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ENTREVISTA – Afonso Oliveira e o Maracatu Rural

Exposição que viaja pelo Brasil apresenta documentos, vídeos, fotografias, indumentárias e artesanato

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Afonso Oliveira atua junto a comunidades da Zona da Mata pernambucana (Foto: Divulgação)

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Por Lara Nave

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O produtor cultural Afonso Oliveira, conhecido por sua atuação junto a comunidades da Zona da Mata pernambucana, apresenta a exposição Maracatu Rural – A Magia dos Canaviais. Fruto de mais de uma década de vivências com o maracatu e os trabalhadores da cana, a mostra propõe uma imersão profunda na cultura popular brasileira. Ao trazer para o centro das atenções uma manifestação historicamente marginalizada, a exposição revela não só a potência estética e simbólica do maracatu, mas também escancara as raízes racistas que ainda moldam a forma como a cultura do povo trabalhador é tratada no país.

Afonso define o maracatu como “a obra onde passaram ali mãos calejadas, que trabalham com o maracatu durante o ano todo, para três dias de carnaval. Eles saem da sede deles com três ônibus e dois caminhões. Depois eles saem, vão para uma cidade, todo mundo se troca, fica numa fila cheia de maracatu, chega a hora deles e eles dão de tudo. Toda a energia está ali. Dançam, dançam. Aí acaba, bota tudo em cima do ônibus. Aí anda mais 20 quilômetros, outra cidade. É uma loucura”. Acompanhe a entrevista com Afonso Oliveira:

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Como nasceu a ideia da exposição? 
Ela é como todo o trabalho que eu realizo, surge muito da minha vivência como pernambucano. É fruto da minha vivência dentro da cultura popular, já estou trabalhando com isso há uns 30 e poucos anos.

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Como se tornou um produtor cultural?

Hoje eu sou professor de produção cultural, mas me tornei produtor cultural da forma que a maioria das pessoas se tornam: fazendo. Só que a produção cultural brasileira foi construída para promover a cultura da classe dominante, não a cultura do Brasil. Veja, nós temos nos teatros antigos um formato de construção feita para receber a arte vinda da Europa. Depois também temos a influência dos Estados Unidos, que a gente vê as arenas, os grandes palcos com grandes iluminações, os circos… Então, eu, como nasci numa família muito humilde, humilde do ponto de vista financeiro, foi justamente por esse entendimento, que eu cheguei onde estou hoje. Nos lugares que eu fui morar, eu comecei a formar produtores culturais, desenvolvi uma metodologia chamada método canavial, que contribuiu para a formação de mais de 120 produtores culturais lá em Pernambuco. O método canavial é um capítulo à parte, a metodologia. Onde a produção cultural é Brasileira mesmo!

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“Para mudar a educação por dentro precisa de mudança na pedagogia, mudança de pensamento, uma educação não capitalista. O Brasil adota uma educação para o trabalho, não é uma educação para a humanização”

Afonso Oliveira

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Acredita que o maracatu ainda sofre preconceito ou invisibilidade cultural?

Sempre que falamos de cultura popular, que surge a partir dos povos originários e dos povos que vêm de África, a gente tem que falar no racismo. O racismo surge ao colocar quem está na classe dominante como superior. Então, durante muito tempo, a gente ouviu falar como da cultura erudita, a clássica. Quando você vê as formas de arte –misturam muito cultura com arte – elas sempre são inspiradas nas culturas e nas artes tradicionais. No Brasil, a cultura popular, foi denominada folclore, onde nada tem dono, onde não existe autor, é tudo muito homogeneizado. Tudo que não é produzido pela classe dominante, é folclore. Então, é a cultura do povo, “do meu povo” como os coronéis e políticos dizem, como se ele não fosse povo e ali fosse uma coisa distante. Eles mantêm essa distância. Então, a gente pode tranquilamente dizer que essa perseguição política, cultural, racista, ela se mantém muito forte. não é preconceito, é racismo mesmo.

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Como mudar isso?

Só do ponto de vista educacional. Não tem outra forma de luta contra esses processos se não for a partir da educação. Só que, para a gente viver esse processo revolucionário na educação, A gente precisa mudar a educação por dentro. Porque muito se diz que o Brasil não têm acesso à educação, mas a gente sabe que os maiores ladrões, as pessoas às vezes mais racistas , estudaram nas melhores escolas, nas melhores universidades. Então o problema não é só a falta de acesso à educação, é a educaçáo em si. É preciso mudar a educação por dentro. E para mudar a educação por dentro precisa de mudança na pedagogia, de mudança de pensamento, uma educação não capitalista. O Brasil adota uma educação para o trabalho, não é uma educação para a humanização. A gente precisa ter uma educação mais humanitária.  Eu lembro lá no começo, quando eu comecei a fazer produção, diziam para mim: “Afonso, quem trabalha com produção de pobre, fica pobre!” Aí eu disse: mas eu já estou nessa mesmo.

