Apesar de serem maioria no ensino superior, mulheres representam menos da metade dos formados em graduações de exatas e tecnologia, aponta o IBGE
Por Nicole Heinrich e Júlia Morgado
O Panorama Mulheres divulgado pelo IBGE com resultados preliminares do censo de 2022 compila dados que atestam a desigualdade de gênero no país em diferentes métricas. Segundo o levantamento, mulheres representam 33,7% das pessoas com curso superior em áreas CTEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemáticas). Em contrapartida, mulheres são maioria absoluta (59,5%) entre pessoas com nível superior completo e representam 79,2% dos formandos em áreas voltadas à educação, serviços pessoais, saúde e bem-estar.
Entre os 11 grandes grupos de atuação analisados pelo IBGE, a profissão científica apresenta o maior desequilíbrio salarial entre sexos: cientistas mulheres receberam em média 63,04% do salário de seus colegas de profissão. Pelos dados abertos da plataforma SIDRA do IBGE, é possível constatar que entre profissionais da ciência e intelectuais no estado de São Paulo, a diferença entre médias salariais foi de R$ 2.870,67 no mesmo ano de referência.

Coisa de homem
“Minha mãe queria que eu fosse na igreja, que eu que eu casasse, que eu arrumasse um emprego formal. Foi meu pai quem falou: ‘Não. Filha minha não vai lavar roupa para homem nenhum. Ela vai estudar!’”, conta Angela Maria Alves.
A engenheira eletricista, nascida e formada na cidade de Barretos-SP, iniciou sua carreira desenvolvendo o primeiro banco de dados a mapear a água do estado de São Paulo e se mudou para Campinas logo em seguida para construir a primeira versão do DATASUS – o então Micromed. Foi assim que em 1984 chegou ao Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, onde trabalha até hoje como Chefe da Divisão de Infraestrutura Computacional e Sistemas de Informação (DICSI).
Segundo Alves, a divisão sexual do trabalho não é um fenômeno natural, mas fruto de um contexto histórico: “Porque é que as mulheres não estão tanto nessas áreas? O meu projeto de história me ensinou. Porque até 1800 e pouco aqui nessa terra, às mulheres era dado para aprender na escola somente a matemática suficiente para ela saber medir a roupa para ela costurar e medir o número de coisas que ela tinha que fazer numa numa receita.”
A Lei 15 de outubro de 1827, assinada por Dom Pedro I, mandou criar escolas em todas as cidades e vilas populosas do país onde crianças aprenderiam a gramática, história, matemática e moral cristã. Escolas para meninas seriam criadas somente nas cidades onde os presidentes em conselho julgassem necessário, com ensino das “prendas que servem à economia doméstica” e aulas de matemática reduzidas às quatro operações básicas.
Eliane Rosandiski, professora de Economia na PUC-Campinas, afirma que essa divisão também está ligada à forma de organização familiar: “Tem a ver com patriarcado, com toda uma forma de concepção da família. […] O homem estaria muito ocupado com as atividades de produção e as mulheres com a atividade de reprodução da família.”
Aline Santos estuda Ciência e Tecnologia pela Ilum, a escola de nível superior do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais. A jovem relata como a visão das engenharias como uma área masculina afetou sua escolha de curso técnico: “Sempre tive uma inclinação para as exatas, mas fui fazer Segurança do Trabalho porque técnico em manutenção automotiva ou automação industrial não era pra mim, porque eu era uma menina. É ingenuidade às vezes pensar que a gente não pode estar acessando aquele lugar por alguma razão.”
Mais tarde ela ingressou no curso de Engenharia Mecânica e relata que se sentiu deslocada como uma das poucas mulheres no curso: “Até mesmo quando você erra, você não erra porque você não sabe, você erra porque você é uma mulher.”
Teto de vidro
Há uma dissonância entre o nível de qualificação das mulheres nas ciências e sua posição no mercado de trabalho, aponta Juliana Daguano – diretora do CTI Renato Archer – em seu discurso em homenagem ao dia das mulheres. Segundo a cientista, trata-se de uma das várias evidências do teto de vidro que paira sobre as áreas CTEM e o meio acadêmico ainda hoje: “No Brasil, a gente tem algumas conquistas, outras nem tanto. É na rotina do nosso trabalho que a gente começa a reconhecer o quanto a nossa sociedade realmente entende a valorização das mulheres.”
“Teto de vidro” é a tradução do termo “glass ceiling”, criado pela escritora e ativista americana Marilyn Loden, para designar as barreiras invisíveis que mulheres enfrentam em sua trajetória profissional. A analogia ficou conhecida após uma conferência em Nova Iorque em 1978, e continua relevante para explicar o cenário acadêmico brasileiro quase cinquenta anos depois. Daguano é uma das quatro mulheres à frente de um centro de pesquisa no Brasil, e foi a primeira mulher a assumir a direção do CTI em 44 anos de história. A diretora chamou a atenção dos ouvintes para o número de mulheres com doutorado no Brasil, comparado ao número de docentes nos cursos de pós graduação. Segundo o plano CAPES de 2025, as mulheres são maioria entre as doutoras (57% das bolsas), mas representam apenas 44% do corpo docente das pós-graduações

