Capacitação, autonomia e reconhecimento profissional são fundamentais para ampliar a participação feminina em um ambiente historicamente marcado pela predominância masculina
Por Maria Clara de Olarte
A presença feminina no agronegócio vai além do trabalho nas propriedades rurais. Mulheres têm assumido a gestão de negócios, participado de cooperativas e buscado espaço nas decisões que movimentam o setor. Apesar dos avanços, a conquista desses lugares envolve desafios relacionados ao reconhecimento profissional, ao acesso à formação técnica e à participação em ambientes ainda predominantemente masculinos.
Para Cristina Lerosa, proprietária da Fazenda São Miguel Arcanjo, o ingresso das mulheres no agronegócio tem apresentado mudanças importantes. Segundo ela, a atuação feminina não está mais restrita às situações em que mulheres assumem propriedades herdadas da família ou precisam dar continuidade aos negócios após a morte ou o adoecimento do marido. Há também aquelas que escolhem o campo como projeto profissional. “Estamos num momento muito bom para as mulheres e tem muita mulher pegando firme no agro. E não é só aquelas que acabam herdando do pai ou pegando firme no trabalho porque o marido morreu ou ficou doente. […] A gente está vendo pessoas que optam, mulheres que optam pelo agro”, afirma Cristina.
A fala evidencia uma transformação na maneira como a participação feminina pode ser compreendida: além de dar continuidade a atividades familiares, as mulheres também buscam construir seus próprios negócios e desenvolver projetos no setor. Essa escolha envolve o desejo de participar de um mercado que exige conhecimento técnico, capacidade de planejamento e responsabilidade na administração. Cristina observa, ainda, que mulheres mais jovens têm procurado se preparar para atuar no campo, buscando cursos e informações sobre as atividades que desejam desenvolver. “Ela se prepara, ela estuda, ela vai”, diz.
A formação aparece, assim, como um dos caminhos para ampliar a presença feminina e fortalecer sua participação nas decisões. Entretanto, o acesso ao conhecimento não elimina, por si só, as dificuldades enfrentadas por mulheres que desejam exercer funções de liderança.
CAPACITAÇÃO E AUTONOMIA
A pesquisadora Claudia De Mori, da Embrapa Pecuária Sudeste, destaca a capacitação como uma ferramenta importante para fortalecer a autonomia feminina no meio rural. Segundo ela, as mulheres podem enfrentar cobranças maiores em relação ao próprio conhecimento quando exercem atividades profissionais ou ocupam posições de liderança. “Usar a ferramenta da capacitação como uma ferramenta de autonomia, uma ferramenta de empoderamento, uma ferramenta de um certo grau de segurança para esse exercício é extremamente importante”, afirma.
A pesquisadora participou do desenvolvimento de iniciativas de formação voltadas a mulheres que atuam na pecuária. As atividades foram estruturadas a partir das demandas apresentadas pelas próprias participantes e reuniram conteúdos técnicos, conhecimentos de gestão e oportunidades de troca de experiências. De acordo com Claudia, a proposta surgiu da identificação de dificuldades enfrentadas por produtoras rurais e profissionais da assistência técnica para acessar capacitações. A partir dessas demandas, foram organizadas atividades que abordam desde o manejo de animais e pastagens até tecnologias e ferramentas aplicadas à produção.
Além da formação técnica, a iniciativa considera as condições necessárias para que as mulheres consigam participar. Responsabilidades familiares, cuidados com os filhos, horários de trabalho e dificuldades de deslocamento podem limitar o acesso a cursos e eventos profissionais. A pesquisadora também chama atenção para a composição dos espaços de formação no agronegócio. Segundo ela, a predominância masculina em eventos do setor pode afetar o conforto de algumas mulheres para fazer perguntas, manifestar opiniões e se posicionar. “Isso aparentemente parece que cerceia um pouco essa questão de um certo conforto de perguntar, de se colocar, de se posicionar”, explica.
Nesse contexto, a capacitação pode contribuir para que as mulheres se sintam mais preparadas para defender suas decisões e implementar mudanças nas propriedades. Claudia relata que participantes de cursos passaram a discutir questões técnicas com funcionários e a colocar em prática conhecimentos adquiridos durante as atividades. “Conhecimento é sempre libertador, no sentido de que você começa a ter mais informações e, com isso, consegue tomar melhores decisões, consegue ver caminhos diferentes, se sente muito mais respaldada com essa informação”, afirma.