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Parte da exposição ‘Maracatu Rural’ que passou por Campinas (Fotos: Lara Nave)

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Qual a relação do maracatu com o carnaval?

Existe o conceito de sincretismo, que são as junções das religiões de matriz africana, de matriz indígena, com as religiões cristãs. Na maioria das leituras, parece que o sincretismo foi uma coisa pacífica, mas ele foi uma imposição. Com o cristianismo, vieram as festividades, as manifestações culturais que celebram a história dos santos e dos padroeiros. Essa devoção aos santos surge de maneira estratégica, pois é onde surge a mudança dos orixás de matriz africana. Então, Ogum é São Jorge, Oxum é Nossa Senhora da Conceição, Iemanjá é Nossa Senhora da Conceição. Uma das festividades que acontece é o carnaval, onde entra o maracatu. O maracatu começa com o caboclo de lança, uma figura indígena que depois se junta com outros caboclos de lança. Nisso, surge a festa dos caboclos, que incorpora músicos da região pernambucana, como as bandas de frevo. O nome maracatu foi dado pela classe dominante. Quando os caboclos decidem ir para Recife se apresentar, a Federação Carnavalesca exige que eles coloquem rei, rainha, príncipe, princesa e dama do passo de Portugal, enquanto faziam a coroação dos reis de África. O carnaval também incluía manifestações da elite, como o corso e os bailes. Mas existiam as manifestações dos trabalhadores, que com o tempo foram chegando até os centros, saindo da periferia. E é assim que aparece o frevo, o maracatu, o samba. Mas tudo isso, muitas vezes, precisa ser embranquecido. O samba tem Tom Jobim, Chico Buarque, Vinícius de Moraes. Só com essas pessoas é que ele ganha destaque.

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Qual a importância de mostrar essa exposição para o mundo?

A gente só consegue produzir a nossa própria cultura se a gente tiver os meios de produção dessa cultura na mão. Então, não dá para a gente ficar esperando que uma pessoa venha e produza uma exposição da gente. Não vai. A gente tem que ter nossa exposição, ocupar esses espaços. Esses espaços que normalmente só se ocuparia por uma cultura que não é a cultura popular. Já fizeram sugestões a mim, várias, não me interessa. Porque esses espaços nobres, galerias, quase não se aparecia a cultura popular. Tem pessoas que não vai na rua, né? Só vai no teatro, pega o carro, desce no fundo do teatro, entra, assiste Lou Borges ou Caetano Veloso, volta, entra no carro e vai para o carro de novo. Não vai sair e vai num sítio, não vai. De jeito nenhum. Não vai. Não sabe o que está perdendo. É maravilhoso.

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Qual foi a principal ideia ou emoção que você quis passar com essa exposição? O trabalho do maracatu é um trabalho muito sensorial, né?

Normalmente, quando você vê, tudo aquilo gera uma sensibilidade. Então, é muito simples, a gente quis mostrar a coisa do jeito que ela é, porque a estética é deles. Quis passar a coisa mais próxima de como eles vivem, tentar fazer essa coisa estática com movimento. As cores ajudam muito a criar esse movimento. Você vai num museu, você passa 10 minutos na frente de uma obra, né? Então eu queria tirar essa coisa estática, sabe? Eu disse, isso aí vai acontecer naturalmente com as cores. Porque você está olhando aqui para uma foto, e é tanto colorido ao redor que não tem como sua visão ficar só ali. Aí você vai se acostumando, você vai uma vez, volta. “Não, mas naquela hora eu não olhei direitinho” Os textos têm que ser curtos porque é muito colorido ao redor. Então você lê um texto, aí você visualiza uma foto.

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“O maracatu rural é uma forma de você entender a formação do povo brasileiro. Ele consegue contar a história toda. O maracatu rural, ele é uma síntese da formação do povo brasileiro”

Afonso Oliveira

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De onde você acha que vem a força dessa exposição?  

