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Aplicativo reúne desconhecidos para jantar às escuras

Ninguém sabe quem serão suas companhias antes de chegar, e o local só é revelado 48h antes

 

Texto e Imagens: Nicole Heinrich

Quem vê Ali, Juliana e Bianca conversando, acredita que se tratam de amigos de longa data. A verdade é que todos se conheceram por um aplicativo que agenda jantares entre desconhecidos semanalmente. O TimeLeft foi criado em 2023 e chegou à Campinas em 2024. Nele, os usuários respondem a um teste de personalidade e um questionário curto e são arranjados em mesas por restaurantes da cidade para se conhecerem. Ninguém sabe quem serão suas companhias para o jantar antes de chegar, e o restaurante só é revelado 48h antes do evento.

O pesquisador Alireza Bigdeli foi o primeiro do trio a entrar na plataforma. Nascido no Irã, se mudou para Campinas para fazer seu pós-doutorado na Unicamp e procurava amigos: “Eu só andava com a comunidade iraniana aqui. Todo fim de semana a gente tomava café no mesmo lugar até que um dia eu cansei e disse que não aguentava mais olhar pra cara deles. Tenho uma lista dos melhores restaurantes que conheci, sempre que tenho um encontro tenho várias ideias de onde ir.

A maior parte dos jantares acontece na região do Cambuí. É possível indicar quanto se está disposto a pagar na comida durante o cadastro no aplicativo, que cobra uma mensalidade de 59 reaos. A plataforma garante que os usuários não vão ter jantares em restaurantes repetidos, garantindo uma experiência gastronômica diferente a cada encontro.

Juliana, Ali e Bianca se conheceram através dos jantares agendados por app (Foto: Nicole Heinrich)

 

Juliana Garcia foi a segunda do grupo a aderir o aplicativo. Segundo a educadora, foi assim que fez amizades quando morava fora do país. Ela morou em Singapura e usou o TimeLeft para conhecer pessoas. Ao voltar para o Brasil, sentiu que havia perdido o contato com os amigos e começou a buscar novos relacionamentos. Ela conta que inicialmente tinha receios: “No começo eu fiquei com medo de ser um golpe ou de ser sequestrada. Logo no primeiro jantar percebi que as pessoas eram do bem, educadas, de um nível bom”. No início deste ano, Juliana foi surpreendida em um dos jantares ao reeencontrar uma amiga de infância. Era Bianca, que trabalha no ramo da hotelaria e frequentava o mesmo clube que Juliana quando eram crianças.

A mais extrovertida do grupo, Bianca Guimarães se comove ao lembrar de como entrou na brincadeira: “Já tinha ouvido falar do aplicativo, mas como sempre tive muitos amigos, a última coisa que queria era mais um círculo de amizades”. Foi um episódio de burnout e os conselhos de seu terapeuta que a convenceram a dar uma chance. “Meus amigos só gostavam de sair à noite, para festas e para beber. No TimeLeft encontrei companhia para tomar café, fazer trilhas, até jogar uno! Eu amo uno, mas meus outros amigos nunca jogariam comigo.”

 

Os três se juntaram ao grupo de mensagens “clandestino” das pessoas que se conheceram no aplicativo. A comunidade do WhatsApp tem mais de 500 membros da RMC que se dividem por interesses e criam sua própria agenda de programações. “Nós fazemos parte da turma do café, mas tem a turma do churrasco, dos jogos, da pegação…” explica Bianca. Ali completa: “Tem muita gente por volta dos trinta anos que entende que o foco do aplicativo não é romântico, mas também tem muita gente que vem atrás disso, principalmente divorciados.”  Os amigos contam que grande parte desses saem do grupo quando o relacionamento termina. Juliana observa que maturidade é essencial. “Precisa ter muita maturidade pra continuar frequentando os eventos e não criar um clima desconfortável para todo mundo.”

Ali resume o que viveu nesses quase dois anos conhecendo novas pessoas: “No final sobram os que realmente se tornaram amigos. Não tenho família aqui, mas hoje eu sei que se precisar de qualquer coisa tenho a quem chamar. Tenho amigos do TimeLeft que considero irmãos.”  Bianca é uma das pessoas que fez amigos através do aplicativo e hoje frequentam somente os encontros não oficiais.

Além de jantares, a comunidade promove trilhas, viagens, noites de jogo e outras atividades: tudo pelo WhatsApp. O grupo de mais de quinhentas pessoas que aceitaram o convite para jantar com estranhos em Campinas, hoje compõe uma rede social no sentido original do termo.

Orientação e edição: Adauto Molck

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