Clube campineiro mostra que o combate ao preconceito é parte da construção de um esporte mais justo e representativo
Por Ana Beatriz Morales e Júlia Sabatin
O futebol brasileiro ainda carrega marcas de um problema que insiste em permanecer fora e dentro de campo, o racismo. Pesquisa sobre a Diversidade no Futebol Brasileiro, realizada pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol em parceria com a CBF e com apoio da Fisia, mostra que 41% dos jogadores negros afirmam já terem sido vítimas de discriminação. O dado escancara uma realidade que ultrapassa as quatro linhas e evidencia como o preconceito segue enraizado no esporte mais popular do país.
Em 2023, o jogador Celsinho, do Londrina, foi alvo de insultos raciais por torcedores em uma partida da Série B. Já em 2024, o atacante Matheus Henrique, do Cruzeiro, relatou ter sido ofendido por torcedores adversários. Logo depois, em 2025, o atacante Luighi Hanri Souza Santos, do Palmeiras Sub-20, foi alvo de insultos racistas durante uma partida da Copa Libertadores da categoria. Situações como essas seguem se repetindo no futebol brasileiro, mostrando que o combate ao racismo ainda enfrenta grandes desafios.
Observando essas atitudes, o Guarani Futebol Clube, de Campinas, tem adotado uma postura mais ativa no enfrentamento ao racismo. O superintendente executivo do time, Marcelo Tasso, afirma que o clube está sempre de portas abertas para conversar com torcedores e jogadores vítimas de racismo.

“Dentro do clube tratamos o combate ao racismo com tanta naturalidade que quase não enfrentamos desafios em instaurar a luta racial aqui. Ao longo da nossa história, tivemos presidentes e jogadores que marcaram a defesa da igualdade, como o goleiro Neneca (Hélio Miguel), um dos nossos maiores ídolos”, afirma Tasso.
O superintendente ainda reforça que o clube trabalha para formar além de jogadores. “Temos como objetivo não apenas a formação de atletas, mas também a formação de cidadãos conscientes e responsáveis, temos algumas ações educativas, incluindo palestras com temas relevantes para a formação dos nossos atletas na base”, afirma.
Para além do clube, especialistas reforçam a importância de políticas antirracistas estruturadas no futebol. A Comendadora Edna Lourenço, coordenadora do Centro de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros Dra. Nicéa Quintino Amauro, afirma que essas ações também precisam de divulgação.
“Campinas ainda é uma cidade racista e conservadora, então se faz necessário torná-lá mais inclusiva. O Guarani tem ações de combate ao racismo e inclusão, mas ainda são tímidas, principalmente do ponto de vista do marketing. Precisamos divulgar e envolver a torcida nessas iniciativas”, reforça Edna.
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Voz da arquibancada

Entre os torcedores do Guarani, cresce a consciência de que combater o preconceito é parte do amor pelo clube. Antes vista como uma torcida elitista e distante de pautas sociais, a torcida bugrina vem mudando essa imagem ao longo dos anos. Hoje, grupos organizados promovem ações de conscientização nas arquibancadas e nas redes sociais, mostrando que o futebol também é espaço de inclusão e respeito. Esse movimento tem fortalecido a identidade do torcedor bugrino como alguém que defende não apenas as cores do time, mas também a diversidade e a igualdade dentro e fora dos estádios.
Roger Nicolas, conhecido nas arquibancadas como RN, é membro da Torcida Organizada Fúria Independente e luta pela liberdade, acreditando que o racismo não tem mais espaço, dentro e fora dos campos de futebol. “O que penso sobre o racismo é que na geração em que a gente se encontra não há mais tempo pra isso. A gente precisa se unir, principalmente nas periferias. Sempre digo que minha luta é pela liberdade”, afirma.
Além da presença constante nas arquibancadas, RN também usa a arte como forma de resistência. O torcedor é conhecido por suas composições de rap que abordam temas como igualdade racial. Em suas redes sociais, ele compartilha suas músicas que buscam conscientizar a torcida bugrina e reforçar que o combate ao racismo não deve se limitar aos estádios, mas fazer parte da vida cotidiana de todos. “Tudo o que pudermos fazer para ajudar a punir os racistas nós temos que fazer”, afirma RN.
Neneca, o grande goleiro
Hélio Miguel, mais conhecido como Neneca, é um dos maiores ídolos da história do Guarani. O goleiro foi peça importante na trajetória que levou o Bugre a se consolidar entre os grandes clubes do país, sendo campeão brasileiro em 1978. Com defesas memoráveis e uma postura firme dentro de campo, Neneca se tornou símbolo de superação e inspiração para gerações de torcedores.
“O Neneca faz parte da essência do Guarani. Foi um jogador que marcou uma geração e ajudou a construir a história do clube dentro e fora de campo. O reconhecimento da torcida é o reflexo do que ele representa até hoje para o Bugre”, reforça Tasso.

Até hoje, Neneca é lembrado com carinho pela torcida bugrina e reverenciado como exemplo de resistência e orgulho. Sua trajetória vai além das vitórias e títulos: representa a luta por igualdade e o papel transformador que o futebol pode ter na valorização da população negra dentro do esporte brasileiro.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

