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Sérgio Pacheco, árbitro na NBA, investe nos jovens

ENTREVISTAPolicial aposentado e ex-árbitro internacional de basquetebol, o campineiro Sérgio de Jesus Pacheco, enfrenta o desafio de tirar os jovens da marginalidade

Por Luis Gallo e Murilo Pascale

A trajetória de Sérgio de Jesus Pacheco é uma “colisão de mundos” que, olhando de fora, parecem completamente opostos. De um lado, a rigidez de 29 anos na Polícia Civil e 15 na Corregedoria, lidando com o desvio e o crime. Do outro, a disciplina do Taekwondo e a precisão técnica do basquete internacional, no qual atuou como árbitro em finais mundiais e conviveu com a elite da NBA no Madison Square Garden, em Nova York.

 

No entanto, o ponto que transformou o “policial linha dura” no “Mestre Sérgio” do projeto social Campinas Fighters não foi uma ocorrência nas ruas ou dentro de quadra, mas um diagnóstico médico em 2015: câncer de pâncreas. Mesmo com uma taxa de letalidade que chega aos 98%, Pacheco sobreviveu. Dessa sensação de “encarar a morte nos olhos” nasceu o que ele define como uma “dívida com Deus e com a sociedade”.

 

Hoje, na cidade de Campinas, em São Paulo, o projeto busca resgatar jovens em vulnerabilidade por meio do esporte. Mas Pacheco traz para o debate uma irregularidade: enquanto o consenso popular e político prega que “o esporte salva” e que o Estado é o único culpado pela exclusão, Sérgio aponta também para outro fator: a falência educacional e cultural desses jovens.

Para ele, o esporte é uma ferramenta poderosa, mas não mágica. Sem uma base de educação, o jovem permanece vulnerável ao “mundo cão”. Além disso, seu posicionamento sobre a preservação do espaço público também é direto: ao contrário de visões que vitimizam totalmente a população carente, Pacheco cobra responsabilidade, questionando por que a própria comunidade depreda os equipamentos instalados para atendê-la.

 

Nesta entrevista, feita em novembro de 2025, Sérgio Pacheco aborda o financiamento do esporte amador, os destinos inevitáveis do envolvimento dos jovens no crime e a necessidade de resgatar alguns valores de hierarquia e respeito.

Sérgio de Jesus Pacheco atuou como árbitro em finais mundiais e conviveu com a elite da NBA (Foto: Murilo Pascale)

 

Olhando para a realidade do dia a dia, como o senhor avalia o papel do recurso público: ele consegue de fato sustentar o projeto ou ainda deixa muitas lacunas que vocês precisam preencher por conta própria?

Analisando, no Brasil hoje, você fazer esporte é difícil, não é fácil, certo? Lógico, aqui nós somos contemplados porque nós temos uma parceria com a Secretaria de Esportes. Então nós usamos locações que são concedidas à nossa associação para a gente poder ministrar aulas. Tudo bem, as aulas são gratuitas para toda a população de Campinas? São gratuitas para a população de Campinas. Mas nós temos os locais, coisas que muitas das associações não têm. Então nós temos vários centros onde a gente pode ministrar e, com isso, captar pessoas em situações de vulnerabilidade social. E você está ofertando isso, tá? Que é uma coisa, que é um trabalho legal.

Agora, nesse outro contexto, nós temos emendas da Câmara de Vereadores, onde com as emendas nós conseguimos, através de licitações, comprar o material. Taekwondo é um esporte caro. Então, capacete, colete, protetores… nós conseguimos comprar com essas emendas. Através de outras emendas com uma outra rubrica, o que nós conseguimos? A locomoção para campeonatos. Nós temos uma equipe de competição grande, nós estamos aqui há oito anos. Nessa equipe de competição, nós temos campeões brasileiros, campeões paulistas, temos pessoas que estão na Seleção Brasileira e os campeonatos de nível de CBTKD, que é a oficial… e são longe, tá? Então, dentro do estado de São Paulo, nós conseguimos também usar essas emendas impositivas e transformá-las em locomoção para esses campeonatos.

