Esquemas financeiros irregulares, interferência política e possível envolvimento de autoridades ampliam crise que já chegou ao STF
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Por Guilherme Rodrigues, Laura Godoy e Raquel Piveta
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A operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master desde o final de 2024, pode ser considerada um pavio que, se aceso, explodirá uma bomba capaz de abalar a praça dos três poderes em Brasília. O fogo para acender esse pavio tem nome e sobrenome: Daniel Vorcaro e sua possível delação premiada.
Preso desde 04 de março, Vorcaro trocou de advogado 11 dias depois e em 19 do mesmo mês foi transferido para a sede da Polícia Federal, onde ocupa a mesma cela usada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Com essa movimentação, a possibilidade de uma delação premiada aumenta significativamente.
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Vorcaro havia sido detido anteriormente no dia 18 de novembro de 2025, mas teve sua prisão revogada 10 dias depois, para cumprimento de pena com monitoramento por tornozeleira eletrônica. No período entre os meses de novembro e março, foram apreendidos celulares do banqueiro que mostraram não apenas documentos importantes para a investigação, como também intimidação de testemunhas e ligação com nomes do meio político e do Supremo Tribunal Federal (STF).
Na última semana, o Supremo começou a avaliar as possibilidades para uma negociação de uma Delação Premiada de Vorcaro, e o banqueiro assinou um Termo de Confidencialidade com a Procuradoria Geral da República (PGR) e a Polícia Federal.
A ideia inicial é de que a definição para a delação dure menos de 6 meses, pela possibilidade de atrapalhar as eleições presidenciais em outubro. Caso ultrapasse o tempo estipulado, os investigadores afirmam que a delação deve ser adiada para depois do período eleitoral. Se a delação não acontecer, é possível que Vorcaro enfrente entre 20 e 30 anos de prisão.
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POSSÍVEL ENVOLVIMENTO DO STF
O órgão da corte encarregado por votar pela continuidade da prisão preventiva do banqueiro (Segunda Turma do STF) era composto pelo presidente, Gilmar Mendes, e pelos ministros Dias Toffoli, André Mendonça, Nunes Marques e Luiz Fux. Entretanto, na quarta-feira, dia 11 de março, o Ministro Dias Tóffoli se declarou suspeito para julgar a prisão de Vorcaro e analisar a necessidade de instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).
A necessidade de afastamento de Dias Tóffoli do Caso Master vem sendo questionada desde novembro do ano passado, mas o ministro só deixou a relatoria em fevereiro de 2026, quando foi revelado que a empresa Maridt Participações, comandada pelos irmãos do ministro, realizou transações com a Reag, empresa administradora de investimentos que tem ligação com o Banco Master.
Maria Inês Targa, desembargadora do trabalho aposentada, explica como a saída de um ministro da relatoria pode impactar não só no andamento do caso, mas na forma como o STF passa a ser visto pela população, o que coloca em risco a credibilidade do terceiro poder e quebra o Código de Ética da Magistratura.
“Se o magistrado desde logo não se dá por impedido ou suspeito, não há dúvidas de que, se o Tribunal acolhe o impedimento ou suspeição, isso impacta a credibilidade do Poder Judiciário e atrasa o andamento do processo. No caso do Banco Master, foi muito inadequado o Ministro Relator, inicialmente, não ter se dado por suspeito, o que só fez muito tardiamente e, mesmo assim, após ser confrontado em uma reunião com os demais magistrados”, analisa a desembargadora.
O possível envolvimento de um dos integrantes da Segunda Turma levanta suspeitas sobre a capacidade do órgão para julgar e conduzir o caso Banco Master.
