Redes sociais desempenham um papel determinante ao difundirem modelos corporais ‘perfeitos’ e muitas vezes inalcançáveis
Por: Clara Dejean e Gabriela Brito
A cultura wellness – conjunto de práticas voltadas ao bem-estar físico, mental e emocional – tem levado brasileiros a adotar rotinas cada vez mais rígidas de alimentação, exercícios e autocuidado, muitas vezes influenciadas por redes sociais e padrões idealizados. Esse modelo tem gerado pressão por desempenho e padrões de vida considerados ideais, especialmente entre jovens adultos e trabalhadores urbanos, mais expostos às redes sociais e a conteúdos que incentivam disciplina corporal, produtividade e autocontrole.
Esse avanço ocorre em paralelo ao aumento de problemas de saúde mental. Em 2025, o Brasil registrou mais de 500 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, segundo dados recentes do Ministério da Previdência Social, evidenciando uma contradição entre a busca por bem-estar e o adoecimento psicológico.
Relatórios divulgados em 2025 pelo Global Wellness Institute apontam que a economia global do bem-estar segue em expansão e deve ultrapassar os 7 trilhões de dólares nos próximos anos. No Brasil, o setor também cresce e coloca o país entre os maiores mercados do mundo nesse segmento. Esse dinamismo econômico se insere, no entanto, em um contexto sanitário preocupante: o Brasil ocupa o primeiro lugar mundial em prevalência de transtornos de ansiedade segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa coexistência entre a expansão do bem-estar e a fragilidade psíquica revela que o ideal exibido não coincide necessariamente com a realidade vivida.
Para a psicóloga bariátrica Camila Bender, esse descompasso se explica por uma transformação profunda da relação com o cuidado de si. “O bem-estar é apresentado como algo controlável, quase como uma performance”, observa ela. Nesse contexto, o indivíduo é incentivado a otimizar cada aspecto de sua existência, alimentação, atividade física, sono, gestão emocional, segundo padrões muitas vezes idealizados. Ora, esse acúmulo de exigências produz um efeito inverso ao esperado. “O que deveria ser autocuidado torna-se uma forma de autocobrança”, ressalta ela, descrevendo um processo no qual a culpa e a ansiedade surgem quando a pessoa não consegue corresponder a esses modelos.
Essa pressão se exerce com intensidade particular sobre as gerações mais jovens, imersas em um ambiente digital saturado de imagens e de narrativas normativas. A geração Z evolui em um universo onde os corpos, as rotinas e os estilos de vida são constantemente encenados, filtrados e estetizados. “Existe uma exposição permanente a referenciais irreais. Isso fragiliza a construção identitária e reforça a comparação social.” Nesse contexto, o corpo deixa de ser simplesmente vivido para se tornar um objeto de avaliação contínua. Essa tensão não se limita à esfera psicológica. Ela se estende às práticas esportivas, que se tornaram um marcador central do modo de vida contemporâneo.

Psicóloga Camila Bender // Preparador físico Lucca Frazão // Ana Flavia M. Cristóvão (Fotos: Divulgação)
O preparador físico Lucca Frazão observa um aumento constante da procura por treinamento e condicionamento físico nos últimos anos. Segundo ele, essa evolução se explica por um acesso mais amplo à informação, aos avanços da medicina e às tecnologias. “As pessoas buscam viver melhor, por mais tempo, com mais qualidade. O exercício físico não se limita mais à saúde, ele se insere, agora, em um verdadeiro estilo de vida, estruturando o cotidiano, os hábitos e os objetivos pessoais”, explica ele
Mas essa transformação não é isenta de ambiguidade. Se, na teoria, os indivíduos dizem buscar a saúde, na prática, a busca estética continua sendo frequentemente prioritária. “As pessoas querem resultados rápidos”, destaca Lucca Frazão, evocando um fenômeno de imediatismo que se tornou central. Ora, o corpo não responde a essa lógica. O progresso físico baseia-se na constância, no tempo e na adaptação. A busca por atalhos, sejam programas irreais, promessas exageradas ou até o uso de substâncias, acaba por fragilizar o equilíbrio buscado. “A saúde não se compra, ela se constrói”, insiste ele.
