Criado em 2019, o Camaleões FC tornou-se um espaço de integração, resistência e construção coletiva no cenário esportivo regional
Por Diogo Mosna e Larissa Idem
Com mais de seis anos de trajetória, o Camaleões Futebol Clube surge como o primeiro time a promover um ambiente esportivo voltado a pessoas LGBTQIA+ em Campinas. Além de atuar como um espaço de acolhimento e integração entre jogadores e torcedores de toda a Região Metropolitana de Campinas (RMC), o clube estende a luta da comunidade para além das quadras de futebol.

Embora esteja inserido em um cenário esportivo marcado por conservadorismo e preconceitos, o time resiste. Os treinos, as atividades e as confraternizações realizadas semanalmente garantem que atletas e apoiadores convivam em um espaço seguro.
Criado em outubro de 2019 por Rudi Pety, fundador e ex-presidente do time, o Camaleões FC surgiu para agregar inclusão ao futebol da região. Após assistir a uma série televisiva sobre a temática, Pety conta que criou um grupo no WhatsApp para encontrar potenciais jogadores, dando início ao projeto que se tornaria o Camaleões.
“No começo, o time era para ser uma atividade de lazer, um espaço para a gente se reunir e fortalecer a comunidade de forma segura para quem é gay e quer jogar futebol. Geralmente, no futebol regular, a gente é muito taxado. As piadas que rolavam dentro de campo eram, na maioria das vezes, pejorativas. Minha inquietude com isso fez com que eu começasse a me movimentar para criar o time, pensando em construir um ambiente onde pudéssemos ser nós mesmos, sem nenhum tipo de repreensão”, afirma.
Segundo o fundador, além de deixar sua marca na comunidade, o projeto ajuda participantes a enfrentar práticas homofóbicas enraizadas no futebol. As interações também criam oportunidades profissionais, já que o grupo reúne pessoas de diferentes áreas que se encontram nos treinos realizados às quartas-feiras.
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Responsabilidade
Atualmente, cerca de 40 atletas frequentam os treinos, de acordo com Heron Sanajotti, jogador e atual presidente do Camaleões FC. Há pouco mais de dois meses na presidência, Sanajotti entrou para o time em dezembro de 2019, quando o grupo ainda estava em formação, com apenas dez integrantes.
Para ele, presidir o primeiro time LGBTQIA+ da RMC em um cenário marcado por homofobia e padrões de masculinidade é uma “responsabilidade grande”. Ele acrescenta que muitas pessoas se aproximaram do esporte através do Camaleões, especialmente pela integração promovida pelo time e pela sensação de pertencimento despertada nos membros da equipe.
“A gente sabe da importância do time, principalmente em relação à visibilidade. No futebol, no geral, o público masculino é muito machista e homofóbico. Só a nossa existência já faz com que as pessoas que nos conhecem vejam que a gente joga bola frente a frente com jogadores héteros. A gente ama o esporte e, para nós, esse convívio é importante, não só entre os jogadores, mas também entre os amigos e a torcida”, comenta.

A percepção sobre o impacto do time também aparece na visão da comissão técnica, que lida diretamente com a rotina dos treinos e com os desafios de manter um ambiente seguro e acolhedor dentro do futebol. Allan Zampola, técnico do Camaleões FC desde março de 2024, relata que o treinamento exige compreensão do contexto esportivo e resistência para enfrentá-lo. Ele explica que o trabalho cotidiano parte do entendimento de que o futebol amador ainda é permeado por camadas de intolerância.
“Treinar o time é, por um lado, uma aprendizagem constante de histórias, de conhecer caminhos, conhecer pessoas, conhecer propósitos e motivações que levam essas pessoas a estarem e fazerem parte da equipe. Por outro lado, é uma forma de entender que, na minha perspectiva, o esporte, o futebol, o futebol amador, dentro desses contextos, estão em constante movimento pelos próprios momentos históricos e perspectivas em que são vividos e construídos”, explica.
Para ele, o treino no Camaleões representa uma forma de reconstruir o esporte, ampliar horizontes e de democratizar o futebol amador. Zampola ainda destaca a convivência e o fortalecimento da equipe. Ele menciona que traz dinâmicas para reforçar o espírito coletivo e estimular um olhar sensível entre os jogadores, favorecendo o diálogo, autoconhecimento e conexão.
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Desafios e impacto
Atualmente, a principal dificuldade que o time enfrenta é a ausência de patrocinadores. Conforme explica Sanajotti, pelo time ser “mais nichado”, poucas empresas querem investir nele. O técnico do clube acrescenta que a captação de atletas é outro obstáculo. Segundo ele, enquanto São Paulo conta com variadas equipes LGBTQIA+, Campinas ainda apresenta menor oferta de ambientes esportivos inclusivos.
“Talvez por Campinas ser uma cidade ainda mais conservadora, sem muitos ambientes inclusivos dentro do esporte. A gente é o único time de Campinas que é participante da LIGAY, enquanto São Paulo, capital, tem outras seis equipes”, informa.
Mesmo diante dos desafios, o Camaleões FC consegue impactar seus integrantes, criando laços que ultrapassam o limite do campo e fortalecem a vivência comunitária. Para Sanajotti, os jogadores têm “uma ligação muito forte”, vinculada ao espaço de confraternização e à rede de apoio que o clube oferece.
Zampola compartilha do mesmo sentimento, destacando como a evolução coletiva e a identidade construída pelo grupo tornam o ambiente “prazeroso e acolhedor”. Jogadores e torcedores também reconhecem esse impacto. Ricardo de Castro Pereira, atleta pelo time há quatro anos, conta que chegou ao clube após experiências de preconceito em times heteronormativos. Ele afirma que integrar o Camaleões representa “um ato de resistência e uma busca pelo respeito”.
Embora o torcedor e professor Renan Soeiro de Faria avalie que a inclusão não seja simples, o time contribui para tornar Campinas uma cidade melhor.
“O nosso time é muito mais voltado para ajudar, auxiliar, respeitar as diferenças. É muito diverso, mas não é a profissão que vai determinar, é a intenção de estar em grupo”, reforça.
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LIGAY 2025
Filiado à LIGAY desde 2021, o Camaleões disputa campeonatos regionais e nacionais que reúnem equipes LGBTQIA+ de todo o País. Para Heron Sanajotti, a participação na liga dá visibilidade ao time, bem como combate preconceitos no esporte.
“É importante que os times participem não só da Ligay, mas de campeonatos com outros times, para mostrar que a gente joga bola, que sabemos jogar, que gostamos e consumimos futebol”, diz.
O torneio é de grande visibilidade para todo o time. A cada ano o torneio cresce com relação à divulgação e visibilidade e o time recebe sempre novos torcedores. Para a edição de 2025 da liga, Zampola ainda construiu um modelo de jogo coletivamente, ajustado conforme o calendário competitivo. Ele recorda que, na etapa Sudeste em Belo Horizonte, o time se destacou tanto tecnicamente quanto pelo comportamento exemplar em campo.

“Tudo isso constrói um ambiente de grandes expectativas que vão além do que a gente vai jogar. É um ambiente de integração, de se conectar entre nós, de rever pessoas de outros times, de outras cidades e de outros estados, e fazer com que seja um evento produtivo, prazeroso e com bons resultados”, finaliza o técnico.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