“No caso do Banco Master, os crimes financeiros e a corrupção estão envolvendo membros dos três Poderes e instituições reguladoras como o Banco Central. Então, cabe ao STF investigar e punir essas autoridades, como parlamentares e ocupantes de altos cargos no Poder Executivo. A citação de integrantes do Poder Judiciário em escândalos como o do Banco Master configura gravíssima ameaça à essência da magistratura, cuja integridade impõe ao juiz não apenas ser honesto, mas também parecer honesto de forma inequívoca. O princípio da imparcialidade é o pilar da confiança pública no Judiciário. Sua ausência gera percepção de distorção, fazendo ruir a legitimidade institucional”, explica a desembargadora.

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IRREGULARIDADES
O caso Master carrega uma reunião de fraudes e irregularidades que induziram o seu crescimento acelerado e resultou em uma queda ainda mais rápida. Falhas na fiscalização, omissões de órgãos reguladores e interferência política foram fatores que contribuíram para que a instituição funcionasse até implodir. O seu desabe foi devido a um esquema interno que objetivava o favorecimento próprio dos empresários da instituição.
O Banco Central identificou dois esquemas distintos operados pelo banco, que se complementavam para manter a liquidez de forma artificial. O primeiro esquema envolvia a venda de carteiras de crédito ao Banco de Brasília (BRB), em que o Master adquiria créditos de terceiros e os repassava para o BRB, mantendo o fluxo de recursos que sustentava a estratégia de crescimento do banco, tendo em vista que os depósitos estariam protegidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Já o segundo esquema consistia em empréstimos fictícios feitos pelo Master à empresas, que direcionavam tais recursos para fundos da Reag. Nesses fundos, o dinheiro circulava com ativos de venda registrados por valores inflados, posteriormente retornando ao banco, seu local de origem, fechando, dessa forma, um circuito de fraudes.
Gustavo Capel, economista e supervisor comercial em uma empresa de investimentos, explica que as garantias irreais prometidas aos credores está entre os principais esquemas que implicaram na explosão e ruína do Banco Master.
O banco sofreu uma liquidação extrajudicial em novembro de 2025, que resultou no encerramento de suas atividades pelo Banco Central, entidade que detém a autonomia para fazer intervenções e liquidações das instituições financeiras de acordo com a Lei nº 6024, de 1974.
Fábio Martins Bonilha Curi, doutor em direito comercial pela USP e professor do curso de Direito da PUC-Campinas, explica que o encerramento do banco ocorreu devido a uma crise de liquidez. “Houve algumas violações de normas ao sistema financeiro nacional, mas o principal ponto era uma questão de liquidez. Como o Banco Master não tinha condições de pagar seus títulos, ele foi encerrado”, afirma.
O professor abre a discussão sobre como a população tende a confundir os papéis responsáveis por cada parte do esquema e da investigação. “O cerne da questão é a gente discernir melhor os fatos e as funções de cada um dos personagens envolvidos no caso do Banco Master. Nós precisamos diferenciar cada uma dessas figuras e cada um dos fatos que estamos enfrentando para que não façamos julgamentos precipitados”, diz Curi. Ele explica que é o Banco Central que tem autonomia e função legal e institucional de regular o mercado financeiro, algo que, presentemente, está sendo confundido por alguns, que acabam por culpar o sistema judiciário por medidas que não são responsabilidade do setor.
O professor compreende que há uma confusão por grande parte da população, a qual acredita que toda a investigação está ligada a um único setor, como no áudio a seguir.
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IMPACTOS
Os impactos das irregularidades do Master vão além de prejuízos apenas para o próprio banco e para os envolvidos diretamente no caso, a iniciar pelo mercado financeiro brasileiro. O principal risco para o mercado é a queda na liquidez do FGC, ou seja, uma redução no volume de dinheiro disponível no momento para honrar garantias bancárias.
Paulo César Adani, professor da Faculdade de Economia da PUC-Campinas, explica como o Master influenciou essa queda. “O Banco Master utilizou a garantia do FGC para pagar valores fora do padrão, mais de 130% do valor investido. Ele captou muito recurso, criando uma descapitalização do Fundo Garantidor de Crédito, pois um único banco pegou um terço do caixa referente a todos os mais de 200 bancos que temos”, afirma.