Agora é lógico, o esporte é caro. Então, nós temos que ir atrás de empresas privadas, nós temos que ir atrás de patrocinadores para os atletas de ponta… o que nós precisamos lembrar é que: para a formação em si, nós temos o principal, que é essa parceria, nós temos o local… Tem o Instituto Biológico, um local formidável… E isso a gente consegue através de parcerias.

 

Em 2015, o senhor recebeu o diagnóstico de câncer de pâncreas, passou por cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Depois da cura, o senhor costuma dizer que assumiu um compromisso com Deus e uma dívida com a sociedade, que se materializaram nesse projeto social de taekwondo. Quando o senhor pensa em seguir em frente com ele, o que costuma falar mais alto: a responsabilidade de gestor, que olha para a sustentabilidade do projeto, ou esse compromisso pessoal de quem sente que recebeu uma segunda chance?

Olha, realmente, quando eu fui diagnosticado com câncer de pâncreas… é um câncer, 98, 99 por cento, conforme for, já é um caso terminal. E eu fiquei sabendo que ia passar por cirurgia, que era muito difícil. O tratamento pós-cirúrgico que eu fiz, que foi um ano de quimioterapia, 40 sessões de radioterapia, etc… realmente eu passei um perrengue. E eu conto, eu falo muito nas palestras que eu ministro, que eu tive um encontro. Lembro que Ayrton Senna falava que conversava com Deus. E eu tive um encontro com Ele, onde me foi dada essa missão. Eu tenho que retribuir porque Ele me deu uma segunda chance. Esse é um dos pontos, que eu acredito que para continuar sobrevivendo, e bem, eu tenho esse compromisso com essa missão.

Eu sou atleta desde os seis anos de idade. Eu joguei basquete, depois eu joguei basquete profissional. Depois eu virei árbitro internacional. Eu apitei seis campeonatos mundiais, duas finais do mundo, duas semifinais do mundo. E quando eu estava nos Estados Unidos… isso, Madison Square Garden, eu estava ali com o pessoal da NBA, quer dizer, estava na melhor fase da minha vida, assim, vamos dizer, a melhor fase mesmo, o glamour total… eu tive que fazer uma cirurgia, uma osteotomia no joelho, porque acabou a cartilagem. Então começa daí. Dois anos parado. Quando eu estava para voltar na Liga Sul-Americana Profissional, fui diagnosticado com esse câncer no pâncreas e sobrevivi… e hoje já fazem oito anos, estamos indo para nove anos.

Mas veja bem, o importante disso, que é o compromisso, não é só você gerir e continuar fazendo o projeto. Se você pega essa história, para um cara que teve lá em cima, lá em cima… Madison Square Garden, New York Knicks, Magic Johnson… e de repente eu estava lá embaixo. E aí eu recuperei do joelho e aí aconteceu o quê? Veio o câncer. Então, é muito em cima e embaixo, e isso faz a gente refletir o compromisso nosso com a sociedade. E nesse projeto social, por que não dá para largar? Que daqui a gente consiga… não estou dizendo só de atletas, como temos atletas que estão se profissionalizando, olha que bacana… Temos atletas que nós vamos usar para ministrar aulas. E temos pessoas. Porque o importante é você fazer pessoas.

Então, uma pessoa… um cara que foi daquele nível que eu fui, número 1, número 1 do mundo durante quanto tempo… hoje eu poder pegar uma criança, transformar uma criança… Crianças que olham para você, você vê o brilho. Crianças que quando te vê na televisão, vê o brilho. Então você poder ser uma referência e fazer desse um cidadão… cidadania… isso eu acho que não tem preço. E isso você consegue, lógico, estudo, educação… mas com o esporte. Que no esporte, ele aprende que não tem que ter racismo. Ele aprende que ele tem que estender a mão para ajudar esse, aquele. Ele aprende que ele tem que respeitar o sexo feminino. Porque ele convive com pessoas do sexo feminino e vê que não há diferença, e que são todas pessoas normais. E o que falta hoje para o ser humano? O que falta hoje para a sociedade? É fazer essa relação. E isso, dentro do projeto, a gente consegue fazer.  E mostrar que nós podemos transformar essas criaturas para fazerem um mundo melhor. Pessoas positivas, pessoas que pensam positivo. E detalhe: pessoas que estão com saúde. Então, quando que nós podemos parar o projeto? Nunca.