Outro dado ressaltado foi a porcentagem de mulheres entre os contemplados pelo CNPq com bolsa produtividade, apenas 30%.
Rosandiski afirma que o preconceito é constante nas áreas majoritariamente masculinas: “E aí você toca no assunto central: como é que uma mulher vai ser engenheira? Há um preconceito sem tamanho […] Que tipo de respaldo social ela vai encontrar para isso? Porque esses homens vêm sendo ameaçados por uma figura que, numa cabeça estruturalmente machista, não é para estar nesse lugar.”
A experiência da Pró-reitora de Pesquisa da Unicamp, Ana Maria Frattini Fileti, evidencia como essas barreiras também se manifestam desde o início da trajetória profissional. Ainda adolescente, aos 14 ou 15 anos, durante um estágio em um laboratório de controle de qualidade em uma fábrica de refrigerantes, ela vivenciou um ambiente hierárquico e marcado por relações desiguais.
Mesmo sob orientação de sua chefe no laboratório, que evitava confrontos com a liderança masculina, Frattini se recusou a cumprir ordens que não tinham relação com sua função técnica, como quando um gerente industrial ligou pedindo que ela levasse um café. A estudante enfrentou o pedido e respondeu que ele havia “ligado no lugar errado”, recusando a tarefa.
O episódio, que gerou tensão interna, foi decisivo para sua escolha de carreira: ao perceber os limites impostos à sua atuação naquele ambiente, decidiu buscar na formação como engenheira a autoridade necessária para ocupar espaços de decisão.
Já na vida acadêmica, enfrentou novos desafios, como a resistência de alunos homens em aceitar sua liderança, principalmente como orientadora, em um dos casos o aluno interrompeu seu mestrado.
Na posição de liderança, as barreiras se tornam mais sutis e estruturais: “Aí, quando você chega nesses locais, é como se as pessoas ficassem esperando: Ah, quem tá junto com você. Né? Cadê a autoridade que veio com você? Não é uma coisa assim, automática, eles acharem que a autoridade que tá chegando da Unicamp é uma mulher.”
A indicação de seu nome à Diretoria Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), uma das posições mais influentes da ciência brasileira, reforça esse cenário de sub-representação feminina em cargos de decisão. Frattini foi a primeira mulher a integrar a lista tríplice de indicados ao cargo, historicamente ocupado por homens, o que evidencia o atraso na inclusão feminina nos níveis mais altos da pesquisa no país.
Ao comentar o marco, em entrevista ao Portal Digitais, ela destacou a ambivalência do momento: “Então embora eu comemore ter sido a primeira, ficou triste ao mesmo tempo de ter sido a primeira, porque isso já devia ter acontecido há mais tempo e não entendo que que isso se passa até hoje, né? Mas, eh eu acho que é motivo de comemoração, sim.” O reconhecimento, ao mesmo tempo simbólico e estrutural, aponta para avanços ainda recentes e insuficientes na ocupação de espaços de poder por mulheres na ciência.
Gabriela Frajtag é a primeira brasileira a receber um dos mais importantes prêmios internacionais de biologia quântica. Como Aline, a jovem veio do Rio de Janeiro para Campinas para cursar Ciência e Tecnologia na Escola Ilum. Em entrevista ao Portal Digitais, a cientista desabafa: “não quero polemizar não, mas posso te falar que já aconteceu muitas vezes… sinto que as ideias são mais reconhecidas quando saem da boca de homens.”
Frajtag compartilhou também o desejo de inspirar meninas que procuram seguir carreira científica, apesar de ainda não se considerar referência na área. Seu conselho para as aspirantes a cientistas é que “sigam sendo curiosas e persistentes. A ciência muitas vezes é desafiadora, é difícil, mas continue tentando e ignore comentários maldosos. Mantenha a curiosidade e faça as perguntas que fazem teu coração acelerar, sabe?”

Uma ajuda a outra
Um estudo conduzido pela Academia Brasileira de Ciências analisou o perfil de cientistas que concluíram o doutorado entre 2006 e 2021, e revela que 39% das mulheres indicaram grande impacto em suas carreiras com a chegada dos filhos, comparado a 16% dos homens. O estudo também aponta que 47% das alunas de doutorado relataram ter sofrido assédio sexual na academia.
No início de março a ministra Luciana Santos instituiu o Comitê Permanente de Gênero, Raça e Diversidade no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Entre as responsabilidades do comitê estão o combate ao assédio e aos critérios injustos de avaliação na concessão de bolsas.
Uma mudanças nos últimos três anos, está a ampliação dos prazos de avaliação acadêmica para mães e pais, permitindo que períodos de licença sejam considerados na análise da produção científica. A medida busca reduzir a desvantagem competitiva enfrentada, especialmente, por pesquisadoras que interrompem temporariamente suas atividades devido à maternidade. Juliana Daguano, em entrevista aos digitais, afirma que essa movimentação do ministério faz parte do “copo meio cheio” para as mulheres nas áreas CTEM.
Um de seus projetos em andamento pelo bem-estar das mulheres é a criação do espaço família, onde mães lactantes poderão retirar o leite, com espaço para receber crianças pequenas no caso de pais e mães que não tem rede de apoio. Juliana afirma que como diretora, se sente na responsabilidade de preparar o terreno para mais mulheres em lugares de destaque: “A gente tem que uma mulher ajudar a outra, né? Uma mulher vai cuidar para outra.”
Olhando o copo “não tão cheio”, Angela Alves, que já atuava como engenheira do CTI Renato Archer na fundação do MCTI, comenta sua visão da sociedade em relação às mulheres nas ciências atualmente: “Melhorou, mas não alavancou. Não é natural ainda… se não você não estaria fazendo essa entrevista comigo! Teria que existir [o assunto] “mulheres na CTEM”? Não!”
Orientação: Profa. Rose Bars
Edição: Gabriel Rosa