É porque a gente tá mexendo com o sagrado. Então as coisas lhe tocam num lugar que, às vezes, você não tá acostumada a sentir, a ser provocado naquele lugar, naquela ancestralidade. A gente se depara com a obra onde passaram ali mãos calejadas, que trabalham com o maracatu todo dia, durante o ano todo, para três dias de carnaval. Eles saem da sede deles com três ônibus e dois caminhões. Depois que eles saem dali, vão para uma cidade, todo mundo se troca, fica numa fila cheia de maracatu, chega a hora deles e eles dão de tudo. Toda a energia está ali. Dançam, dançam, dançam, dançam. Aí acaba, bota tudo em cima do onibus. Aí anda mais 20 quilômetros, outra cidade. É uma loucura. Só que isso é a vida deles. Então aí tem muita energia, sabe? Rodando. Por isso que antes eles vão. para os rituais de jurema, onde os mestres vão abençoar eles, vão proteger eles durante o carnaval. Existe muita fé. É uma luta.

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Eles vão para outros estados ali do Nordeste?

Só existe maracatu rural em Pernambuco. E poucos na cidade do Recife. A maioria está na zona canaveira. Chama-se zona da mata, lá tem 19 cidades. E a região metropolitana tem mais uma quantidade de cidades. E eles saem desfilando, se apresentando nessas cidades. No Recife tem um concurso. É um negócio alucinante. Quem vai, pira! Tem rock and roll, tem samba, tem hardcore, tem pociranda, maracatu, MPB, é uma loucura.

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Destaque um momento inesquecível com o maracatu?

Rapaz, tem muito, né? Olha, eu posso lhe dizer dois. O primeiro foi no Festival Canavial, em 2007 no sítio Chão de Camará, que é a zona rural lá de Aliança. Aliança já é o interior, é a zona rural de Aliança. E nós levamos a velha guarda da Mangueira para lá. E eu vi o Sr. José Lourenço, o dono do Maracatu, assinando o cheque para pagar a Velha Guarda da Mangueira. Aquilo ali foi marcante. Porque, primeiro, com a Velha Guarda da Mangueira, eu disse a eles: “Olha, vocês vão fazer o maior show da vida de vocês, vão para o meio da cana”. O festival canavial, É um sítio ao redor, tudo é plantação de cana, chão de terra. Aí, quando eles foram, eu disse, “Zé, tu imaginava que um dia tu ia pagar um cachê a um grupo de samba como a Mangueira?” E o outro momento de grande importância foi quando nós fomos para o Rio de Janeiro receber das mãos de Lula o Auro do Mérito Cultural, lá no Teatro Municipal do Rio. Agora tem vários, né? Eles na Torre Eiffel, eles quando Duda — o grande mestre do maracatu — faleceu, o filme com o Jorge Malta… Tem muitos!

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Exposição revela a potência simbólica do maracatu e escancara as raízes racistas (Fotos: Lara Nave)

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Qual é o papel do maracatu rural na identidade cultural do Brasil?

Explicar. Explicar o Brasil. A formação do Brasil está dentro do maracatu rural. Ele explica. Ele tem o rei, a rainha. ele tem um povo indígena, ele tem um povo africano, ele tem a religião, ele tem o artesanato, ele tem a dança, ele tem a música, ele tem a questão do racismo. O maracatu rural é uma forma de você entender a formação do povo brasileiro. Ele consegue contar a história toda. O maracatu rural, ele é uma síntese da formação do povo brasileiro.

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Na sua opinião, houve alguma motivação dos nordestinos para a produção do maracatu?

Todo trabalhador produz arte. Nas manifestações de época, surgem as cantigas. São músicas que surgem no corpo do trabalho. “Terras de festas, corpos de lutas” , isso é um lugar, o Brasil, é um lugar com essas contradições. Então você está ali trabalhando o tempo todo, vamos fazer o quê? São João vem aí. A gente vai fazer o quê? A gente não sabe fazer quadrilha. Quadrilha não vem da gente. Então a gente vai fazer o coco, a gente vai fazer a ciranda. E no Natal a gente vai fazer o quê? Ah, vamos inventar um teatro! Contando o que? Contando a história da gente. É isso que motiva a diversão, a religião, o trabalho. É o que motiva eles. E eles preservaram isso durante vários anos, eles ficam felizes com isso. Essa felicidade é boa. Porque a felicidade do povo trabalhador é a felicidade mais honesta que existe. É a felicidade que vem das entranhas. Não é uma felicidade artificial. Não é uma felicidade fake. Não é felicidade de rede social. É uma felicidade real, porque é ou é ou não é. Sem filtro, sem freio, sem nada.

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Você escreveu “tradução é tradição” me explica?

todo mundo fica tentando traduzir. O que é isso? O que é aquilo? É uma tradição deles.  A melhor tradução de todo esse movimento que eles fazem é a tradição de cada um ali. É o que é. Sem tradição não tem ciência.

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Maracatu em três palavras?

Coisa de louco.

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Orientação e edição: Adauto Molck

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