Digitais

Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Cultura de prevenção é melhor opção para reduzir acidentes de trabalho

Engenheiro Raul Batista explica porque essas ocorrências viram tragédias, mesmo com regulamentações mais severas

Por Bizinoto Batista

Recentemente, foi celebrado o Abril Verde, campanha nacional de conscientização sobre segurança e saúde no trabalho, com o objetivo de reduzir acidentes e doenças ocupacionais. Em um cenário no qual o Brasil registrou mais de 720 mil episódios desse gênero em 2024, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, o problema permanece relevante devido aos altos índices nos últimos anos.

Para essa discussão, a conversa foi com Raul de Alcântara Batista, engenheiro mecânico e especialista em segurança do trabalho da Tivea Geradores, graduado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pós-graduado em Especialização em Gestão e Estratégia de Empresas pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Na entrevista, ele explica como deve haver uma cultura de prevenção, para que só assim os acidentes diminuam.

Qual a importância da Segurança no Trabalho nas empresas?
Bom, a Segurança do Trabalho é fundamental para as empresas porque ela previne os acidentes e, de certa forma, preserva a integridade física e mental dos colaboradores. Além de, também, ser um fator de mitigação de custos, porque qualquer ocorrência, qualquer serviço, além da questão principal, que é a questão da integridade física do funcionário, tem todo um ônus que cai sobre a empresa no caso de alguma negligência, no caso de não atender as exigências das regulamentações das NRs  (Normas Regulamentadoras).

Quais setores mais precisam investir nessa área?
Eu acho que em todos os setores deve existir esse investimento. A gente pode ter uma ocorrência de acidente de trabalho em um escritório. Então essa mentalidade focada na segurança e na integridade física dos colaboradores, dos colegas, é fundamental. Inclusive, agora, a gente foca muito no fator psicossocial, que é a questão de saúde mental. Então isso difere entre ser um ambiente mais ou menos agressivo para um acidente físico, digamos assim, de um ambiente tóxico de trabalho. Nisso, todos os setores e áreas devem investir. Agora, é óbvio, que temos setores chamados níveis 4, como siderurgia, hospital, mineração que merecem uma atenção especial porque os riscos envolvidos são maiores. Aí precisa de investimento e de uma cultura de segurança muito forte.

Na prática, empresas tratam segurança como investimento ou custo?
Depende muito do caráter da empresa, mas com certeza todas elas devem tratar como investimento. Olhando sob uma perspectiva financeira, a empresa que investe na questão da segurança do trabalho previne uma série de riscos, uma série de situações que ela pode realmente se desprender de gastos. E, hoje, eu vejo pelo lado principal, é a questão da produtividade. O colaborador, estando em um ambiente onde existe uma segurança ativa, onde existe uma cultura disseminada de segurança, a produtividade dele é maior. A satisfação dele é maior, a família dele está mais tranquila em relação ao trabalho dele, então isso tudo vai refletir não somente no ambiente de trabalho mas na produtividade do funcionário. Com certeza, uma empresa séria trata os gastos dessa prevenção como um investimento.

Onde estão as principais falhas na aplicação das normas?
Eu poderia listar algumas falhas que são relevantes. O despreparo, a falta de treinamento dos trabalhadores, a ausência de EPIs (Equipamento de Proteção Individual) adequados, a falta de proteção de maquinário –um fator muito relevante–, fadiga por longos períodos de trabalho, excesso de hora extra. Enfim, são cenários bem propícios de um acidente acontecer. Os ambientes, sejam eles quaisquer, podem oferecer esses riscos, mas essas falhas acontecem justamente na ausência da disseminação de uma cultura de segurança.

O engenheiro Raul de Alcântara Batista explicou como diminuir os acidentes nas empresas (Fotos: Raquel Bizinoto)

Como uma empresa pode reduzir acidentes no ambiente laboral?
É lógico que ela pode reduzir acidentes fazendo investimentos em maquinário, na parte de proteção, em maquinários mais modernos, em processos mais seguros, em controles mais adequados. Mas, fundamentalmente, o que pode melhorar sensivelmente a questão é a parte cultural. Um ambiente onde tem e se propaga e dissemina a cultura de segurança, onde tem os diálogos diários, onde chama o colaborador para discutir os assuntos envolvendo segurança, onde envolve a família desse trabalhador. Realmente, a parte cultural, a parte de formação, no sentido de entendimento do quão é importante essa parte de segurança, é fundamental e isso, inclusive, qualifica, o colaborador de uma forma muito melhor, não só para dentro da empresa mas para fora dela. As pessoas que têm essa consciência de segurança usam isso para a vida delas, elas enxergam os ambientes com outro olhar. Então isso que eu acho que é o principal em relação a qualquer outra atividade. Não adianta você ter um ambiente o mais seguro possível com as pessoas sem noção de risco, sem nenhuma preparação no sentido da relevância e importância da segurança do trabalho.

