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Atrasos e frota sucateada castigam os passageiros de ônibus em Campinas

Relatos de quebras e superlotação contrastam com a fiscalização da Emdec, enquanto a prefeitura projeta três anos para transição do sistema atual

Por André Casarin e Lucas Maccarone

O ônibus que não para no ponto devido à superlotação, o motor que ferve no meio do percurso, a porta que não fecha e o elevador de acessibilidade que trava, deixando os passageiros na mão. Essa é a rotina descrita por passageiros no Terminal de Barão Geraldo e em diversas linhas que cortam Campinas. Enquanto as concessionárias acumulam dívidas milionárias, a prefeitura projeta uma transição de gestão de até três anos, deixando os usuários em um compasso de espera marcado pela precariedade. 

 Renata Barros critica a idade da frota e a falta de ar-condicionado nos ônibus que utiliza diariamente (Foto: Lucas Maccarone)

Para quem depende do transporte público, a palavra que mais se ouve é “ruim”. Renata Barros, empregada doméstica que utiliza transporte público diariamente, descreve os ônibus como barulhentos, velhos e sem ar-condicionado. “Uma vez tive que descer no meio do caminho porque o motor do ônibus ferveu”, conta. Para ela, a incerteza é o pior fator. “A gente nunca sabe se o ônibus vai passar no horário certo ou se vai ficar mofando no ponto”.  

Essa opinião é compartilhada por Alice Morel, estudante universitária, que destaca o descompasso entre o valor da passagem e a qualidade entregue. “O custo é alto para um serviço simples e instável. As condições são ruins, com veículos lotados, calor intenso e pouca limpeza”, afirma. Já para Lucivania Aleixo, diarista que mora em Hortolândia e trabalha em Campinas, o sistema provoca um grande desgaste físico. “Acordo às 4h30 da manhã. Passo umas quatro horas do meu dia só em transporte. Muitas vezes vou em pé o trajeto inteiro e já aconteceu de o ônibus nem parar no ponto por estar lotado”, relata. As sugestões das usuárias são unânimes: renovação imediata da frota com ar-condicionado, aumento da oferta de ônibus nos horários de pico e melhoria na infraestrutura dos pontos de parada 

A negligência com a manutenção ficou evidente em episódios ocorridos no mês passado. No dia 11, o volante de um coletivo da linha 358 desprendeu-se em pleno movimento no bairro Chácaras Gargantilha. Menos de duas semanas depois, no dia 23, uma falha no sistema de freios fez com que outro ônibus colidisse contra quatro veículos em Barão Geraldo. 

O que diz a EMDEC 

A insatisfação das usuárias encontra explicação nos números. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) na reportagem do Portal G1, mostram que as empresas do sistema Intercamp acumulam R$ 2,2 milhões em multas contratuais pendentes desde 2021. De um total de aproximadamente R$ 3,1 milhões em penalidades aplicadas, menos de um terço foi efetivamente pago.  

Questionada sobre os mecanismos de controle, Daniela Lemos, Gerente de Divisão de Comunicação e Imprensa da Emdec, detalhou como funciona o monitoramento e a fiscalização da frota. Segundo o órgão, o sistema de GPS permite acompanhar a operação em tempo real pelo Centro de Controle Operacional (NUMT) e por agentes nos terminais. No entanto, a empresa esclarece que as autuações por faltas ou atrasos de horários ainda dependem da “constatação do Agente da Mobilidade Urbana em campo”. 

Ônibus com QR Code da Emdec para fiscalização da frota (Foto: Lucas Maccarone)  

Quanto à manutenção, a Emdec informou que realiza vistorias técnicas programadas onde são avaliados cerca de 850 itens, incluindo freios, suspensão e acessibilidade. A periodicidade dessas inspeções varia conforme a idade da frota. Os veículos mais novos passam por revisão semestral, enquanto os mais antigos são vistoriados bimestralmente.  

A autarquia também afirmou realizar o monitoramento das quebras em serviço. Na prática, isso significa que a Emdec cataloga e analisa os dados de todos os ônibus que param de funcionar no meio do percurso. Ao identificar padrões, como um problema crônico de freio em uma determinada empresa ou marca de veículo, o órgão pode direcionar fiscalizações mais rigorosas e exigir a substituição de peças ou veículos específicos junto às concessionárias. 

Segundo Daniela, os usuários também já podem consultar a situação da inspeção veicular dos ônibus que circulam na cidade, por meio do QR Code do Transportador. O adesivo permite consultar, pelo smartphone, se os veículos do transporte público coletivo foram aprovados nas inspeções mecânica e ambiental obrigatórias para as categorias.  

QR Code da Emdec para fiscalização da frota (Foto: Lucas Maccarone)  

Apesar dos mecanismos de fiscalização citados, a Prefeitura de Campinas reconhece a necessidade de mudança e busca uma transição de até três anos para o novo modelo de gestão. O processo, porém, esbarra em uma divergência jurídica: a nova licitação do sistema está travada devido a questionamentos das atuais concessionárias sobre as planilhas de custos e exigências do edital, o que força a prefeitura a operar por meio de contratos emergenciais ou aditivos. O objetivo é viabilizar uma nova licitação e permitir uma migração gradual. No entanto, para os usuários do transporte coletivo, o prazo de três anos parece distante diante da urgência de quem precisa chegar ao trabalho ou à faculdade hoje. 

Enquanto a transição para o novo modelo de gestão não é concretizada, a Emdec orienta que os usuários registrem ocorrências de falhas mecânicas ou atrasos pelo telefone 118 ou pelo aplicativo da autarquia. Os registros servem de base para o monitoramento de quebras e para a aplicação de sanções administrativas às empresas concessionárias. 

Orientação: Profa. Rose Bars

Edição: Eloah Dias

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