 

Sergio, você tem 29 anos de Polícia Civil e uma carreira na arbitragem internacional, lidando sempre com regras e limites. Hoje, no projeto social, você atende jovens que estão na “zona de risco”. Na prática, o tatame é um espaço onde o senhor tenta oferecer a esses jovens um outro caminho antes que eles se vejam envolvidos em situações de polícia?

Olha, tendo a experiência que eu tenho, com 30 anos de segurança pública, 15 anos numa corregedoria de polícia… Dentro, vamos falar do valor hierárquico dentro do esporte que a gente aprende a respeitar. O nível que eu fui como árbitro internacional, conheci todos os continentes através do esporte. E a gente vê a educação fora, extra-América. Por que… aí a sua pergunta, ela é pertinente. O que acontece quando o cidadão entra, seja no tatame de Taekwondo, seja de Aikido, seja de Judô… são artes marciais orientais. O oriental, ele tem muito poder hierárquico e muito poder de educação.

Então, o que que a gente consegue fazer aqui? Trazer a experiência de lições de vida e fazer com que o atleta saiba o que é treinar ao extremo. Que o atleta saiba cumprimentar um tatame, que é aquilo que está oferecendo segurança para ele treinar. Que ele saiba cumprimentar o seu colega, cumprimentar o mestre, cumprimentar o professor. Que ele saiba, quando falar alto, tomar uma bronca. Que ele saiba que quando ele vem com o pai, aqui não existe pai e mãe, por quê? Nós vamos educando, e que isso vai ser bom para ele, porque esse cooperativismo também com a educação vai ensiná-lo. Ele pode sair daqui e não ser um faixa preta, mas ele pode entrar numa multinacional e ter uma equipe de trabalho e ter um poder hierárquico, sendo um coordenador, sendo um líder. Por que o líder surge como? Imposto? Não. Mas aqueles que admiram, aqueles que entendem o que você fala e falam: “Sim, realmente ele tem razão”. “Poxa, eu me espelho nesse cara, esse cara tem um histórico de vida assim, etc e tal”.

Eu tenho uma parte da minha vida… esqueça essa parte da doença, da enfermidade. Mas eu nasci numa periferia. Minha mãe era uma empregada doméstica. E da casa onde ela trabalhava, minha mãe brigava muito, saiu, não deixaram me levar e me adotaram. Uma família que tinha condições. Meu pai era médico, minha mãe era jornalista do Correio Popular. E desde pequeno ela me fez o quê? Você vai fazer esporte. Você vai aprender inglês. Você vai aprender espanhol. Por quê? Cultura, esporte. Você vai aprender francês, você vai aprender a tocar piano, você vai aprender a tocar violão, você vai aprender o que é cultura, o que é arte. Foi cansativo? Foi. Só que hoje, me fez uma pessoa muito, e muito, muito melhor.

Então, é importante isso, a partir do momento que você entra no tatame, você tenha respeito. E hoje o que que falta no mundo? O que que falta com as pessoas? Não se tem mais respeito. Então você veja como é importante um pedaço de tatame e como é importante o esporte. E como é importante pessoas que sejam espelho. Pessoas que falem: “Você tem que defender os pobres, coitado; você não tem que ter racismo; você não pode… tem que defender as mulheres quando você vê alguém falando com as mulheres assim, etc e tal”. “E você tem que saber que você está treinando uma arte marcial e você não pode bater nos outros”. “Ah, se eu levar uma pancada?”. “Vira as costas, e vai embora”. Por quê? Você está treinado. Você é uma máquina. E ele tem que começar a entender isso. Valores… valores. Coisas que foram se perdendo com o tempo. E tudo isso você encontra onde? 80% é no esporte.

Quem treina atletas para competir em mundiais e grandes eventos consegue planejar um ciclo de longo prazo com um horizonte financeiro de apenas 24 meses? Que tipo de instabilidade isso gera dentro da Campinas Fighters?