O comportamento dos funcionários influencia nos riscos?
Sem dúvida alguma. Com certeza, o comportamento é um fator crucial para um ambiente seguro. Um conceito que a gente dissemina muito é o conceito de risco e perigo. Fazendo uma metáfora, uma analogia: imagina um animal selvagem. O animal selvagem eu sei que, se chegar próximo dele, posso ser atacado. Então o animal selvagem é um perigo. Agora, se o animal selvagem estiver em uma jaula e eu a cem metros dele, o risco desse animal selvagem me atacar é praticamente zero. É isso que acontece. Dentro de um ambiente laboral, você tem vários perigos. A gente tem que ter essa capacidade de identificar esses perigos e trabalhar para que esses riscos sejam mitigados o mínimo possível, para que não aconteça esse acidente. Nesse caso, fazendo essa metáfora, o animal selvagem tem que estar isolado em uma área que você não tenha acesso, justamente para evitar qualquer risco. Isso vai muito do comportamento do funcionário. Mas, para se ter esse comportamento, tem que ter a parte de cultura da empresa desenvolvendo isso no dia a dia, treinando, capacitando e formando essa noção de segurança.

Por que acidentes de trabalho continuam acontecendo mesmo com tantas normas?
Acho que de forma geral não tratar a segurança do trabalho como prioridade. Às vezes as pessoas priorizam a produção, a entrega, o faturamento e, na realidade, tem que partir de um pressuposto ou de um princípio que, para fazer tudo isso, a gente tem que estar em um local seguro. A prioridade deveria ser a segurança acima de tudo, e as consequências desse ambiente que você valoriza vai se tornar muito mais produtivo, fazendo as coisas com a qualidade muito melhor e com as entregas muito melhores. Isso já é provado, um lugar seguro proporciona isso. A não-priorização dos temas de segurança pela empresa pode ser o fator preponderante para que aconteçam acidentes.

Existe mais problema estrutural ou comportamental?
Existem os dois problemas. Existem os problemas estruturais, o investimento tem que ser feito na parte estrutural das organizações para melhorar esses controles de riscos. A gente precisa ter um controle melhor em relação a algumas atividades de trabalho em altura, de elevação de carga, de espaço confinado, enfim. Precisa de instrumentos e ferramentas, de equipamentos para uma melhor estrutura na execução do trabalho, mas a parte comportamental é decisiva. Porque o que identifica o risco, o que faz com o que a gente promova e faça essas melhorias é muito comportamento, que é disseminado. Comportamento seguro. Tem uma ferramenta que existe nas empresas que cultuam a segurança como prioridade que é a ferramenta de direito de recusa. Então, se o colaborador identificar que existe algum risco na atividade que ele vai desempenhar, ele pode recusar a tarefa e explicar por que ele não vai fazer a tarefa. Enquanto não resolver aquele problema, e se sente inseguro para executar, a tarefa não será executada. Isso mostra uma autoridade do comportamento, só conseguida através de treinamento, de mudanças de percepção.

O que precisa mudar para reduzir acidentes de forma real?
Cultura de prevenção. Essa cultura de prevenção tem que vir da direção da empresa. É muito difícil você fazer uma sensibilização de baixo para cima, isso tem que ser valor das pessoas que estão direcionando a empresa. De quem decide. Por quê? Porque envolve investimento, envolve tempo, envolve treinamento. Tudo isso, se não é dinheiro, é disponibilidade de pessoas e tempo que alguém precisa assumir. Basicamente, tem que ter uma vontade real de quem são as pessoas que comandam a empresa de entendimento que isso é valor, que isso é prioridade e que isso vai trazer benefícios para empresa não só em função de você não ter acidente e ter um ambiente seguro, mas também pelo fato de que você vai aumentar a sua produtividade. Atualmente, a NR-01 está sendo revista. Vai ter um período de adequação da NR-01, que seriam fatores psicossociais. Isso é justamente para levar em consideração a parte de saúde mental do colaborador. Ambientes estressantes, que você não tem segurança, ambientes em que você faz muita hora extra, ambientes tóxicos onde muita cobrança de metas é forte, cobranças desiguais que não consegue cumprir. Enfim, situações que podem gerar transtornos e problemas para a saúde mental vão ser consideradas como um fator de risco de segurança. Porque é fato que, se o colaborador não estiver bem na parte mental, isso reflete no físico e reflete nas ações dele no dia a dia. Atenção, foco, isso pode ser comprometido e levar a um acidente. Então é fundamental e muito pertinente a parte psicossocial entrar dentro desse contexto das Normas Regulamentadoras justamente para que a gente possa considerar esse fator psicossocial como uma variável muito relevante na questão das ocorrências dos acidentes. E, consequentemente, fazer um plano de ação para mitigar as possíveis situações que podem levar um funcionário a ter um impacto na sua saúde mental e física.

Orientação e edição: Adauto Molck

.

.

.

.

.

.

.