O aumento de quase 10% dos valores dos ovos industrializados, abre espaço para o comércio realizado por confeiteiros
Por Danilo Real e Lorena Bonfá
O mercado tem registrado, nos dois últimos anos, a queda no preço do cacau em mais de 65%, segundo a Bolsa de Valores de Nova York, porém o consumidor brasileiro não tem percebido a queda nos preços do chocolate nas prateleiras dos supermercados. Às vésperas da Páscoa, os ovos exibidos em todas as lojas de Campinas refletem uma alta de quase 10% nos produtos industrializados em relação a 2025. Um ovo de 150 gramas comercializado por R$ 97,00 pode ser encontrado hoje por R$ 105,00, segundo dados disponíveis nos sites do Carrefour e das Lojas Americanas. A saída para alguns consumidores é buscar ovos de fabricantes independentes, podendo encontrar chocolates por preços similares, mas com gramaturas diferentes.
Na região de Campinas, o mercado já está aquecido. De acordo com o Sindicato dos Varejistas de Campinas, as vendas de produtos de Páscoa devem crescer até 5% em 2026, sendo esse crescimento impulsionado pelo aumento de produtores artesanais e por compras antecipadas ou promoções, um estímulo ao consumo sazonal.
Os produtores independentes aparecem como opção viável, como relata o estudante Santiago Dias que atua como produtor independente, produzindo ovos caseiros. Santiago notou a diferença nos preços e na qualidade dos produtos. ““Eu percebi um aumento muito grande no valor das barras de chocolate, há dois anos eu pagava por volta da 60,00 o quilo do chocolate, hoje nós compramos a mesma barra da mesma marca por 200,00”, afirmou.
Além do preço do chocolate, o estudante relatou a queda da qualidade dos produtos que chegam às prateleiras. “As marcas começaram a produzir ovos ‘sabor chocolate’ para reduzir os preços nos mercados. Como produtor independente, essa mudança me afeta negativamente, porque para usar o chocolate real eu preciso manter um preço maior do que os valores de ovos vendidos pelas grandes marcas”, complementou.

(Foto: Lorena Bonfá)
Desde 2023, Simoni Caldeira produz cacau em sua fazenda no noroeste paulista. Neste ano, afirma que o valor do cacau no mercado despencou após uma sequência de quedas. “Desde meados de 2025, teve uma queda bem significativa. Era R$ 60,00 o quilo e passou a R$ 40,00 o quilo. Agora em 2026 a queda foi ainda maior, reduzindo valor para R$12,00 o quilo, isso nos valores referentes às amêndoas secas”, comentou. O setor de chocolates no Brasil, que segundo o Euromonitor, movimenta aproximadamente R$ 25 bilhões anualmente. O país se destaca como sexto maior produtor de cacau do mundo, exportando 265 mil toneladas por ano, de acordo com órgãos com o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) e o Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira).
Simoni também é produtora independente e afirma que os valores dos chocolates artesanais não tiveram mudanças significativas. “Os valores dos chocolates não sofreram com a queda e a procura está cada vez maior”. A produtora afirma que possui expectativas para a Páscoa deste ano. “Nos dias de hoje, a procura por produtos veganos e 100% livres de conservantes está excelente, sendo assim procuramos manter nossa linha de produtos voltada a isso, mantendo nosso diferencial”, finalizou.
Confeiteira há 20 anos, Patrícia Barbosa sentiu o aumento no valor dos chocolates que usa para sua produção. “Neste ano, o preço do chocolate subiu, por isso o repasse para os clientes também teve que ser reajustado”, compartilhou. Porém, mesmo com o reajuste de preços, Patrícia percebeu uma alta na demanda das encomendas. “Neste período, as encomendas aumentaram bastante. Hoje, com o valor de um ovo de 150 gramas no mercado, o meu cliente consegue comprar um de 700 gramas. Essa diferença é o que estimula a compra de ovos artesanais”, complementou.
A Páscoa de 2026 coloca em pauta as mudanças no comportamento do consumidor, que tem buscado mais custo-benefício e qualidade, principalmente neste cenário onde a queda no preço do cacau não acompanha a queda no preço do chocolate. Segundo o SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), a preferência por confeiteiros independentes cresce impulsionada por produtos personalizados, empenho e criatividade. Na briga pelo pódio nas vendas, produtores locais conquistam espaço pela proximidade com o cliente e percepção de valor. Assim, o mercado se mantém aquecido, com destaques para o empreendedorismo. A persistência dos altos preços para o consumidor final se dá pelo tempo de ajuste da cadeia produtiva do cacau. Segundo a AIPC (Associação das Indústrias Processadoras de Cacau), uma queda brusca no preço da amêndoa pode demorar de 6 a 8 meses para chegar às prateleiras, dado o tempo de produção do insumo.
Além disso, a jornada para se ter um ovo de chocolate à venda ainda passa pelos preços do leite, açúcar, frete e câmbio, o que prorroga ainda mais o alívio no bolso para o consumidor final.
Orientação: Profa. Rose Bars
Edição: Eloah Dias

