Reportagens

Mulheres conquistam espaço em universo das artes

Por Ana Paula Teixeira e Isadora Gimenes

Diante de denúncias diárias de violência contra as mulheres no país – que registrou, no último ano, um relato de violência a cada sete minutos segundo dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres – observa-se que, além de outros problemas de desigualdade, as mulheres ainda enfrentam situações de exclusão em vários aspectos do mercado de trabalho. Apesar das conquistas advindas do movimento feminista – sobre o qual é possível ler mais nesta matéria do Digitais – as mulheres ainda são minoria em diversas áreas, ainda bastante monopolizadas pelos homens, como o campo das artes, que engloba música, dança e outras atividades, muitas práticas ainda são dominadas, basicamente, por pessoas do gênero masculino.

Existe, no entanto, o esforço feminino para conquistar espaço nessas áreas e provar que a situação de gênero nada tem a ver com talento ou capacidade para executar atividades. Na Região Metropolitana de Campinas (RMC), jovens mulheres têm mostrado seu trabalho como DJs, grafiteiras, dançarinas urbanas e tatuadoras e, apesar de ainda comporem a minoria em termos quantitativos em suas áreas do mercado de trabalho e sofrerem preconceito pelo fato de serem mulheres, elas sonham em construir carreiras no meio.

Dança

A dançarina Hyorrana Lopes, de 20 anos, se apaixonou pelo Hip Hop ainda na infância. “Comecei dançando em festinhas da escola ou no quintal da casa de amigas”, comenta a artista. “Mas quando tinha nove anos, me apaixonei pelas músicas de Hip Hop e acabei levando isso para a dança”. Apesar da paixão existir há tanto tempo, a dançarina conta que frequentemente se sente tratada de maneira diferente no trabalho simplesmente por ser mulher.

“Nas danças urbanas, quase todo os grandes artistas são homens. A mulher tem que provar com muito mais afinco o tempo inteiro que ela é boa o suficiente para estar ali. Além disso, esperam determinadas coisas de mulheres, como que elas rebolem, por exemplo. Se a mulher faz isso, é julgada como vulgar. Se não faz, ela é posta à prova para ser vista do mesmo jeito”, desabafa Hyorrana.

A dançarina explica, ainda, que apesar do Hip Hop ser uma arte que historicamente começou com maioria masculina, mulheres que fizeram parte dessa trajetória têm sua importância muitas vezes ofuscada e são socialmente apagadas. “O contexto machista na época era mais explícito, e ainda hoje, é enraizado na cultura dessa dança”.

A despeito de tudo isso, Hyorrana trabalha dançando e ensinando amantes de danças urbanas, como Hip Hop e Dance Hall. “Faço o que amo apesar do que os homens vão pensar. Gosto do Hip Hop underground e coisas que são consideradas menos femininas. E se eu quiser dançar isso, vou fazer. O feminismo me ajudou a ser livre para fazer a arte que quero, apesar dos julgamentos”.

Hyorrana demonstra seu talento para a dança que, hoje, é sua profissão

Tatuagem

O talento para desenhar e pintar de Marjoh Queiroz foi o que levou a artista a virar tatuadora de mão cheia. “Primeiro, surgiu o interesse por ser tatuada. Depois, resolvi unir o útil ao agradável”, explica a artista. Em Campinas, alguns dos mais famosos estúdios de tatuagem procurados pelo Digitais simplesmente não têm nenhuma mulher atendendo.

Mas no meio, ainda quase inteiramente dominado por homens, a artista é enfática ao responder se sente tratada de maneira diferente pelo fato de ser mulher. “Sempre”, ela diz. “É uma profissão dominada, basicamente, só pelos homens. E chegar nesse meio, sendo mulher, foi algo que preocupou, sim, porque não se sabe qual será a reação – se será realmente profissional ou se rolam interesses por outras coisas, o que às vezes acontece. Em muitas situações, me vi como a única mulher no meio de muitos homens”.

Para ela, o ofício ainda é dominado por homens por resquícios da maneira que essa arte surgiu, em um tempo em que o machismo era mais forte do que hoje. “Naquela época as mulheres só podiam ser as donas do lar. Elas não podiam fazer nada além disso”, conta a tatuadora. “O meio, também, era considerado muito marginal. No início eram presidiários, marinheiros e pessoas de classe social inferior”.

