Apesar de episódios de brigas e agressões, a violência nunca é direcionada aos lojistas, funcionários e transeuntes
Textos e fotos por Alice Ferreira
Entre janeiro e agosto desse ano, a cidade de Campinas registrou 501 queixas relacionadas a pessoas em situação de rua por meio do 156, canal central de atendimento ao cidadão da Prefeitura de Campinas. Esse número representa uma média de 63 atendimentos por mês. O maior número de chamados foi referente ao acúmulo de lixo (275), seguido por abordagem e acolhimento (62), ocupação de espaço público (56), perturbação e segurança pública (27) e uso de drogas em área pública (11). Além desses números, foram registradas 70 ocorrências que não se enquadram nas solicitações anteriormente citadas.
Os números, no entanto, não necessariamente representam ocorrências de crimes e delitos. De acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social, as categorias correspondem apenas à forma como a solicitação é registrada no momento em que acontece e não, a avaliação realizada pela equipe ao chegar no local da solicitação. Ainda segundo a assessoria de comunicação da Prefeitura de Campinas, quando o registro envolve pessoas em situação de vulnerabilidade social, a ocorrência é repassada para a Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social, e posteriormente ao Serviço de Abordagem Social de Pessoas em Situação de Rua responsáveis, formada por profissionais qualificados para atender esses cidadãos.
Maria* – que preferiu não revelar o nome verdadeiro – veio do Ceará acompanhada da mãe e de parte da família, e disse viver há anos na cidade de Campinas, permanecendo na região central. Ela contou que organizações de assistência social oferecem alimentos e cobertores, mas afirmou que depois da entrega as equipes deixam o local e que pessoalmente nunca foi encaminhada para atendimentos de saúde. A relação de Maria com os agentes de segurança pública é marcada por desconfiança, e disse ter receio de homens fardados, principalmente quando se trata da abordagem de outros homens em situação de rua, que segundo ela, ocorre de forma violenta. “Eles lá e eu aqui”, disse. Sua experiência vivendo na rua é atravessada pelo preconceito, pois relata já ter sido olhada com desprezo por outras pessoas, e que isso é constante.


Gestora do SOS Rua, Ana Cândido // Comandante da GMC, Maria de Lourdes Soares
Para Patrícia Silvério, que trabalha no Centro de Campinas há 20 anos, as brigas entre essa população são frequentes. Ela já presenciou agressões físicas entre eles, e que em uma situação precisou fechar as portas da loja por medo. Mas a gerente afirma que a violência nunca foi direcionada ao patrimônio ou às funcionárias. Ela acredita que a presença dessas pessoas contribui para o afastamento da população do centro. No áudio, Patrícia falou sobre esse afastamento dos compradores.
Além das situações vivenciadas por Patrícia, outros comerciantes compartilham do mesmo sentimento em relação a presença de pessoas em situação de rua no centro, e o abandono por parte dos consumidores pela insegurança dessa presença. Thaylane de Melo, moradora de Campinas que trabalha na região central há 4 anos, apresenta sua perspectiva a respeito do que poderia ser feito para melhorar a situação. No vídeo abaixo, a comerciante deixou claro que acredita ser um problema da prefeitura.
Essa cobrança por medidas mais rígidas encontra limites na atuação dos órgãos de segurança pública. A inspetora superintendente e comandante da Guarda Municipal de Campinas, Maria de Lourdes Soares, disse que a GMC recebe muitos chamados de pessoas que se sentem inseguras com a presença de pessoas em situação de rua, mesmo quando essas pessoas não representam perigo. Em áudio, a comandante afirmou que essa questão envolvendo pessoas em situação de rua é muito complexa, porque a presença delas em espaço público não configura um problema de segurança pública.
Segundo a comandante a Guarda acompanha diariamente o caminhão cata-treco na retirada de materiais como papelão, caixas e cobertores que são deixados em espaços públicos. Parte desses materiais pertencem a pessoas em situação de rua, e é recolhido após elas deixarem o local. Para a comandante, esse trabalho reforça a dificuldade da atuação. “É uma linha muito tênue”, disse ao explicar que enquanto alguns solicitam a retirada dessas pessoas dos espaços públicos, outros questionam a intervenção e discordam da atuação.
Para Ana Cândido, gestora há 17 anos do SOS Rua, organização de abordagem social, discutir a situação de rua passa por reconhecer as pessoas que estão nela como cidadãos com direitos. O trabalho da equipe começa pela criação de um vínculo e o respeito ao tempo e a decisão do atendimento de cada pessoa, que pode recusar uma abordagem ou encaminhamento a outros serviços de atendimento. Portanto, segundo Ana, o preconceito ainda interfere na forma como essas pessoas são vistas e atendidas. Para ela, conhecer as histórias dessas pessoas é uma das formas de romper com a invisibilidade social.
Orientação e edição: Adauto Molck
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