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OPINIÃO – Enquanto os condomínios e complexos residenciais crescem, o trabalhador segue invisível, exausto e mal remunerado
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Três empresas em Jaguariúna foram listadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) por denúncias de trabalho análogo à escravidão. O fato escancara como a cidade, hoje marcada pelo conservadorismo político, mantém vivo o eco da exploração que a fundou.
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Conhecida por sua “qualidade de vida”, cresce sobre um terreno histórico de desigualdade e mesmo mais de um século depois, o espírito do coronelismo ainda parece reger o lugar. Jaguariúna é orientada por partidos de centro e direita e o discurso do progresso, que no século XIX se traduzia em trilhos e fazendas, hoje se expressa em condomínios de luxo e polos industriais, símbolos de uma modernidade que, ironicamente, ainda depende da exploração do trabalho precarizado.
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Em setembro de 2025, o MTE atualizou a Lista Suja, que reúne agora 159 empregadores. Entre eles três empresas do ramo de construção localizadas em Jaguariúna. Os endereços não estão em zonas afastadas, fazem parte do tecido urbano jaguariunense, próximos de áreas residenciais valorizadas.
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Esse contraste é o retrato de um modelo de desenvolvimento que ergue muros para esconder injustiças. Enquanto os condomínios e complexos residenciais crescem, o trabalhador segue invisível, exausto e mal remunerado, preso em um ciclo que se aproxima perigosamente do papel de servo, exatamente como manda a ideologia presente no poder público municipal.
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Além disso, crises hídricas e queimadas em áreas de preservação evidenciam outro tipo de violência: a ambiental. O lucro fala mais alto que o direito à terra, à água, moradia e até quem sabe à educação? Em muitos dos casos, quem sofre com as consequências é a população migrante, vinda do Norte e Nordeste, atraída pelas indústrias locais em busca de sobrevivência e promessas de melhores condições de vida, cenário já bem conhecido desde a década de 1930.
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O que se observa é uma continuidade histórica que vai das senzalas aos alojamentos precários; do açoite às dívidas; do coronel ao empresário. É urgente que as autoridades locais e estaduais adotem uma postura mais firme para fortalecer fiscalizações, garantir moradia digna, acesso à água, transporte público e, acima de tudo, respeito às leis trabalhistas. O MTE, ao disponibilizar o Canal de Denúncias, cumpre parte do papel essencial ao expor os responsáveis, mas a transformação real exige vontade política e uma sociedade que não naturaliza a exploração.
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Enquanto trabalhadores estiverem submetidos à escravidão moderna, não há desenvolvimento que se sustente. O verdadeiro progresso não está nas paredes de concreto, mas na maneira como uma cidade trata quem as constrói. Parafraseando Chico Buarque, a classe trabalhadora segue morrendo na contramão atrapalhando o público. Nos falta humanidade.
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Orientação: Adauto Molck
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