A desconfiança, no entanto, não se estabiliza apenas no mercado financeiro, mas reflete em todo o sistema governamental. Devido à dimensão do escândalo envolvendo o caso do Banco Master, é natural que diversas consequências atinjam o atual governo, como explica Vitor Barletta Machado, sociólogo e professor da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-Campinas. “As pessoas tendem a achar que o momento em que o escândalo estoura é o momento da culpa. Muitas pessoas não vão passar um tempo vendo a história e analisando, vão pensar ‘estourou agora, o governo do momento é esse, portanto a culpa é dele’. Então, é muito fácil respingar no governo atual”, justifica.
Barletta explica que a opinião pública referente à política a partir do caso do Banco Master ainda é uma questão difícil de discutir, pois depende da cobertura, dos impactos e até da forma com que o caso será abordado nas campanhas eleitorais. “Vai depender de como esse debate vai acabar acontecendo. Mas, provavelmente nós vamos ver pessoas que já estão radicalizadas, no sentido de ser contra o governo atual, continuar sendo contra e acabou, não importa o que se discuta, e do outro lado a mesma coisa”. E complementa, “isso tudo também depende de como as pessoas estão percebendo a origem dessa culpa. Se ela identifica que é uma falha do governo, é um prejuízo, evidentemente, para o governo do momento”, exemplifica.
Paulo Adani avalia que, apesar da preocupação da população, o impacto financeiro dessa crise não deve atingir a maior parte dos brasileiros. “A gente conhece bem os cinco maiores bancos: Banco do Brasil, Caixa Econômica, Santander, Itaú e Bradesco, que é onde ocorre o sistema brasileiro de pagamentos. Quase 80% dos pagamentos feitos por famílias e empresas são feitos nesses bancos”, explica.
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LINHA DO TEMPO

Em 2019, Daniel Vorcaro adquiriu um banco, até então falido, que se chamava “Banco Máxima”. Junto a parceiros, Vorcaro fez o aporte mínimo para adquirir o Banco. O empresário conseguiu a autorização para virar banqueiro e, após dois anos, em 2021, mudou o nome da instituição para “Banco Master”.
A proposta do banco era atrativa para investidores e agressiva no mercado. Em 2023, o Banco Master já demonstrava riscos e as atividades da instituição eram observadas pelo Banco Central. Em uma tentativa de venda do Master ao Banco de Brasília, em um sistema de operações irregulares e bilionárias, Vorcaro foi descoberto.
Em investigações da Polícia Federal, novas provas surgiram, encontradas no celular do banqueiro. Conversas entre Daniel e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, revelaram uma estrutura de ameaças e intimidações por parte de Vorcaro. Entretanto, Sicário não era o único “funcionário” de Daniel Vorcaro, mas sim o integrante de uma organização criminosa chamada de “A Turma“, que era coordenada pelo banqueiro e tinha como intenção a realização de atividades fraudulentas, corrupção, ocultação de patrimônio e intimidação.

Após a instauração do Plano Real, em 1994, alguns bancos no Brasil foram liquidados, devido à maneira em que operavam, assim como o Banco Nacional e o Banco Econômico. Segundo o professor de economia e finanças, Fabrício Pessato, diferentemente dos casos dos anos 1990, dessa vez, o que acarretou na liquidez foi um esquema de pirâmide arquitetado pelo Banco Master.
Por se tratar de uma investigação complexa, que envolve muitos suspeitos e entidades econômicas, a cada dia o escândalo ganha novos desdobramentos. Na manhã do dia 13 de março, a Segunda Turma do STF formou maioria na manutenção da prisão de Daniel Vorcaro, com votos dos ministros André Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques. Com a decisão, os réus continuam presos, servidores do Banco Central continuam afastados, usando tornozeleira eletrônica, e empresas que teriam ligação com o esquema criminoso mantêm as atividades suspensas. Já nos bastidores, advogados e ministros reconhecem que há uma forte pressão política envolvendo o caso.
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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana

