Esportes

Basquete feminino une tradição e representatividade para mulheres

Por Gabriela Belloto, Isabelle Layara, Isabelly Godoy, e Maria Eduarda Inácio Pereira

Em 26 de setembro de 1993, no ginásio de Parma, na Itália, o time feminino da Ponte Preta, liderado por Hortência e Magic Paula, conquistou o título mundial de clubes e colocou o basquete brasileiro no cenário internacional. Foi um feito impactante para uma modalidade que, na época, recebia pouco investimento, visibilidade e patrocínio.

Trinta e dois anos depois, o basquete feminino vive um novo capítulo. Hoje, não é sustentado apenas pela luta da geração dos anos 90, mas também por redes sociais, criadoras de conteúdo, jogadoras que viralizam e uma audiência em busca de representatividade. Entre as quadras e a internet, foi formado um ecossistema inexistente no passado, que hoje permite às meninas enxergarem um espaço possível no esporte. E o crescimento é mundial. 

Segundo dados da InfoMoney, os esportes femininos devem movimentar mais de R$ 13,3 bilhões em 2025, impulsionados por transmissões recordes, interesse comercial e comunidades digitais ligadas ao futebol e ao basquete. Já a Women’s National Basketball Association (WNBA), liga norte-americana de basquete feminino, caminha para se tornar a mais valiosa do mundo, com negociações que podem ultrapassar US$ 200 milhões em contratos de mídia.

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Lacunas do passado e presente

Hortência comemorando em jogo nas Olimpíadas (Foto:Divulgação/CBB)

A década de 90 marcou o auge de Hortência e Paula, mas também revelou a precariedade da estrutura esportiva feminina no Brasil. Hortência, que entrou na seleção aos 16 anos, lembra que o caminho nunca foi fácil, mas sempre foi movido pela paixão. “Eu me apaixonei pelo basquete e me dediquei muito. Apesar de ter o dom, o mais importante foi a mentalidade de atleta e a disciplina que eu sempre mantive,” inicia a ex-jogadora.

Mesmo diante do preconceito e da falta de apoio, a campeã mundial também comenta que sempre foi focada em seus objetivos, e que não deixava nada de fora atrapalhá-los. “O que me importava era estar dentro da quadra, fazendo o que me fazia feliz. Eu não ligava para o que diziam,” comenta Hortência. No entanto, a realidade hoje é outra, a qual ainda contém lacunas do passado. 

A ala Lua Nascimento, do time de basquete feminino, Unimed Campinas, começou no esporte em um projeto sem muita estrutura em sua época de escola. E para ela, houve avanços na forma como as atletas são vistas. A visibilidade cresceu, a cobertura aumentou, mas os desafios permanecem. “O maior desafio é conciliar vida pessoal e profissional. A gente precisa ser profissional o tempo inteiro. E para quem é mãe, é ainda mais difícil”, diz Lua. 

No time do Sesi de Araraquara, a jogadora Gabriela Soares (Sossô), tricampeã da Liga de Basquete Feminino (LBF), vê a internet como um fator crucial para impulsionar a nova geração. “O que mudou foi o incentivo. As redes sociais trazem mais visibilidade, as pessoas podem ver a nova geração. Isso ajuda muito”, comenta Sossô ao mesmo tempo que também reforça a falta de incentivo financeiro como a principal lacuna para quem vive do esporte. Além de ainda existir a grande diferença em relação aos times masculinos. 

Sossô, à esquerda, e Lua Nascimento, à direita, sendo entrevistadas após o jogo da semifinal, em Campinas (Foto e edição: Isabelly Godoy)

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Visibilidade virtual

Na época de Hortência, a televisão era o único caminho para acompanhar o basquete. Hoje, a internet quebra barreiras entre jogos, fãs e comunidades do esporte. 

Mundialmente, iniciativas globais mostram mulheres atletas virando “powerhouse creators”, segundo a pesquisa realizada pelo Snapchat, Dentsu e Ipsos, revelando que mulheres no esporte não são apenas de momento, e sim um movimento. Nesse relatório de 2025, 77% de quem segue criadoras/esportistas mulheres reportam que foram influenciados positivamente a conhecer ou consumir algo por conta delas. E entre fãs de esportes femininos, esse número sobe para 83%. No Brasil, conseguimos perceber esse crescimento na prática. 

Bruna Leal, criadora de conteúdo de basquete, torcedora profissional e criadora do grupo “Torcedoras Profissionais” para meninas que gostam de NBA (Foto: arquivo pessoal)

Bruna Leal começou a produzir conteúdo sobre basquete em 2020, quando o esporte ainda não era muito falado entre mulheres. Seu público cresceu exponencialmente quando passou a criar do seu jeito. “Meu perfil só começou a bombar quando parei de tentar agradar o público masculino e comecei a falar do jeito que eu queria”, explica Bruna.   

Hoje, com 18,5 mil seguidores no Instagram, 40% da sua audiência é feminina. E os relatos que ela recebe se repetem: mulheres que finalmente encontraram um espaço seguro para falar de basquete. Para ela, o legado de Hortência abriu passagem para o esporte seguir ainda mais vivo do que nunca com expansão. “O que a Hortência, a Ellen e a Janeth fizeram abriu caminho para as meninas. Relembrar o passado não compete com exaltar o presente, cria uma ponte,” expressa a criadora de conteúdo.

No entanto, Bruna também vê obstáculos e compartilha das mesmas opiniões das jogadoras: a desvalorização. “Aqui no Brasil, a LBF (Liga de Basquete Feminina) ainda é muito desvalorizada. Falta investimento, falta visibilidade, falta vontade política,” desabafa Bruna. Mas ela mantém a perseverança com seu conteúdo ao defender que mais mulheres entrem nesse universo, pois muitas meninas esperam alguém para se identificar. 

O basquete feminino brasileiro avança em várias frentes: quadras, redes sociais, projetos, transmissões e colaborações internacionais. Pela primeira vez, há uma geração inteira assistindo, torcendo e participando. Se a geração dos anos 90 abriu portas nas quadras, agora uma nova leva de mulheres abre portas também pelas telas do celular. Talvez essa possa ser a combinação necessária para transformar o basquete feminino. 

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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana


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