A Neuropsicologa Tatiana Dalfré explica como identificar indícios de sofrimento psicológico, acolher e saber quando procurar um profissional
Por Bárbara Machado e Vitória Ashilyn
A aposentadoria, o luto pela perda de pessoas próximas, a redução da autonomia, o afastamento de atividades cotidianas e o isolamento social podem impactar diretamente o bem-estar e a saúde mental da população idosa. Embora algumas dessas transformações façam parte do processo de envelhecimento, é importante estar atento quando alterações de comportamento e humor passam a comprometer a rotina e a qualidade de vida.
Falar sobre saúde mental na terceira idade significa discutir acolhimento, vínculos sociais e qualidade de vida. Tristeza persistente, desânimo, isolamento, alterações no sono e no apetite, perda de interesse pelas atividades e queixas frequentes de memória ou concentração não devem ser automaticamente atribuídos à idade. Reconhecer esses sinais pode ser fundamental para que o idoso receba apoio no momento adequado.
Em meio às ações de conscientização do Setembro Amarelo e ao debate sobre prevenção e cuidado em saúde mental, a informação se torna uma importante ferramenta de prevenção. Saber diferenciar mudanças naturais do envelhecimento de sinais que podem indicar sofrimento psicológico, compreender como oferecer apoio e conhecer os caminhos para buscar atendimento profissional são passos essenciais para promover um envelhecimento mais saudável e com dignidade.
A psicóloga Tatiana Dalfré, especializada em Neuropsicologia, explica como identificar sinais de sofrimento psicológico em idosos, diferenciar manifestações da depressão de características naturais do envelhecimento e compreender os impactos da solidão, do luto, da aposentadoria e da perda de autonomia sobre a saúde mental. Acompanhe a entrevista…

Tatiana Dalfré, em seu espaço de atendimento, fala sobre a saúde mental na 3ª idade (Foto: Bárbara Machado)
Como diferenciar uma tristeza passageira de sinais de depressão em uma pessoa idosa?
Tristeza é um sentimento passageiro que pode se relacionar com luto, aposentadoria, mudanças ou problemas familiares. Com apoio ou passar do tempo pode melhorar. Não compromete de forma persistente o cotidiano. O idoso consegue manter atividades cotidianas, sem muito impacto. A depressão traz impactos e prejuízos na vida do idoso, causa sintomas físicos e de memória. Tristeza profunda e falta de energia, perda de interesse e prazer em atividades cotidianas. Algumas vezes pensamento de morte e falta de sentido.
Por que alguns sintomas da depressão podem ser confundidos com características naturais do envelhecimento?
A depressão pode ser confundida com o próprio envelhecimento, devido a diminuição de energia e ritmo, cansaço, perda de memória, menor atividade física, isolamento social, alterações do sono e apetite. Sintomas comuns no processo de envelhecimento que se assemelham ao quadro de depressão.
Quais mudanças de comportamento devem chamar a atenção de filhos, netos e cuidadores?
Algumas mudanças de comportamento merecem a atenção dos familiares; tais como: apatia, desesperança, falta de interesse em atividades as quais demonstrava interesse, insônia ou excesso de sono, dores excessivas, negligência consigo mesmo e queixas de memória e concentração. E, pensamento de morte com frequência.
A depressão pode afetar memória, atenção e concentração? Como diferenciar esses sintomas de um possível comprometimento cognitivo?
Quadros de ansiedade e depressão podem causar impactos nas funções executivas do cérebro, nas áreas da memória e concentração. Porém, o processo de envelhecimento pode ocasionar um declínio natural na cognição; com comprometimento nas áreas da memória e atenção, raciocínio e linguagem. Para um diagnóstico diferencial é indicado a realização da avaliação neuropsicóloga e médica para mapear áreas preservadas e déficits presentes. O diagnóstico auxilia a direcionar melhor tratamentos com medicações ou reabilitação cognitiva.
Solidão e isolamento social podem contribuir para o sofrimento psicológico dos idosos?
Isolamento social pode agravar sintomas de melancolia e levar idosos a desenvolverem a depressão. A falta de socialização e internações entre pares, pode trazer sentimentos de solidão e abandono gerando falta de sentido da vida.
Como aposentadoria, luto e perda de autonomia podem afetar a saúde mental nessa fase da vida?
O período de aposentadoria, o luto ou a perda da autonomia podem levar o sujeito a desenvolver sintomas ou quadro depressivo. As mudanças de fases na vida requerem adaptação, aceitação e ressignificado, que algumas vezes o idoso não consegue realizar.
Quando falamos em prevenção ao suicídio, quais sinais merecem atenção especial entre idosos?
Em relação a prevenção ao suicídio em idosos, é importante estar atento as mudanças comportamentais presentes, mudanças nos hábitos de sono e apetite. Pensamentos negativos, autodepreciação e falta de esperança.
Como conversar com um idoso que demonstra desesperança ou diz não encontrar mais sentido na vida?
Acolher e escutar é importante, sem tentar minimizar dores ou vivências dolorosas do idoso. Sem tentar abordagens de autoajuda, mas demonstrar empatia e interesse em ajudar.
O que familiares não devem dizer ou fazer diante de uma pessoa idosa em sofrimento?
O que não devemos fazer frente ao idoso em sofrimento: desconsiderar seus sentimentos, dizer que irá ficar tudo bem, demonstrar impaciência ou tentar minimizar o sofrimento fazendo comparações com outros idosos “mais motivados na vida”. Diante do idoso em sofrimento tentar resgatar pontos positivos e significativos da sua história. Relembrar conquistas, memórias afetivas e significativas.
Em que momento é necessário buscar atendimento profissional ou um serviço de urgência?
Diante da duração dos sintomas de melancolia e depressão persistente, é indicado buscar auxílio profissional. Nos casos de pacientes idosos o acompanhamento multiprofissional é indicado. Para avaliar, estimular algumas áreas e desenvolver habilidades. A avaliação neuropsicológica com aplicação de testes cognitivos, auxilia no diagnóstico diferencial e em melhor direcionamento do tratamento, identificando se há áreas em prejuízo e quais precisam ser estimularas com medicações e exercícios cognitivos.
Para quem percebeu que talvez precise de ajuda, qual seria a sua orientação?
Assista resposta no vídeo abaixo…
Orientação e edição: Adauto Molck
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