Sem força para barganhar frente aos grandes mercados, comerciantes amortecem os preços com a cultura da pechincha
Por Enzo Oliva e Patrick Goulart
Em meio aos corredores e expositores do Ceasa (Central de Abastecimento S.A.) em Campinas, a discussão que antes era pautada em torno da qualidade da safra da estação, hoje se tornou sobre a imprevisibilidade dos preços e a falta repentina de produtos do dia a dia. Fenômenos como “El Ninõ“, deixaram de ser conceitos de relatórios internacionais para se tornarem uma realidade que afeta a dinâmica operacional do mercado hortifrutigranjeiro.
Os feirantes são um dos principais afetados por essa transformação, e vivem diariamente o dilema entre reduzir a margem de lucro ou repassar a alta do preço para o consumidor final. O cenário de adaptação forçada tornou a gestão de estoque e a política de preços ferramentas para sobrevivência diária, relatam os comerciantes.
Segundo levantamentos do IBGE, hortaliças como tomate e batata inglesa tiveram disparadas de preço de até 35% na região Sudeste em um período de 12 meses. Tais itens são vulneráveis a variações de temperatura e umidade, o que explica seu encarecimento súbito. A estratégia de quem vende, se torna interromper temporiamente a compra de determinadas mercadorias para evitar a deterioração massiva.
Estudos do Climatempo indicam que as ondas de calor intenso e períodos de seca na Região Metropolitana de Campinas (RMC) causam queda súbita na oferta de lavouras de ciclo curto. O feirante Gabriel Ferreira relata o impacto direto em itens específicos e menos populares que tiveram de ser totalmente cortados do seu catálogo de produtos.
Além de reorganizar as prateleiras com produtos alternativos, Gabriel aponta que o repasse integral da alta para o consumidor tornou-se inviável. Segundo ele, caso o valor seja repassado, o volume de vendas reduz drasticamente, que por sua vez, contribui para a perda total da mercadoria. A consequência é o encolhimento da margem de lucro mensal do feirante.
No ‘sacolômetro’ do Ceasa Campinas ao final de 2025, alimentos de hortifrúti registraram reajustes pontuais superiores a 27% devido a perdas na formação de frutos por estresse térmico. E por isso, em tempos de inflação, o pequeno comerciante precisa recorrer a estratégias que não afastem o comprador fiel e nem comprometam a receita da bancada.
Marco Gonçalves, de 47 anos, um dos permissionários, explica que a retenção dos clientes depende da abordagem que cada comerciante adota para amortecer os choques iniciais ao olharem nas tabelas de preço. A ideia é segurar o valor cobrado e ir ajustando de forma fracionada ao longo do tempo.
A cultura das feiras e do Ceasa Campinas é afetada pela instabilidade climática. Historicamente reconhecidos como espaços onde a negociação direta e a famosa “pechincha” garantiam margens de respiro para quem vendia, a dinâmica atacadista passou por transformações profundas advindas pela menor oferta de produtos e predação maciça de grandes mercados.

Gabriel faz substituição de produtos específico // Rodinei mantem a bancada limpa e bem-organizada
(Fotos: Patrick Goulart)
O pequeno comerciante Rodinei Costa, de 41 anos desabafa justamente sobre isso. Ele a perca do poder de barganha frente aos compradores institucionais e redes de supermercados.
Rodinei tenta contornar a situação através da boa organização de sua banca e a precificação horária na feira livre para garantir a liquidação do estoque antes do encerramento de seu horário.
A situação vivida no Ceasa Campinas reflete um fenômeno econômico muito mais amplo, popularizado pela economista alemã Isabel Schnabel chamado climateflation (inflação climática). O conceito busca entender como as mudanças climáticas e eventos meteorológicos elevam o custo de vida.
Na Região Metropolitana de Campinas (RMC) o fenômeno se tornan evidente com o clima seco, a irregularidade das chuvas e os picos de temperatura acima da média histórica. Essas condições alteram o ciclo biológico de hortaliças de folha (como alface e couve) e frutos (como tomate e pimentão). Como relatam os boletins meteorológicos do Ceasa.
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Orientação e edição: Adauto Molck
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