a Ponte mantém em seu estatuto uma Diretoria de Inclusão Social, responsável por promover palestras e ações educativas voltadas aos atletas das categorias de base — sub-15, sub-17 e sub-20 —, abordando tanto a história do clube quanto a importância do combate ao racismo.
O tradicional tour pelo estádio Moisés Lucarelli também tem papel educativo, recebendo escolas e ONGs que buscam conhecer de perto essa trajetória de resistência.
Apesar das iniciativas, Tagino reconhece que ainda há desafios para serem superados. “A instituição precisa comprar a ideia. Precisamos ampliar esse debate com torcedores, não apenas com os jogadores”, afirma. Segundo ele, o departamento de marketing também carece de reforço para dar visibilidade às ações nas redes sociais.

Dentre várias ações, um gesto simbólico reforça o compromisso do clube com o tema: todas as eleições internas da Ponte Preta acontecem no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Para Tagino, a data é um lembrete de que a luta contra o racismo deve ser permanente, inclusive dentro da própria instituição.
Para o torcedor e influenciador Lucas Fortuna Prado, que acompanha a Ponte Preta de perto e reúne mais de 11 mil seguidores no Instagram, a luta contra o racismo é uma das marcas mais fortes da instituição. Segundo ele, a consciência da torcida em relação ao tema é visível nas arquibancadas. Um dos símbolos dessa resistência é o bandeirão da torcida organizada Ponterror, que traz a imagem de Miguel do Carmo, o primeiro jogador negro da história do futebol brasileiro.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

