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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

O custo de produzir de forma sustentável no agronegócio brasileiro

Investimentos em tecnologia e práticas de cultivo reduzem impactos ambientais; acesso depende de recursos, assistência técnica e planejamento

Por Ana Beatriz Morales, Bianca Freitas, Gabriela Moda, Júlia Domingues e Júlia Sabatin

A busca por uma produção mais sustentável tem transformado a rotina de muitas propriedades rurais  em Campinas, no interior de São Paulo. Tecnologias utilizadas para economizar água na higienização de hortaliças, sistemas de cultivo que preservam o solo e novas formas de aproveitamento dos recursos naturais ganham espaço no campo. Embora essas práticas possam trazer benefícios ambientais e econômicos, sua  adoção depende de condições de cada propriedade. O custo de implantação, a adaptação dos processos e o acesso à assistência técnica influenciam as decisões dos produtores.

Em 2025, o agronegócio representou 25,13% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, movimentando R$ 3,20 trilhões, segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP), em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Em um setor que movimenta trilhões de reais, a capacidade de investir em sustentabilidade não é a mesma para todos os produtores.

Apesar da potência econômica do setor, as propriedades rurais apresentam diferenças significativas em relação ao tamanho, à capacidade de produção e à disponibilidade de recursos. Enquanto grandes empresas podem contar com grandes estruturas para incorporar novas tecnologias, pequenos e médios produtores precisam avaliar com maior cuidado os custos envolvidos e o tempo necessário para recuperar os valores investidos. Essas diferenças influenciam o acesso à tecnologias e práticas sustentáveis.

Para Lilian Cristina Anefalos, pesquisadora e diretora do Núcleo de Inovação Tecnológica do Instituto Agronômico (IAC), vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, a adoção de práticas sustentáveis depende das condições de cada propriedade. “Quando falamos de sustentabilidade, o produtor menor ou familiar tem condições mais restritas se você for considerar grandes produtores ou empresas”, explica. “Precisamos enxergar isso como um ponto de atenção e um olhar melhor para esses produtores”.

A especialista conta que a sustentabilidade precisa considerar as particularidades de cada realidade produtiva. O custo de aquisição, a adaptação dos processos e o acompanhamento técnico são aspectos que podem determinar se uma iniciativa será economicamente viável.

INVESTIMENTO
Em Campinas, o produtor rural Sérgio Donofrio, proprietário do sítio Calusne Farms, encontrou na tecnologia uma alternativa para tornar mais eficiente o processo de higienização das hortaliças que comercializa, o uso do ozônio. Antes, a limpeza era feita com cloro, em um procedimento que exigia controle de tempo, diferentes recipientes e etapas de enxágue. Segundo o produtor, a mudança eliminou parte dessas etapas e reduziu o consumo de água.

Sérgio Donofrio investe em tecnologia para tornar a produção de hortaliças mais eficiente e sustentável
(Foto: Roald Jr)

Após a higienização, as hortaliças seguem diretamente para a centrifugação, reduzindo a necessidade de água utilizada na operação. A mudança simplificou a rotina de trabalho, ao diminuir o número de etapas necessárias para preparar os produtos. “A gente tinha que enxaguar quando era o cloro e com o ozônio eu não preciso mais. Ela vai direto para a centrífuga”, diz. “Isso me trouxe uma economia de água fora do comum”.

Sérgio é um exemplo de como a incorporação de uma tecnologia pode contribuir para modificar processos que fazem parte do cotidiano da produção agrícola. Nesse caso, a economia de água está associada não apenas à utilização de um novo equipamento, mas também à reorganização de uma etapa da atividade.

Segundo Wilson Tadeu Lopes, doutor em Química Ambiental e pesquisador da Embrapa Instrumentação, a adoção de práticas sustentáveis permite reduzir os impactos da atividade agrícola. “O impacto ambiental da agricultura, ele existe, afinal não existe impacto zero, mas o que dá para se fazer é reduzir esse impacto através de práticas mais adequadas e mais sustentáveis”, explica.

A mudança, entretanto, envolve uma barreira financeira. Segundo Sérgio, uma máquina simples para higienização com ozônio custa aproximadamente R$ 20 mil. A tecnologia pode apresentar vantagens na rotina produtiva, mas seu custo inicial ainda pode limitar o acesso.  “O investimento é um valor significativo, já que preciso equilibrar com gastos como manutenção do equipamento, com os insumos, funcionários e outras etapas”, analisa o produtor rural.

SUSTENTABILIDADE 
O investimento em sustentabilidade nem sempre está associado à compra de máquinas. Também em Campinas, a coordenadora rural Maísa Frighetto cuida de um sistema agroflorestal para o cultivo de café, combinando diferentes espécies vegetais em uma mesma área.

