Esportes

Taekwondo em Campinas: a luta por verba e medalhas

Por Henrique Alves e Luis Gallo

Campinas firmou-se como polo revelador de talentos no taekwondo, mas quem vê os atletas subindo ao pódio não imagina a disparidade de realidades nos bastidores. A cidade vive hoje uma divisão em sua prática esportiva. Enquanto uma elite técnica busca pontos no ranking mundial e sonha com os Jogos Olímpicos, a base luta para garantir o mínimo, como o custeio do transporte até o local do treino.

A base do esporte em Campinas é sustentada por iniciativas como a liderada por Sérgio Pacheco. Ex-policial civil e árbitro internacional, Sérgio fundou o Campinas Fighters após sobreviver a um câncer de pâncreas em 2015. “Eu tive um encontro com Deus, onde me foi dada essa missão. Eu tenho que retribuir porque ele me deu uma segunda chance”, conta o mestre sobre a motivação para criar o projeto.

Após superar um câncer, Sergio dedica sua vida a ensinar taekwondo para transformar a vida dos jovens. (Foto: Luis Gallo)

O foco principal não é apenas a medalha, mas a prevenção. Sérgio utiliza a hierarquia e a disciplina do taekwondo para intervir na vida de jovens em situação de vulnerabilidade, expostos à violência. “O mundo do crime é inevitável. Ele vai morrer em um combate com a polícia ou com outros criminosos.” analisa Sérgio sobre a importância de oferecer outra alternativa.

Para os alunos, o impacto é imediato. João Félix, de 16 anos, destaca a mudança de comportamento: “Mudou a saúde, que eu era bem mais pesado, e a disciplina. Agora eu estou bem mais encaminhado na escola”. Já Laura Carlos Justino, também de 16 anos, aponta os benefícios mentais: “Eu tive mais foco e concentração”.

Porém, o caminho para se tornar um atleta profissional de Taekwondo requer mais do que talento e disciplina. Aos 18 anos e faixa preta há seis, Ana Lívia é participante do projeto social Campinas Fighters e sofre com a alternância entre a vida de atleta e a vida adulta. “Para mim atrapalha bastante porque, além de treinar, eu trabalho e não tenho nenhum tipo de ajuda”, relata. 

A realidade de Ana ilustra o cenário dividido do esporte em Campinas. De um lado, projetos sociais utilizam a arte marcial para afastar jovens da violência e formar cidadãos, dependendo de emendas parlamentares para sobreviver. Do outro, equipes de alto rendimento, como a da Ponte Preta, buscam pontos no ranking mundial e verbas federais para viabilizar o sonho olímpico.

Vitor Cardoso, técnico da equipe da Ponte Preta, aponta a escassez de patrocínio como o maior entrave da modalidade. (Foto: Arquivo pessoal)

O técnico medalhista internacional Vitor Cardoso, responsável pela preparação de atletas  como a Larissa Cardoso, primeira no ranking nacional e hexacampeã brasileira, aponta que, mesmo no topo da pirâmide, o desafio financeiro ainda é grande. “Acho que a maior dificuldade hoje do esporte é que não tem tanta visibilidade, o que dificulta a conquista de patrocínios.”, afirma o treinador.

Se o atleta de elite sofre sem o patrocínio robusto do setor privado, a base sobrevive do apoio financeiro público. Sem mensalidades, o projeto comandado pelo Mestre Sérgio opera através de parcerias. A Secretaria de Esportes cede os espaços físicos e os equipamentos são custeados por emendas impositivas de vereadores. “O taekwondo é um esporte caro, por conta dos equipamentos como capacetes, coletes e protetores. Nós só conseguimos comprar com essas emendas”, explica.

O transporte para competições regionais também entra nessa conta, com a Prefeitura disponibilizando ônibus para levar os atletas aos torneios dentro do estado. No entanto, esse modelo possui limitações. Faltam recursos para ampliar a equipe com outros profissionais, como fisioterapeutas e preparadores físicos, essenciais para o alto rendimento. O projeto depende de voluntários, o que dificulta o planejamento de longo prazo necessário para formar atletas olímpicos.

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A divisão dos circuitos: WT e WOTF

Além das dificuldades financeiras, os atletas enfrentam uma barreira burocrática: a divisão entre as federações. A World Taekwondo (WT) é a entidade reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). É neste circuito que competem atletas da elite campineira, como Larissa Cardoso, da equipe Ponte Preta/Keumgang Sports. O objetivo aqui é somar pontos para o ranking olímpico e acessar a Bolsa Atleta Federal, que exige resultados em competições chanceladas pela WT.

Vitor e Larissa Cardoso comemoram o sexto título brasileiro da atleta. (Foto: Arquivo Pessoal)

Já a base formada nos projetos sociais, como o Campinas Fighters, em muitos casos, opta por circuitos paralelos, como o da WOTF (World Olympics Taekwondo Federation). Embora o nome leve “Olympics”, a entidade não tem vínculo com o COI. Recentemente, atletas do projeto campineiro sagraram-se campeões mundiais por essa federação em um evento em Arujá (SP).

Essa distinção cria uma armadilha para o atleta em formação. Um título mundial pela WOTF traz prestígio local e autoestima, mas não é válido para pleitear as bolsas federais mais altas, destinadas ao circuito olímpico oficial. Isso deixa talentos como os de Ana Lívia e João sem o suporte financeiro necessário para a profissionalização.

Mas, apesar das dificuldades, para o Mestre Sérgio, o saldo final do projeto é positivo. “O importante é você fazer pessoas. Transformar uma criança”, afirma. 

Enquanto a cidade celebra medalhas em diferentes frentes, seja o ouro em Arujá ou a performance técnica da equipe da Ponte Preta, a integração entre esses dois mundos continua sendo o maior desafio. Sem uma política pública que preencha a lacuna financeira entre a base e o alto rendimento, muitos atletas correm o risco de serem silenciados diante da necessidade de trabalhar para sobreviver.

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