A moda consciente que desacelera o guarda-roupa

Você sabia que por trás de cada roupa há uma história? Conheça o Slow Fashion


Você, que está aí do outro lado, já se perguntou de onde vêm as peças do seu guarda-roupa? Dando continuidade à série “SLOW“, que trouxe na última terça-feira (6) uma reportagem sobre Slow Food, a pauta de hoje está ligada ao universo da moda.

Até onde vai a sua responsabilidade social? E a com o meio ambiente? É importante saber que cada roupa que você compra passou por uma linha de produção em fábricas, com etapas que vão desde a mistura dos materiais utilizados para criar e produzir o tecido à mão de obra responsável pelo trabalho. Essa preocupação e consciência são características de um estilo de vida – e tendência – que vem pipocando no mercado da moda chamado de Slow Fashion.

A consultora de moda Renata Bruni, de 28 anos, em entrevista ao Digitais, definiu o Slow Fashion como um “movimento sustentável”. Para a profissional, a tendência já pegou e deve fazer cada vez mais parte da rotina dos jovens, que estão mais preocupados com o meio ambiente.

“O Slow Fashion defende a criação de peças atemporais, trabalhos manuais com processos artesanais e que envolvem comércio justo, evitando assim o vestuário produzido em massa, o consumo desenfreado, a poluição e a mão de obra duvidosa. As empresas estão cada vez mais adeptas ao slow, produzindo em pequenas escalas, reciclando os retalhos e sobras da produção. Também são práticas comprar de brechós, bazares ou até sites de trocas, preferir peças de qualidade que irão durar mais tempo e deixar as tendências um pouco de lado”, explica.

Renata também afirma que os brechós são lugares propícios para garimpar peças que fazem parte dessa tendência, já que há uma reciclagem das roupas, que podem fazer parte de diferentes guarda-roupas. Além disso, outra característica e também segredo para seguir o Slow Fashion está na compra de roupas neutras, que permitem montar diversas combinações com as mesmas peças.

“As roupas são confeccionadas em tecidos de alta qualidade, em modelagens e cores mais neutras para que se tornem peças que se encaixem nos mais diversos estilos, que possam ser usadas ao longo das estações. Outro consumo que se destaca no Slow Fashion é o de peças usadas. Os brechós estão recheados de estilo e com roupas que já duraram uma vida, e que tem muito ainda pela frente.”

Também consultora de moda, Karine Rodrigues, de 24 anos, afirma que o Slow Fashion é uma das muitas válvulas de escape que as pessoas criaram para fugir da vida acelerada capitalista. Segundo Karine, os jovens de hoje estão mais preocupados com o mundo em que vivem e em qual mundo irão viver os seus filhos. Por isso, a conscientização perante ao consumo está se tornando cada vez maior.

“Essa questão de que tudo está acontecendo muito rápido, inclusive a moda, interfere bastante. As pessoas estão procurando algo de mais qualidade, personalizado, vindo como contraponto ao Fast Fashion. Agora temos essa onda do ‘see now, buy now’ [tendência utilizada em desfiles de moda, que permite que as pessoas comprem as peças vistas na passarela minutos depois], mas eu acredito que no Brasil isso não vai dar certo, porque as roupas exigem um tempo de fabricação, se acontece muito rápido, acaba dando algo errado. As pessoas vêm com o Slow Fashion para dar um tempo dessa correria do dia a dia, que nos persegue em tudo”, afirma.

Mais que uma tendência e um estilo de vida, o Slow Fashion torna-se um desafio para as marcas, que, para se encaixarem no gosto das novas gerações, precisam adaptar seu modo de produção, bem como a mão de obra utilizada, em muitos casos escrava. Ainda segundo Karine, reinventar-se hoje no mercado requer grande esforço e criatividade, já que criar peças politicamente corretas e bonitas e ainda faturar com isso é bastante desafiador.

“O fast fashion está saturado, o que a gente encontra de peças de roupas e opções é absurdo. Hoje, para uma marca se consolidar no mercado com coisas atemporais e versáteis é muito difícil, porque tudo vem da China. Tem que ter muita personalidade para ter esse diferencial e criar uma marca desse jeito, porque a mão de obra acaba sendo mais cara, o tempo de produção dessa peça demora mais, então você ganha dinheiro muito rápido por um período, mas depois fica sem ganhar dinheiro por um tempo também”, explica.

Além das marcas, o desafio é grande também para os estilistas. Questionada pela equipe do Digitais, Karine conta que dois dos grandes estilistas brasileiros – Glória Coelho e Ronaldo Fraga – não participaram do São Paulo Fashion Week 2017, que teve sua primeira edição do ano em março. Isso devido à política do “see now, buy now“, que fez com que alguns profissionais tradicionais não quisessem submeter suas criações à peças feitas de forma muito rápida, o que indica, em muitos casos, peças sem qualidade.

“São estilistas que tem referência em qualidade no mercado da moda e não entraram na edição deste ano do SPFW devido à política que foi adotada, a do ‘see now, buy now’. Eles não iam ter tempo de produzir suas coleções com a qualidade que carregam e sempre carregaram para serem vendidas ali, logo em seguida. Acho que marcas antigas, estilistas renomados, que têm peças de maior qualidade, não querem entrar nesse jogo. Lá fora, as pessoas já estão percebendo que o ‘see now, buy now’ não dá tão certo, pois as peças acabam ficando sem qualidade e a mão de obra muito acelerada. O Slow Fashion vem na direção contrária para desafiar os profissionais do ramo, além das pessoas, ao tentarem adotar esse novo estilo de vida”, conclui.

Fashion Revolution
Essa preocupação social que ronda os jovens deu início ao movimento “Fashion Revolution“, que circula pelo mundo todo, inclusive no Brasil, e faz a seguinte pergunta: “de onde vem a minha roupa?”. Tendo como questão principal a valorização do meio ambiente, o movimento busca criar nas pessoas a conscientização do ato de olharem suas etiquetas e saberem exatamente de onde vem as peças que estão vestindo.

 “Acreditamos em uma indústria da moda que valoriza as pessoas, o meio ambiente, a criatividade e o lucro na mesma medida” – Fashion Revolution
Dica de amigo(a)
Paralela a esta ideia, o aplicativo Moda Livre surgiu como forma de avaliar e fiscalizar o envolvimento das grifes no trabalho escravo. O objetivo principal é informar os consumidores sobre a reputação das empresas em relação à mão de obra. Basta escanear a etiqueta de uma roupa e você será direcionado aos detalhes daquela produção. Se interessou? Clique aqui para baixar em iOS e aqui para baixar em Android.

Fique por dentro
Para aqueles que desejam mudar seus hábitos e tornar o consumo mais consciente, a consultora de moda Karine Rodrigues dá TOP3 dicas para dar início a esse novo lifestyle e criar uma responsabilidade maior na hora das compras, tornando o seu passeio no shopping muito mais consciente.

 

Por Ana Luísa Tomba e Júlia Groppo

Editado por Gustavo Magnusson


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