Veja bem: atleta de rendimento… Primeiro que eu falo, que o rendimento, se você for tratar o rendimento como esporte? Não. Porque onde você tem repetições maciças, você faz do seu corpo uma máquina… vão aparecer as lesões, tudo isso. Então, realmente, você tem que ter um negócio muito coordenado. Muito coordenado a parte física, a parte mais técnica. Você consegue elaborar isso tudo para um trabalho durante o ano. Com um grande problema no Brasil: o calendário. E você consegue deixar o atleta no auge do pico, e quando ele começa a descender, tem um campeonato que era mais importante do que aquele. Então, é difícil você trabalhar. Então, o que você tem que fazer? Manter ele num linear… num linear, e vamos deixar o quê? “Ó, tem o US Open”. Como eu tenho dois atletas que foram para Nevada, no US Open. Eles vão ter que estar voando lá. “E o Paulista?”. “Vamos ter que ir levando”. “E o Brasileiro?”. “Não faz mal, eles vão para o US Open, esse é o top”. É difícil.

E outra coisa. Realmente, essa falta de recursos… que eu digo, temos e digo tudo, porque tem lugar que não tem nada. Só que eu não consigo ter um profissional só para fazer educação física, um profissional só para fazer massagem, só um fisioterapeuta. Nós temos o quê? Pessoas que se doam. Pessoas que são parceiras. Então, a gente tem que acordar com tudo isso, com o horário do cara, com a disponibilidade que ele tem para atender o seu atleta… Realmente, é muito difícil fazer alto rendimento. Você veja, o Taekwondo, agora esse ano, quantos campeões mundiais… dois campeões mundiais… medalhista, agora de novo hoje, ganhou outra medalha de ouro no Grand Prix lá em Bangkok. Ele veio da comunidade, ele veio de um projeto social. Só que é um cara que tá bem rodado e tá tendo um patrocínio maior. Mas poderia ter maior ainda? Sim, poderia ter muito maior.  Mas não é fácil.

Nós, através da nossa associação, estamos atrás de selo da criança e adolescente, um monte de coisa que facilite abrir as portas para que você consiga ter recursos, para que você consiga crescer mais e abranger… E pegar da formação. Só que a formação se espelha no rendimento: “Eu quero ser que nem aquele atleta”. E a gente tenta dar o subsídio. Só que o financeiro sempre é baixo, não é? É isso aí. Mas é difícil, você tem que fazer um projeto coordenado e pensando num calendário doido… um calendário maluco, entendeu? Você veja o Paulista da Fetesp, você tem 12 fases. 12 fases de Paulista. 12 viagens. 12 torneios para tentar classificar para o Brasileiro, para tentar classificar para Copa do Brasil, para tentar classificar para o Grand Slam. O Grand Slam no Rio é onde forma a Seleção Brasileira Oficial. Mas, nós estamos brigando. Faz parte, como eu falei, a missão. É isso aí.

 

Quando o senhor se depara com um jovem em conflito com a lei, o que vem primeiro à cabeça: “onde foi que ele errou?” ou “em que momento família, escola, Estado e sociedade falharam com ele”?

Olha… É uma coisa difícil, porque existem situações que nem o berço ajuda. Mas normalmente… Por que que eu falo tanto do esporte e da educação no esporte? Eu sempre falo nas palestras que a hora que chegar na bifurcação, ou direita ou esquerda, não é termos políticos, ou ele vai pra lá ou ele vem pra cá. Nesse viés, ele vai escolher um lado bom, porque ele fala: “Pô, aquele lado não é legal”. Droga mata. Fumo mata. Bebida não é legal. Meu mestre falava tanto que não precisava beber. Então, a gente tenta aprimorar o que ele devia receber em casa, que muitos não recebem. Ainda mais quando a gente fala de alto nível de vulnerabilidade social.

Vulnerabilidade social que eu tenho crianças que chegam com fome. E chegam lá… “Eu apanho”. “Você apanha por quê?”. “Eu apanho porque meu pai chega em casa e bate em mim, bate na minha mãe”. E eu sou uma pessoa irritada, era… Então, é diferente a maneira como nós vamos lidar com esse comportamento. Só que você imagina, ele não tem isso em casa. E você acha que em uma hora e meia a gente vai conseguir passar isso? Mas a gente pode mudar um pouquinho. É muito difícil. Agora, o que é que ele tem?

