Coletivos femininos ocupam as arquibancadas, criam redes de apoio e pressionam clubes por políticas efetivas de segurança
Por Amanda Poiati e Fayollah Souza
O número de mulheres torcedoras no Brasil é crescente e elas vêm ocupando cada vez mais espaço nas arquibancadas. De acordo com estudo realizado em 2022, pelo Kantar Ibope Media, o público feminino representa cerca de 44% dos fãs de futebol no país. Já o levantamento da Sponsorlink mostra que o número de torcedoras cresceu de 37,2 milhões em 2018 para 46,7 milhões em 2023, aproximadamente 26% de aumento. Dados de times brasileiros apontam crescimento na presença de mulheres nas torcidas organizadas, como Flamengo (48%), São Paulo (45%), Corinthians (43%), Palmeiras (40%) e Vasco (33%).
Mesmo com o avanço, relatos de assédio seguem frequentes e mostram que a presença feminina não garante, por si só, ambientes seguros. Esse contexto impulsiona a criação de grupos femininos focados na segurança das mulheres nos estádios. No entanto, a frequência de mulheres em estádios ainda é um desafio. O estudo aponta que apenas uma em cada três frequentam os estádios, com a falta de segurança sendo a principal justificativa.

A distância entre interesse e presença é explicada pelo histórico de masculinização desses espaços. Para Ana Paula Benta, integrante da comunicação da Ponte Preta, o receio continua forte entre torcedoras jovens. “As meninas têm muito receio de ir, mas não é porque foram ou tiveram uma experiência negativa. É pelas histórias que elas ouviram. Existe uma cultura negativa sobre os campos de futebol. A gente sabe que existe o machismo dentro do futebol, a gente sabe que existe agressão. A maioria das mulheres vão acompanhadas de um homem, nunca sozinhas ou num grupo de amigas.”
Para Rosana de Almeida, integrante da Torcida Jovem da Ponte Preta, a mudança nas arquibancadas é visível. “Éramos pouquíssimas mulheres que entravam na Torcida Jovem. Até que vieram mais mulheres com a gente e teve o respeito. Hoje, algumas meninas estão tendo interesse, já entram no meio da torcida mesmo, na batucada, mas sempre teve o espaço reservado na arquibancada para mulheres e crianças.”
No Brasileirão Feminino, as mulheres são maioria, sendo aproximadamente 52% do público. Ainda assim, pesquisa do Datafolha sobre frequência em estádio mostra que 59% dos homens já foram a um estádio, contra apenas 35% de mulheres torcedoras.

Na análise do pesquisador Felipe Tavares Lopes, docente de sociologia do esporte na Unicamp, a transformação das arquibancadas ocorre em meio a estruturas marcadas pelo domínio masculino. “De uma forma geral, são espaços feitos por homens e para homens. Isso vem desde as origens do futebol moderno.” Segundo ele, a presença feminina não elimina desigualdades. “As mulheres podem entrar numa condição inferiorizada e desigual, seja torcendo ou trabalhando nos clubes. Por isso é tão importante a socioeducação.”
Dentre tais percepções, Ana Paula também aponta que a mudança depende da postura de quem ocupa posições de autoridade. “Enquanto a gente tiver falas desrespeitosas de pessoas que representam os clubes e não tiver punições severas, o restante é instinto de manada. Vão achar que também podem fazer porque não vai ter punição”.
Ela observa, ainda, que a presença de mulheres na organização dos clubes cria referências para a nova geração. “Quando eu tinha 10 anos, eu não via mulheres dentro do campo trabalhando. Quanto mais mulheres trabalharem nos clubes e nas organizações, mais teremos esses olhares atentos e voltados para a proteção da mulher.”
Felipe Lopes aponta que a organização coletiva é fundamental. “O mais importante para a transformação é a construção de coletivos ativistas, da organização coletiva feminina, que possa fazer enfrentamento dessas diversas formas de desrespeito.” Ele defende a retomada de políticas públicas voltadas à segurança nos estádios, interrompidas nos últimos anos.
Entre elas está a CONSEGUE (Comissão Nacional de Prevenção da Violência e Segurança nos Espetáculos Esportivos), paralisada após anos de atuação. “Seria fundamental que fosse restituída porque ali era o espaço de elaboração de políticas públicas efetivas. O primeiro passo seria restabelecer e democratizar esse espaço. O segundo é que essas políticas sejam baseadas em pesquisas científicas.”
Enquanto estruturas institucionais não avançam, alguns clubes começam a adotar ações práticas visando à proteção da mulher. Em novembro de 2025, o Corinthians realizou pela primeira vez um treinamento antiassédio no estádio Neo Química Arena, prática já adotada pelo Botafogo, no Nilton Santos. O público recebeu orientações de conduta e informações sobre os protocolos de proteção, em ação conduzida pela ONG Cruzando Histórias.
Em ações e campanhas, os clubes reforçam a necessidade de enfrentar a violência contra mulheres para além das rivalidades esportivas.
As mudanças ainda são graduais, mas representam avanços. Para Ana Paula, estar em campo também carrega memórias afetivas. “Eu levo comigo um monte de mulheres da minha família que não tiveram essa possibilidade. As mulheres não podiam frequentar campos de futebol. Se eu olhar para frente, falta muita coisa para avançar. Mas se eu olhar para trás, a gente avançou muito.”
A expansão dos coletivos femininos, das redes de proteção e das iniciativas de clubes indica que a ocupação das arquibancadas pelas torcedoras segue em construção. O desafio vem sendo enfrentado, para além das campanhas nas redes sociais, e visa transformar a presença em permanência segura.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

