Apesar de representarem a maioria da população do país, mulheres ainda seguem com baixa visibilidade no mundo dos esportes
Por Camilly Zangrande e Mariana Camparotto
Apesar de representarem a maioria da população, mulheres seguem com baixa visibilidade no esporte, tendo apenas 4% de cobertura midiática, segundo Fabi Alvim. Segundo dados levantados pela bicampeã olímpica e comentarista esportiva, no Fórum da Mulher, embora as mulheres representem 52% da população, apenas 4% do conteúdo da mídia esportiva é dedicado a elas.
Das quadras ao tatame, das pistas ao pódio, mulheres atletas no Brasil desafiam além dos limites do corpo, barreiras sociais e culturais. Entre treinos intensos e jornadas de superação, elas enfrentam falta de incentivo e a invisibilidade na mídia, transformando cada conquista em um ato de resistência.
A trajetória no basquete de Maria Eduarda Milanez expõe as barreiras que ainda cercam as mulheres no esporte. Contando sempre com o apoio do pai, ela encontrou no esporte um espaço de acolhimento, e segundo Maria Eduarda, para permanecer ali foi uma longa jornada, onde precisou enfrentar o machismo, o assédio e a constante desvalorização das mulheres em quadra. “Frequentemente vivencio situações de preconceito, mas com o tempo entendi que a culpa não é minha, e hoje eu lido com isso com outro olhar, que me fortalece cada vez mais.”, conta. Para ela, ocupar espaço no basquete significa resistência e conquista.

A percepção de Maria Eduarda dialoga com o documento elaborado pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) em parceria com a ONU Mulheres, que em 2021 lançou a Estrutura sobre Justiça, Inclusão e Não Discriminação.
O texto estabelece dez princípios universais, como inclusão, prevenção ao dano e respeito à autonomia corporal, para garantir que toda pessoa tenha direito à prática esportiva em ambientes seguros e livres de violência. Esses princípios funcionam como parâmetros globais para orientar federações e entidades esportivas na construção de ambientes seguros e acolhedores.
A relação de Maria Eduarda com o basquete começou cedo, inspirada pelo pai que joga desde a adolescência. Houve momentos em que cogitou deixar o esporte, porém ela sempre voltou às quadras, tanto pelo incentivo da família quanto pela necessidade de ter o esporte em sua vida. Para ela, o basquete ainda é um ambiente marcado pelo machismo, onde muitas vezes os homens resistem à presença feminina e tentam minimizar o desempenho das atletas. “Nós sempre entregamos tudo que podemos e estamos dominando cada vez mais o espaço no esporte’, afirma.
Pensando nas novas gerações, Maria Eduarda defende que meninas tenham mais oportunidades e visibilidade, e aconselha “É preciso entrar no esporte sabendo da realidade do machismo, mas sem deixar que isso as faça desistir. Superar o medo e encarar essas barreiras de frente é o que as tornará atletas gigantes!”, ela conclui.
A judoca Gabriela Naomi Silva também cresceu cercada pelo esporte. Influenciada pelos pais, ela começou no tatame aos três anos, e ao longo da carreira conquistou medalhas em competições nacionais e internacionais, incluindo o Campeonato Mundial de 2024. Apesar dos resultados, Gabriela ainda enfrenta a desvalorização do judô feminino, que recebe menos apoio e visibilidade em comparação ao masculino.
No judô, a diferença entre homens e mulheres ainda se reflete dentro e fora dos tatames. Segundo Gabriela, o feminino recebe menos reconhecimento em relação ao masculino. “Por ser um esporte muito respeitoso, eu nunca sofri preconceito, mas acabamos sofrendo um pouco de desvalorização de quem assiste de fora e até mesmo pelas gestões, que muitas vezes acabam pagando um salário maior para os homens, mesmo tendo os mesmos títulos e resultados que alguma mulher’, relata Gabriela Silva.
A percepção da judoca se alinha com dados oficiais. O COI já havia identificado esse problema em 2018, quando lançou o Projeto de Revisão da Igualdade de Gênero. O documento reúne 25 recomendações para a comunidade esportiva, incluindo a necessidade de eliminar disparidades salariais e em premiações entre homens e mulheres, além de direcionar recursos para projetos que promovam a igualdade de gênero.
O documento também identifica cinco fatores essenciais, esporte, representação, financiamento, governança e monitoramento, como pilares para ambientes mais inclusivos e equitativos.
Além das conquistas esportivas, Gabriela destaca o impacto do judô em sua vida pessoal. Segundo ela, a prática a ensinou a enfrentar desafios e a superar obstáculos. “No judô aprendemos a cair e levantar, e isso me ensinou que posso superar tudo o que aparecer pela frente. Além disso, conheci pessoas incríveis que estão sempre ao meu lado e vivo diariamente experiências que me mantêm motivada a viver ainda mais!”, afirma.