Aí eu falo, quantos pais eu como policial falava: “Seu filho vai se dar mal”. “Por quê?”. “Vão matar ele”. Eu falo assim: o caminho que ele está é inevitável. Ele vai morrer… E morre, senhor. Ou em combate com a polícia, ou é com os próprios meliantes que ele tá envolvido, ou não deu um acerto… É horrível. É um mundo cão. Ou vai preso. Quantos? 17… aí depois 18 anos… preso. E aí você fala assim: “Poxa, ele é vítima da sociedade”. Cara, a pessoa não precisa ter tanto recurso. O grande problema é o quê? A educação. O respeito pelo ser humano. A gente tenta passar, a gente faz aquilo que a gente pode. Mas quantas vezes você estende a mão e não leva uma facada pelas costas… Não é. Na consciência dele é aquilo. Ele só aprendeu aquilo. Nós vamos mudar o mundo? Não. Mas se cada um fizer um pouquinho… Já começa a clarear, não é?

Agora não adianta: “Não, deixa morrer, deixa não sei o quê”. Estende a mão, tenta entender o porquê. Quando a gente vê uns caras drogados no meio do trânsito, eu falo: “Cara, esse cara tá perturbado”. Aí: “Ele tá drogado”. “Porque ele tá com fome”… “Ele é vítima”. Não é que ele é vítima. A gente fala: “Pô, que situação”. Agora tem um Ser lá em cima que tá fazendo com que ele passe por isso. Como é que um cara desse vai ter evolução? Só Deus sabe. Mas, de repente, ele te usa como mecanismo. Vai lá. Dá um pão pra ele. Oferece alguma coisa. Troca uma palavra. E eu já tentei fazer isso. E dar um abraço. Simplesmente um abraço. O cara começou a chorar. “Pô, obrigado. Quanto tempo ninguém me abraça”. Então, as pessoas são carentes. São carentes de conforto. E é o máximo que a gente tenta passar. Mas eu acho que muita gente consegue mudar. Muito a gente consegue trazer, não é? E o mundo é cão. O mundo não é fácil. Você fala: “Você já passou por situações?”. Inúmeras. Graças a Deus que eu fui um cara bem educado, e aprendi… mas é difícil, não é fácil.

 

O senhor sente que, em algum nível, o poder público transfere para os projetos sociais a responsabilidade que ele próprio deveria assumir? Quando se diz “o esporte tira o jovem do crime”, quem o senhor acha que deveria ser o sujeito dessa frase: a Prefeitura ou o terceiro setor?

Sergio Pacheco: Eu acho que os dois. Lógico que a municipalidade, ela tem uma responsabilidade maior, ela é gestora, certo? Mas que nem, por exemplo, ela tá me dando condições de resgatar, trazer o jovem de vulnerabilidade e ministrar uma aula. “Ah, mas você é voluntário?”. Sim, sou voluntário. Sou voluntário e tenho vários voluntários. Mas de repente… eles estão dando uma chance que poderia não ter. Como eu conheço bem como é a parte política, realmente é muito difícil agradar gregos e troianos.

“Ah, o esporte pode salvar o mundo?”. Também. Aí a gente entra no rendimento e fala: “Ó, o cara… doping, isso, aquilo… maracutaia… cara vendendo jogo”. Ué, você não falou que o esporte resolve o problema? Educação. Esporte. Cooperação mútua. Mas eu acho que os dois alinhados podem sim ser uma referência. Mas eu sei que é muito difícil. Nós temos as próprias universidades… Pode arrumar um estágio, então, pra ele… Mas tem que ser uma coisa conjunta. Se não for uma coisa conjunta, todo mundo no mesmo ramo, não adianta.

 

Em janeiro deste ano, a própria Prefeitura divulgou que praças e clubes esportivos de Campinas, como o Clube Dr. Roberto Ângelo Barbosa, na Vila 31 de Março, sofreram atos de depredação e vandalismo. Ao mesmo tempo em que se fala em “esporte como política pública”, muitos desses espaços chegam ao público já danificados ou mal cuidados. Como policial e gestor de projeto social, como o senhor enxerga o papel do Estado quando os locais destinados ao esporte e à convivência não conseguem se manter preservados como deveriam?