Maísa Frighetto num sistema agroflorestal que combina diversificação e preservação de recursos naturais
(Foto: Roald Jr)

A proposta é reproduzir a dinâmica de uma floresta, utilizando plantas que contribuem para a proteção do solo, o sombreamento e a produção de matéria orgânica. “Um dos principais benefícios desse sistema é que ele é um sistema resiliente”, afirma. Além da plantação de café, ela também cultiva abacate e noz-pecã. “Se eu tiver uma quebra no café eu ainda tenho as outras plantas”, explica a coordenadora.

Os sistemas agroflorestais (SAFs) combinam em uma mesma área espécies agrícolas e florestais, podendo incluir também a criação de animais. De acordo com a publicação Sistemas Agroflorestais: benefícios e desafios socioambientais, da Embrapa, essa integração pode ocorrer simultaneamente ou em diferentes etapas do cultivo, de acordo com o planejamento da propriedade.

O manejo permite trabalhar aspectos ambientais e produtivos de maneira integrada, considerando a proteção da área cultivada e as possibilidades de geração de renda. É uma estratégia que exige planejamento, conhecimento sobre as espécies e uma visão de produção que ultrapassa o resultado de uma única safra. “A grande lição que os agricultores de médio e pequeno porte dão é justamente a questão da diversificação. Várias propriedades têm mais de uma cultura e esse sistema se torna naturalmente mais resiliente”, explica Wilson Tadeu, pesquisador da Embrapa Instrumentação.

Na propriedade em que Maísa trabalha, a estimativa é recuperar o investimento entre sete e oito anos. Segundo ela, o planejamento considerou três cenários: pessimista, realista e otimista. O prazo está relacionado ao desenvolvimento das culturas e à consolidação da produção. Por isso, o planejamento financeiro precisa contemplar o período de implantação e os riscos que podem afetar as safras. “Eu me lembro que quando a gente começou os plantios,  em janeiro de 2025,  tivemos diversas ondas de calor e vários cafeicultores perderam suas mudas. Os nossos cafés seguiram muito bem, mesmo sem irrigação, porque o sistema estava protegendo”, explica Maísa.

 Os resultados econômicos de uma iniciativa sustentável nem sempre aparecem imediatamente. Diferentemente de investimentos que podem apresentar retorno em períodos mais curtos, a implantação de um sistema agroflorestal envolve um processo de desenvolvimento das culturas e de consolidação da produção. Por isso, a análise precisa considerar diferentes possibilidades e eventuais dificuldades que possam surgir durante o período.

Lilian Cristina Anefalos, pesquisadora do IAC // Wilson Tadeu Lopes, pesquisador da Embrapa Instrumentação
(Foto: Roald Jr)

DESAFIOS
Para os pesquisadores, não existe um único caminho para produzir de forma sustentável. Enquanto a tecnologia pode contribuir para a redução do consumo dos recursos naturais, as mudanças nas práticas tradicionais também são uma alternativa para alcançar a sustentabilidade. Ambos os casos exigem planejamento financeiro e investimentos, e os resultados nem sempre são imediatos. “As práticas sustentáveis, elas faziam parte da rotina do pequeno agricultor. Quando ele fazia o uso de esterco bovino para fertilizar uma cultura, isso é uma prática sustentável”, explica Wilson Tadeu.

A adoção dessas práticas depende das condições de cada propriedade. O acesso à assistência técnica, a disponibilidade de recursos e o tempo necessário para recuperar o dinheiro investido são fatores que influenciam as decisões dos produtores. A falta de condições para realizar um investimento imediato não significa, necessariamente, ausência de interesse em produzir de maneira mais sustentável. Muitas vezes, o desafio está em encontrar alternativas compatíveis com a realidade financeira e estrutural de cada atividade.

Em um setor que busca ampliar a produtividade sem comprometer os recursos naturais, o desafio é tornar as práticas sustentáveis cada vez mais acessíveis às diferentes realidades do campo. Afinal, quando o investimento necessário para preservar o futuro da produção ainda representa uma barreira, a sustentabilidade deixa de ser apenas uma escolha individual e passa a exigir condições para que todos possam fazer parte dessa transformação.

As experiências mostram que a redução dos impactos ambientais pode envolver tanto a incorporação de equipamentos quanto a reorganização dos sistemas de cultivo. Em ambos os casos, os custos e o prazo de recuperação do investimento precisam ser avaliados conforme a realidade da propriedade.

A assistência técnica é importante para orientar a escolha das práticas, acompanhar sua implantação e avaliar os resultados. A disponibilidade de recursos, por sua vez, influencia a capacidade de iniciar as mudanças e mantê-las até que tragam retorno.

Orientação: Ciça Toledo

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