As redes sociais desempenham aqui um papel determinante. Ao difundirem modelos corporais muitas vezes inalcançáveis e, por vezes, artificiais, elas alimentam expectativas irreais. Lucca Frazão alerta para as falsas promessas veiculadas por certos conteúdos, especialmente aqueles produzidos por influenciadores não qualificados. “Cada corpo é diferente, cada rotina é diferente. Não existe transformação universal”, lembra ele. Essa padronização dos objetivos contribui para aumentar a frustração e confundir as referências.
Essa realidade ganha uma dimensão ainda mais concreta no testemunho de Victória Vicentini, uma jovem que viveu por dentro essa pressão do wellness. Durante quase dois anos, ela adotou um modo de vida rígido, guiado por tendências vistas nas redes sociais. Na origem, uma insatisfação corporal e um desejo de mudança. Muito rapidamente, o que começa como uma tentativa de transformação se torna uma obsessão. “Eu nunca achava que tinha alcançado o corpo ideal”. As restrições alimentares se intensificam, as práticas se tornam mais rígidas, até que surgem os efeitos físicos, queda de cabelo, tonturas, fadiga constante, carências nutricionais. No plano mental, o impacto é igualmente profundo, perda de autoestima, autocrítica constante, sensação de estar presa a um estilo de vida que passa a controlar todos os aspectos do cotidiano.
Como muitos outros, ela descobre nas redes sociais soluções rápidas, jejum intermitente, dietas restritivas, que prometem resultados visíveis. Mas esses métodos, aplicados sem acompanhamento, a conduzem a um esgotamento progressivo. “Os períodos de jejum eram cada vez mais longos e eu ficava sem energia”, explica. Foi somente após procurar profissionais de saúde, nutricionistas e psicólogos, que ela conseguiu reconstruir uma relação mais equilibrada com seu corpo. Hoje, ela segue um estilo de vida mais flexível, ainda que alguns hábitos permaneçam, prova do impacto duradouro dessas experiências.
ALIMENTAÇÃO
Os efeitos dessa cultura se manifestam também de forma muito concreta nas práticas alimentares. A nutricionista integrativa e esportiva Ana Flavia M. Cristóvão observa uma evolução preocupante dos comportamentos nutricionais, marcada por uma combinação de restrição calórica e exigência física elevada. Ouça…
Por trás dessa aparente disciplina escondem-se desequilíbrios importantes. A especialista descreve uma alimentação frequentemente desorganizada, influenciada por tendências mais do que por necessidades fisiológicas reais. As dietas hiperproteicas, por exemplo, são amplamente difundidas sem distinção entre os perfis. Ora, quando não são adaptadas, podem provocar inflamações intestinais, desequilíbrios metabólicos e perdas de nutrientes.
De forma mais ampla, é a alternância entre restrição e excesso que aparece como um fator central de desequilíbrio. Dietas rígidas provocam fadiga, irritabilidade e queda de desempenho, enquanto os episódios de excesso que se seguem acentuam ainda mais a desestabilização do organismo. Entre os mais jovens, essas práticas podem chegar a provocar perturbações hormonais e um estado de estresse crônico.
PADRÕES
O que atravessa todos esses fenômenos é a difusão de modelos padronizados, apresentados como universais. Protocolos alimentares, programas esportivos, rotinas de bem-estar, tantas prescrições que circulam massivamente, muitas vezes desconectadas das realidades individuais. “Cada paciente é uma folha em branco”, lembra Ana Flavia M. Cristóvão. Uma abordagem uniforme não pode responder a necessidades singulares.
Nesse contexto, o bem-estar deixa de ser uma experiência íntima para se tornar um objetivo mensurável, comparável e, portanto, potencialmente fonte de frustração. Diante dessas derivas, os especialistas defendem a necessidade de redefinir o wellness a partir de princípios mais simples e mais realistas.
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Orientação e edição: Adauto Molck
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