Para a pesquisadora, ampliar a participação feminina exige mais do que incentivar as mulheres a ingressar no setor. Também é necessário criar condições para que elas tenham acesso à informação, desenvolvam suas competências e consigam exercer suas funções com autonomia.
MULHERES NA GESTÃO
A participação feminina também está presente na administração de cooperativas e na condução de negócios ligados ao agronegócio. Renata Miguel, diretora administrativa do Sicoob Pro, observa que mulheres cooperadas estão à frente de empresas e participam ativamente das atividades do setor. “Nós temos muitas cooperadas mulheres que estão à frente dos negócios também, que participam ativamente do agronegócio”, afirma.
Para Renata, a presença feminina nas equipes e nas lideranças deve ser considerada na construção de ambientes profissionais mais equilibrados. Ela reconhece que algumas famílias ainda mantêm posições conservadoras, mas avalia que, na realidade que acompanha, a participação das mulheres tem evoluído. Sua experiência no cooperativismo também evidencia a diversidade de funções que compõem a liderança no agronegócio. A gestão envolve decisões administrativas e financeiras, análise de crédito, organização de equipes e relacionamento com produtores. São atividades que influenciam o funcionamento dos negócios e exigem participação nos processos decisórios.
As experiências de Renata e Cristina demonstram que a atuação feminina pode assumir diferentes formas, desde a gestão de cooperativas até a administração direta de propriedades rurais. Em comum, está a participação das mulheres nas decisões e na condução dos negócios.
DESAFIO DO RECONHECIMENTO
Apesar das oportunidades existentes, a presença feminina em cargos de liderança não significa que as barreiras tenham desaparecido. A necessidade de demonstrar conhecimento, conquistar espaço para se posicionar e conciliar diferentes responsabilidades pode tornar o caminho profissional mais complexo para algumas mulheres.
Claudia observa que a predominância masculina em determinados ambientes pode dificultar a participação feminina. Por isso, defende a criação de espaços de capacitação que sejam confortáveis para todos. Embora iniciativas voltadas especificamente às mulheres possam funcionar como uma estratégia inicial, o objetivo deve contribuir para que elas também participem plenamente dos ambientes compartilhados.
A questão envolve, portanto, tanto o acesso às oportunidades quanto o reconhecimento da capacidade profissional. Não basta que as mulheres estejam presentes nas propriedades, empresas e cooperativas: é necessário que tenham condições de participar das decisões e que seus conhecimentos sejam considerados. Para Cristina, a confiança é fundamental para quem deseja ingressar no agronegócio. Ao aconselhar outras mulheres, ela afirma: “Eu acho que, em primeiro lugar, ela não tenha medo”.
A declaração se relaciona à importância de assumir responsabilidades e buscar os próprios objetivos sem se considerar inferior. No entanto, como demonstra a entrevista de Claudia, a confiança individual precisa ser acompanhada por oportunidades de formação e ambientes que permitam às mulheres exercer suas capacidades.
Ampliar a participação feminina também passa pela construção de redes de apoio e troca de experiências. Ao compartilhar conhecimentos e dificuldades, as mulheres podem encontrar novas possibilidades de atuação e fortalecer sua presença profissional. A capacitação, nesse sentido, não beneficia apenas o desenvolvimento individual, mas também pode contribuir para a criação de relações que favoreçam a permanência e o crescimento no setor.
ESPAÇOS E DECISÕES
A inserção feminina no agronegócio envolve diferentes realidades. Algumas mulheres assumem propriedades familiares, outras desenvolvem seus próprios negócios e há aquelas que constroem suas carreiras em empresas, cooperativas e instituições de pesquisa. Essa diversidade mostra que não existe um único caminho para a liderança no setor. As entrevistas com Cristina Lerosa, Renata Miguel e Claudia De Mori apontam para aspectos complementares dessa participação: a vontade de escolher o agronegócio como espaço profissional, a presença feminina em posições de gestão e a importância do conhecimento para exercer a liderança com autonomia.
Mais do que ampliar o número de mulheres no setor, o desafio é garantir que elas possam participar das decisões, desenvolver seus projetos e ter sua capacidade profissional reconhecida. Para isso, a iniciativa individual precisa caminhar junto ao acesso à formação, às oportunidades de trabalho e à construção de ambientes mais inclusivos. A presença feminina no agronegócio, portanto, não se resume à ocupação de funções. Ela também envolve a possibilidade de escolher, liderar e transformar a própria realidade profissional, participando ativamente dos rumos de um setor fundamental para a economia brasileira.
>
Orientação: Rogério Bazi
.
.
.
.
.
.
.