Quando a entrevista começou, eu falei de um tópico de prioridade, além do esporte: Educação. Agora, se o ser não tem a devida educação e ele depreda uma coisa que vai fazer bem para ele e para a comunidade dele, fica difícil você recuperar o meio. Os nossos filósofos falavam: você tem que fazer a pesquisa de campo, você tem que ir para o campo para você sentir… O que que fez aquele alemão que foi lá para o Harlem, começou a fazer boxe, virou lá para entender porque que existiam tantos afrodescendentes fazendo boxe? Aí ele teve que ir para aquele habitat para entender.

O que que a gente consegue entender? Se a pessoa, aquela comunidade, vai lá, depreda aquilo… ele vai depredar aquilo que vai fazer um bem para a sociedade… falta o quê? Educação. O cara usa o transporte público. Aí ele vai lá, ele quebra o transporte público, ele arrebenta o negócio, o lugar que ele vai usar. Eu não sei… tenta acompanhar comigo. Ou chega aqui, nós temos tudo, eles têm tudo de graça… eles começam a rasgar o negócio, riscar o chão. Então o que que falta? O Brasil… O Estado, muitas vezes quando fala: “Ah, é omisso nisso, que não sei o quê”. Ele está tentando fazer a parte dele. “Vamos lá, vamos pôr a praça lá, vamos tentar fazer isso, vamos fazer isso aqui pra ajudar essa comunidade”. Aí os caras vão lá e quebram tudo. Aí o cara tem a capacidade de ir lá, furtar a torneira. Aí depois ele não tem como lavar a mão. “Não, não, entendo”. Aí ele vai lá e pega a pia.

Então o que que é? Eu que eu falo: o cara não é inteligente? Ele é inteligente pra muita coisa. Mas ele tem que entender que aquilo tá ali pra ajudar. E a gente pode dizer que é um descaso do Estado se ele tá pondo a coisa ali? Agora, isso é matriz. A população é carente de educação. Eu com a minha idade, estudei na época que a escola pública era muito melhor do que a escola particular. E aqueles, os nossos amigos, né, que a gente falava “os orelhas”, estudavam na escola particular pra passar de ano, e a escola pública era dificílima. Tinha inglês, espanhol na escola pública. Era quase integral lá já anos e anos e anos atrás. Agora o que que veio a acontecer com o aprendizado? E um povo que não tem cultura, que não tem educação, não vai ser só o esporte que vai mudar… o que eu falei: é um conjunto.

Eu estive na Sérvia, no mundial, até semifinal, foi Estados Unidos e Rússia, Sub-21. A Sérvia havia sido atacada durante 24 horas com aqueles Tomahawks dos Estados Unidos, o negócio… todo mundo achava que eu era gringo e me tratava mal. Depois quando falava que era brasileiro, aí abria os braços, tudo, sei lá… os caras estavam assim. Cara, então tem muita gente que ficou sem casa, sem dente e aquele negócio… “Give me a pill”… “Oh, what do you think?”. Ah, os caras falam tudo. Eu falei: “Ó o mendigo da Sérvia, o cara fala cinco, seis línguas”. Educado… você tá tentando entender? Realmente aí você olha e fala… os caras têm cultura.

Então o cara, ele fala: “Não…”. Uma vez no Canadá tinha “Stop and Go”. “Stop and Go”. E nós saímos da universidade, nós estávamos em Winnipeg, no Pan-Americano em Winnipeg. Todo dia o ônibus parava pra seguir. Aí os argentinos… vê os argentinos, cubanos, porque eu sempre fui o tradutor deles. “Mira, Pacheco, qué? Todo dia ele para, la concha… eu não entendo, tal”. Falei assim: “Pô, vou perguntar pro cara por que”. Ele falava assim: “Você sabe ler?”. Cara, não tinha ninguém na universidade, deserto. “Stop and Go”. Então ele fala: “Stop”. É stop. Olha pra lá, olha pra cá… “Go”. Você consegue entender o raciocínio? Tá mandando parar e ir. Não interessa se tem alguém ou não tem alguém. Ele tem que parar e ir.

Então, será que não falta pra gente educação? Essa é a minha opinião. Falta muito. Mas, vamos lá, vamos sobrevivendo.

 

Orientação e edição: Marcel Cheida

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