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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Amazônia registra menor área sob alerta de desmatamento desde 2015

Perda de vegetação da floresta pode agravar a irregularidade das chuvas e elevar as temperaturas na região Sudeste

Por Alana Oliveira e Maria Clara Moraes

A Amazônia registrou 2.874 km² sob alerta de desmatamento entre agosto de 2025 e julho de 2026, uma redução de 36% em relação ao período anterior. O levantamento do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aponta o menor índice da série histórica do monitoramento, iniciada em 2015. Apesar do resultado, a floresta continua sob pressão de atividades como o garimpo ilegal, que provoca desmatamento, degradação dos rios e impactos sobre as populações indígenas.

A redução significa que uma área menor da floresta apresentou sinais de desmatamento identificados por satélite. Isso não representa, necessariamente, o recuo de todas as atividades que ameaçam o bioma. A mineração, por exemplo, altera o ambiente por meio da abertura de áreas, da movimentação de terra e da contaminação dos recursos hídricos.

Para Vânia Silvia Rosolen, professora do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Estadual Paulista (UNESP), em Rio Claro, a diminuição dos índices é positiva porque representa uma menor perda de vegetação nativa. A pesquisadora, porém, chama atenção para as consequências da exploração econômica sobre quem vive na região. “Menos floresta está indo para o chão, para dar espaço a outras atividades econômicas”, afirma Vânia Silvia Rosolen.

Garimpo compromete rios e territórios indígenas
A expansão do garimpo ilegal tem consequências que não se limitam à área diretamente escavada. A retirada da vegetação e o uso de mercúrio na mineração de ouro comprometem a qualidade dos rios, dos quais dependem comunidades indígenas e ribeirinhas para alimentação, consumo e atividades cotidianas.

Na Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, a área ocupada pelo garimpo passou de 147 hectares, em 2022, para 3.432 hectares, em 2025. Os dados também mostram que o território passou da oitava para a quinta posição entre as terras indígenas mais afetadas pela atividade no Brasil.

Rosolen relaciona a exploração mineral à insegurança alimentar e aos problemas de saúde enfrentados por comunidades indígenas. Segundo ela, a contaminação por mercúrio e a degradação dos rios comprometem recursos essenciais para a sobrevivência dessas populações.“Além de destruir a floresta, eles estão causando uma degradação extremamente grande nos rios”, diz.

A professora também lembra que a demarcação de terras indígenas não impede, por si só, invasões e atividades ilegais. A proteção jurídica do território não elimina os riscos enfrentados pelas comunidades, sobretudo quando a fiscalização não consegue impedir a entrada de garimpeiros.

Em Maués, no Amazonas, a identificação de um garimpo subterrâneo com aproximadamente 70 metros de profundidade exemplifica outra dificuldade para o monitoramento. Diferentemente das áreas abertas de mineração, estruturas subterrâneas podem não apresentar sinais facilmente identificáveis em imagens de satélite.

CHUVAS NO SUDESTE
A conservação da Amazônia interfere nas condições climáticas de regiões distantes do bioma. A floresta libera umidade para a atmosfera, que é transportada por correntes de ar e contribui para a formação de chuvas em diferentes partes do país. Esse processo é conhecido como rios voadores.

Rosolen explica que a umidade amazônica participa da regulação das chuvas no Centro-Oeste e no Sudeste. Quando a vegetação é substituída por pastagens ou áreas de mineração, essa função ambiental é prejudicada. “Essa umidade que é bombeada da floresta para a atmosfera é responsável por um volume bastante considerável de chuva na região Centro-Oeste e região Sudeste”, afirma.

A pesquisadora relaciona essa dinâmica à segurança hídrica da região de Campinas. As bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), responsáveis pelo abastecimento de diversos municípios paulistas, já enfrentam dificuldades para garantir água suficiente à população. A perda de vegetação amazônica pode agravar a irregularidade das chuvas, elevar as temperaturas e comprometer atividades que dependem da disponibilidade de água, como a agricultura e o abastecimento público. “Se nós pensarmos num cenário mais drástico de retirada da floresta, nós aqui do Sudeste e do Centro-Oeste com certeza vamos ter uma diminuição da quantidade de chuvas”.

A alteração do regime de chuvas afeta a produção de alimentos. A redução da água disponível para as plantações pode comprometer safras e ampliar dificuldades de abastecimento, especialmente em regiões que já enfrentam períodos de estiagem.

Vânia Silvia Rosolen, professora de Engenharia Ambiental da Universidade Estadual Paulista (Foto: Alana Oliveira)

PECUÁRIA FAZ PRESSÃO
A conversão da vegetação nativa em áreas de pastagem está entre os principais fatores associados ao desmatamento na Amazônia. A dinâmica difere da observada no Cerrado, onde parte da vegetação é substituída por lavouras de soja, milho e outras culturas. Na avaliação de Rosolen, a pecuária voltada à produção de carne para exportação ocupa uma parcela importante da transformação da paisagem amazônica. Ela diferencia essa atividade da produção de alimentos realizada por pequenos e médios produtores e por comunidades tradicionais.

A pesquisadora aponta que a exploração econômica de produtos da biodiversidade, como substâncias utilizadas em medicamentos e cosméticos, recebe menos atenção do que atividades que dependem da retirada da vegetação. A perda de áreas naturais pode comprometer espécies ainda pouco estudadas e limitar pesquisas sobre seus possíveis usos. A floresta abriga uma diversidade biológica que interessa à ciência, mas cuja exploração depende da conservação dos ecossistemas.

IMPORTÂNCIA DA FISCALIZAÇÃO
A queda de 36% nos alertas ocorre em um período de mudanças nas políticas de fiscalização ambiental. Para Rosolen, os resultados estão diretamente relacionados às decisões do poder público e à atuação dos órgãos responsáveis pelo controle das atividades ilegais.

A professora cita o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e os órgãos estaduais como instituições que precisam manter ações de monitoramento e fiscalização. Na avaliação da pesquisadora, a redução do desmatamento não deve depender apenas de medidas adotadas por uma gestão. Ela defende a participação contínua dos governos federal, estaduais e municipais, além do setor produtivo e da sociedade. “O desmatamento zero pode ser alcançado, desde que isso seja um projeto de Estado”, afirma.

Entre agosto de 2021 e julho de 2022, a Amazônia registrou 8.590 km² sob alerta de desmatamento. No período mais recente, a área caiu para 2.874 km². A diferença mostra a dimensão da redução, mas a manutenção desse resultado depende da continuidade das medidas de proteção.

A diminuição dos alertas é um indicador importante, mas não encerra a discussão sobre a conservação amazônica. O avanço do garimpo, a situação dos territórios indígenas e os efeitos da degradação sobre os recursos hídricos mostram que a proteção da floresta ainda exige acompanhamento de diferentes indicadores ambientais.

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Orientação e edição: Adauto Molck

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