Enquanto Gabriela enfrenta a desvalorização e a luta por reconhecimento no judô, a trajetória no atletismo também revela desafios estruturais. É nesse contexto que surge a história de Marlene Ewellyn Silva dos Santos, marcada desde a infância pela busca por oportunidades e pelo esforço constante para transformar o esporte em carreira.
A história de Marlene e o atletismo se iniciou ainda na infância, inspirada pela irmã que praticou a modalidade durante a adolescência. Aos 10 anos, ela já estava nas pistas e em 2014, conquistou uma medalha no Campeonato Brasileiro Sub-16, resultado que lhe garantiu o benefício do Bolsa Atleta e abriu caminho para transformar o esporte em carreira.
Marlene reconhece que a falta de incentivo financeiro no país impacta os atletas, e que no começo foi um dos desafios que precisou enfrentar. Ela destaca que a Bolsa Atleta foi essencial para seu início de carreira, garantindo alojamento próximo à pista de treinamentos, bolsa de estudos e uma equipe multidisciplinar para apoiar seu desenvolvimento.
O COI considera fundamental que entidades esportivas alcancem ao menos 30% de participação feminina em cargos de presidência, diretoria e gestão técnica. Porém, no Brasil, apenas 29% das confederações olímpicas cumprem essa meta, evidenciando a distância entre a recomendação internacional e a realidade nacional. No caso do atletismo, não há mulheres ocupando cargos de presidência ou diretoria executiva, o que reforça a baixa representatividade feminina nas estruturas de poder.
Entre os resultados mais marcantes da carreira, Marlene conquistou o vice-campeonato mundial universitário e o vice-campeonato pan-americano. Para ela, essas medalhas são a concretização de 17 anos de treino, abdicação, superação e resiliência. “São meus resultados mais expressivos como atleta”, afirma.
Marlene afirma sempre ter encontrado respeito no ambiente profissional de atletismo. Para ela, os resultados conquistados são o que definem a trajetória de um atleta. “Não vejo o atletismo como um ambiente machista, e por ser um esporte individual, acredito que o destaque dependa de você e sua performance”.
A natação também revela desafios semelhantes, especialmente quando se trata da vivência feminina dentro do esporte, ainda mais em contextos paralímpicos. A nadadora Manuela Ribeiro traz um olhar que evidencia a necessidade constante de provar seu valor.
Para ela, um dos maiores desafios é a cobrança permanente por reconhecimento. “Como mulher, e ainda dentro do esporte paralímpico, muitas vezes você precisa mostrar o dobro para ser vista da mesma forma. E isso não é só dentro da água, é em tudo que envolve o esporte”, afirma.
A trajetória da atleta é marcada por momentos de superação que vão além das medalhas. Um dos mais marcantes foi o retorno à natação após um período afastada, já na cadeira de rodas, além da conquista do título brasileiro aos 15 anos e a convocação para a seleção de base. “Foram momentos que me mostraram que eu estava no caminho certo”, relembra.
O reconhecimento veio cedo, mas não sem esforço. Ao conquistar o título de campeã brasileira ainda adolescente, Manuela passou a enxergar o esporte como um propósito. “Ali eu entendi que tudo que eu tinha passado até então fazia sentido e que eu podia ir muito além do que imaginava”, conta. Pouco tempo depois, realizou um de seus sonhos ao representar o Brasil em Buenos Aires, onde conquistou a medalha de prata nos 400 metros livre.
Mesmo com resultados expressivos, a atleta destaca que as diferenças de tratamento entre homens e mulheres ainda são perceptíveis. “Nem sempre é algo explícito, mas você percebe diferenças em oportunidades, visibilidade e até na forma como o desempenho é valorizado”, explica.

Apesar dos obstáculos, Manuela enxerga no esporte uma ferramenta de transformação. Para ela, representar mulheres vai além da competição. “É uma responsabilidade muito grande, mas também uma honra. É mostrar que a gente é capaz e que outras meninas também podem chegar lá.”
Em 2024, nenhuma atleta figurava entre os cem mais bem pagos do mundo. A desigualdade também aparece nas lideranças técnicas, onde apenas 13% das treinadoras estavam credenciadas nos Jogos Olímpicos. Cada conquista feminina no esporte, portanto, é também um ato de resistência contra barreiras que ainda persistem.
As histórias das atletas revelam que, apesar das diferenças entre cada modalidade, os desafios enfrentados pelas mulheres no esporte ainda se cruzam em pontos comuns: a luta contra o preconceito, a busca por visibilidade e o esforço diário para provar seu valor. Cada conquista dessas atletas não é apenas pessoal, mas também coletiva, pois abre caminho para que novas gerações encontrem no esporte um espaço de igualdade e reconhecimento. Mais do que medalhas, elas carregam a missão de transformar o cenário esportivo brasileiro.
Orientação: Profa. Rose Bars
Edição: Gabriel Rosa