Hoje, Marjoh tem seu próprio estúdio no centro de Campinas, o Monarca Custom Tattoo (rua Antônio Cezarino, 642, centro), e defende que qualquer mulher que consegue se enxergar dentro da sociedade em que se vive, só pode ser feminista. “Uma mulher que não se considera feminista, simplesmente ainda não enxergou que é inferiorizada. O feminismo tem como base a igualdade entre os sexos, simplesmente”, diz a artista, que ainda luta diariamente por uma posição de igualdade dentro da sua profissão.

 

Marjoh trabalha como tatuadora desde 2012. Hoje, a artista tem seu próprio estúdio (Crédito: acervo pessoal)

 

DJ
Historicamente a mulher teve um papel de subjugação e, nos dias de hoje, isso se reflete também na música. Uma matéria que saiu no “The New York Times”, em 2015, mostrou que mesmo as DJs internacionais fazem cada vez mais sucesso de forma natural e consistente (como Nina Kraviz, as irmãs do Nervo e Nicole Moudaber), mas, a conquista desse espaço, infelizmente, está sempre regada de mais e maiores aprovações, ou seja, as DJs mulheres terão sempre que provar um pouco mais do seu valor.
A DJ profissional Priscila Hanzi trabalha na área há 14 anos – na Cal Digital Vision e DJ Priscila Henzi. Para ela, o que acontece é que “rola um pré-conceito de que a DJ mulher está no line de uma festa, porque é bonita, e não pelo seu talento. A ideia é mostrar que pode ser sim, uma DJ, mulher, bonita, e saber o que está fazendo, pois estudamos e trabalhamos muito para cada apresentação”.

Ela acredita que talvez isso ocorra pela falta da união entre as próprias DJs mulheres, por medo de perder o espaço no mundo eletrônico, que já é monopolizado pelos homens. Ela ainda afirma que “se as DJs não trabalharem para mudar isso, nada mudará”. Priscila quer lutar para que seu som seja uma mensagem, fazendo o que ama e conquistando cada vez mais o seu espaço.

 

Graffiti
Os muros podem deixar de ser brancos e cinzas e passarem a ser coloridos pelos grafites de artistas da capital e da região. Os desenhos que trazem cor às ruas de São Paulo muitas vezes são assinados por homens e, raramente, por mulheres. Há, entretanto, grupos de grafite formados somente por meninas que buscam levar arte e crítica social por meio de suas pinturas.

A grafiteira Grazie Gra é uma delas. Ela reivindica a força e o empoderamento das mulheres. “A minha luta é pela igualdade humana. Eu vejo o feminismo como uma necessidade, deve interessar a homens e mulheres. Interessa a sociedade. Como vivemos num país bastante machista, obviamente, o machismo está em todas as áreas e em todas as camadas sociais também (pasmem! Mulheres ricas também apanham). Assim, no graffiti e também nas artes não é diferente. Parece contraditório ver pessoas mais esclarecidas e machistas, mais isso é fato, infelizmente, tem muitos manos com um discurso liberal e progressistas que não se assumem, mas na real, são machistas. Não são raras as vezes que precisamos nos posicionar, e deixar claro que se aceitamos um convite de um artista homem para fazer um rolê de graffiti, isso não quer dizer que sexo está incluso”.
A ausência das mulheres no meio pode ser alterada por mulheres que como Grazie, lutam pelo seu espaço e direto. “Saber que temos direitos muda tudo. Isso faz com que eu busque ou aceite para a minha carreira as melhores oportunidades e decline de outras que são menos interessantes a meu ver. Não merecemos migalhas, queremos o melhor que possa haver, e isso se fortalece pelo profissionalismo de cada uma das artistas”, afirma a artista.

Grazie Gra possui graffitis espalhados por toda cidade de São Paulo (SP) (Crédito: acervo pessoal Grazie)

Fontes: Hyorrana Lopes, Marjoh Queiroz, Priscila Hanzi e @Grazie_

Editado por Isabel Ruiz


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