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‘A juventude deve estar onde as decisões são tomadas’

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ENTREVISTA Frase da Jovem Campeã Climática da COP30, Marcele Oliveira sobre justiça ambiental

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Marcele Oliveira articula redes de juventudes em todos os biomas do país (Foto: Arquivo Pessoal)

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Por Bianca Freitas

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Produtora cultural de formação e ativista por urgência, Marcele Oliveira nasceu e cresceu em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro, um território que sente na pele os impactos das mudanças climáticas e do racismo ambiental. Foi dessa vivência que ela começou a pesquisar justiça climática, participar de conferências e ocupar espaços que, historicamente, não estavam destinados às juventudes periféricas.

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Agora, aos 26 anos, Marcele integra a presidência da COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que foi sediada no Brasil em 2025. Como Jovem Campeã Climática, ela articula redes de juventudes em todos os biomas do país, garantindo que quem vive o problema de perto participe das soluções, da mobilização local à mesa global de decisão. Acompanhe a entrevista feita remotamente pelo Google Meet:

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O que significa para você ser reconhecida como a jovem campeã climática?
Esse papel não foi criado pelo Brasil, mas acordado entre os países a partir de uma articulação global das juventudes. A primeira pessoa a exercer essa função da forma como ela é hoje foi apenas no ano passado, ainda é algo muito recente, então não vejo como um reconhecimento individual, e sim como uma confiança no trabalho coletivo dos jovens. Precisamos que as juventudes não estejam só na mobilização, articulação e comunicação, mas também na mesa de decisão, na formulação política e técnica dos debates. É uma honra enorme, mas também uma grande responsabilidade.

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Quais são os principais desafios enfrentados pelos jovens que atuam nas pautas ambientais no Brasil?
A pauta ambiental e climática é ancestral. O que houve foi uma desconexão: criou-se a ideia de que desenvolvimento é mais shopping, mais estacionamento, mais concreto. Mas o mundo não precisa de mais concreto, precisa de formas de viver e conviver que sejam sustentáveis e que tenham raízes nos modos de vida de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, comunidades que sabem se relacionar com a natureza sem explorá-la. O desafio é recuperar essa memória para construir um futuro novo. Há uma responsabilidade geracional nas escolhas que fazemos hoje, diferentes das escolhas de quem se desconectou dos seus biomas e da sua ancestralidade.

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Marcele: ‘O equilíbrio está em perceber que não estamos sozinhos’ (Foto: Arquivo Pessoal)

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Que ações você tem desenvolvido para engajar os jovens na agenda climática?
Um dos grandes desafios é a invisibilidade do trabalho das juventudes, que muitas vezes está nos territórios, no nível local, como se isso não fosse essencial para a ação climática. Adaptação não é só assinar acordos, é também quem pega a enxada e limpa a rua depois da enchente. Nesse sentido, trabalhamos com o Mutirão das Juventudes, uma plataforma disponível em três línguas que conecta ações locais à agenda da COP30. Atuamos no combate ao negacionismo e em iniciativas de conscientização ambiental com crianças, adolescentes e jovens, reforçando que as decisões tomadas nas COPs impactam a vida de todo mundo. As juventudes já estão muito engajadas em diversas causas e quase todas passam pela questão ambiental: o ar que respiramos, a comida que comemos, a mobilidade, os acessos e oportunidades.

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O ativismo pode ser emocionalmente exaustivo. Como você equilibra militância e autocuidado?
Comecei por causa do meu território, pesquisando justiça climática e racismo ambiental, mostrando como as periferias do Brasil são impactadas. E, ao mesmo tempo, descobri um Brasil cheio de soluções, muitas delas vindas das juventudes, capazes de mitigar impactos climáticos. O equilíbrio está em perceber que não estamos sozinhos. Se é relevante para o meu bairro, também é para o mundo. Se cada um cuidasse do seu bioma com o mesmo carinho que todos cuidam da Amazônia, muita coisa já estaria resolvida. Essa luta nunca foi e nunca será individual. Compartilhar os desafios e as vitórias é fundamental para manter a saúde emocional.

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Como as redes sociais podem apoiar a mobilização ambiental?
As redes não estão do nosso lado, o algoritmo não favorece nosso conteúdo. Mas elas são ferramentas que precisam ser usadas, porque são usadas pela extrema-direita e por negacionistas que tentam desacreditar a COP30. É a única forma de falar com quem não está em Belém, com quem vive outras realidades. Por isso, enfrentamos o monopólio das plataformas enquanto usamos esses espaços para compartilhar informação correta, baseada em ciência, vinda das ativistas e de organizações que protegem a natureza.

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Você acredita que os jovens têm espaço real para influenciar decisões políticas sobre o clima?
Acredito que sim, mas exige organização. Precisamos alinhar nossos pedidos considerando nossa diversidade. Isso é desafiador, mas também é nossa força: temos, por exemplo, regiões pegando fogo agora, e o manejo tradicional do fogo no Pantanal pode ajudar a solucioná-las. A juventude faz essa ponte do local ao global. Mesmo que nosso lugar na mesa ainda não esteja totalmente garantido, precisamos ser vocais em diferentes frentes: como vereadores, deputados, diplomatas, lideranças comunitárias, estudantes. A mudança acontece quando muitos de nós falam, e quando falam a partir dos territórios.

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Como as pessoas leigas podem começar na causa ambiental?
Não existe falar da gente sem a gente. As juventudes são as mais impactadas pelas mudanças climáticas, junto com meninas, crianças e as gerações futuras. Então, não dá para deixar para amanhã e nem achar que é preciso saber tudo para começar. Cada um tem uma habilidade: falar, escrever, fotografar, criar conteúdo… tudo isso é ferramenta de luta. O importante é agir no tempo do seu território, sem esperar que esteja “tudo pronto”. A nossa responsabilidade é seguir construindo espaços de existência política, de humanidade e de cuidado com aquilo que é nosso.

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Orientação e edição: Adauto Molck

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