Levantamento aponta 514 registros autodeclarados LGBT+ em 2026; Erika Hilton defende aproximar jovens da vida pública
Texto:Amelie Bortoluso e Laura Mendes
Imagens: Amelie Bortoluso e Fernando Orladin
“A gente tem que conseguir encantá-los” – A frase de Erika Hilton resume o desafio que a deputada federal apresentou ao falar sobre a relação entre política e juventude. Para alcançar uma geração acostumada à velocidade das redes sociais, é preciso atualizar a forma de comunicar sem abandonar a memória das lutas que sustentaram conquistas anteriores.

A declaração se deu após o encontro Do Pajubá à Política – saberes trans, representação e transformação social, realizado em Campinas em 22 de setembro. A discussão ocorreu em um momento de aumento da presença de pessoas que se identificam como LGBT+ nas eleições de 2026. Levantamento do Instituto Plena Cidadania, com base em registros eleitorais, identificou 514 candidaturas autodeclaradas LGBT+, alta de 57% em relação a 2022. Proporcionalmente, a participação passou de 1,12% para 2,5% do total de candidaturas, segundo o levantamento.
O crescimento numérico convive com relatos de obstáculos concretos para quem disputa espaço institucional. Isabelly Carvalho (PT), candidata a deputada estadual e primeira mulher trans eleita para a Câmara de Limeira, relatou que sua campanha é marcada por ataques. “É muito difícil me comunicar. Se posto um vídeo com propostas, não conseguimos uma troca saudável”, afirmou, ao descrever a violência política de gênero recebida nas redes sociais.
“Se fosse um homem do PT, da esquerda, será que ele seria tão atacado quanto eu? Acredito que não”
Isabelly Carvalho
Em Taubaté, a vereadora Talita de Lima Barbosa (PSB), autodeclarada lésbica e PcD (Pessoa com Deficiência), relatou que os ataques também podem se concentrar na identidade dos candidatos. “O ataque ou contra-ataque deles nunca é sobre os nossos argumentos ou ideias, mas sobre quem eu sou e sobre a minha capacidade de estar nesse espaço”, disse. Os depoimentos mostram que ampliar a presença de pessoas LGBTQIAPN+ nas eleições não encerra a discussão sobre as condições em que essa participação acontece.
“As nossas vidas são decididas em mesas que a gente não senta
e nós precisamos parar de ser o assunto da discussão”
Talita de Lima Barbosa
O direito à igualdade e à participação política integra o marco jurídico que orienta essa discussão. A Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece, no artigo 2º, que os direitos e liberdades devem ser assegurados sem distinção de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou outra condição. No Brasil, a Constituição Federal determina que todos são iguais perante a lei e estabelece, no artigo 14, que a soberania popular é exercida pelo sufrágio universal, pelo voto direto e secreto e por outros mecanismos de participação.
É nesse cenário que Erika Hilton propõe outra questão. Como fazer essa participação política chegar a uma geração que se informa, se comunica e se mobiliza por referências diferentes das de períodos anteriores? Para a deputada, o primeiro passo é entender os repertórios culturais que já fazem parte do cotidiano dos jovens e transformá-los em pontes para a discussão política. “A gente precisa entender como é que a gente atualiza também a nossa forma de fazer nosso discurso, nossa retórica para não ficar uma coisa que afaste, mas uma coisa que seduza. A gente tem que conseguir encantá-los”, afirmou.
Hilton defendeu o uso de elementos como música, moda, cultura ballroom, Vogue, estética e linguagens populares nas redes sociais como formas de aproximação. A comunicação não deve parar na identificação com esses universos. A proposta é utilizá-los como porta de entrada para apresentar a história por trás das conquistas que já fazem parte da vida cotidiana. “Não tem nada mais poderoso do que semiótica para disputar a juventude”, declarou, ao defender que signos culturais sejam associados à construção de novas formas de diálogo político.
A estratégia, segundo Hilton, não significa substituir memória por tendências. Ao contrário, o objetivo seria chegar ao jovem por uma linguagem que ele reconheça e, a partir daí, recuperar a trajetória social que tornou possíveis direitos e espaços atualmente ocupados. “A vida não começou aqui. Lá atrás teve luta, teve caminho, teve disputa social, teve que gente lutar, brigar para que as pessoas pudessem acessar o que elas acessam hoje”, disse.
Essa preocupação com memória apareceu em outra fala da deputada durante o encontro: “A história que contaram sobre nós é mentira. Nós temos que contar nossa história.” Em outro momento, Hilton relacionou a presença LGBTQIAPN+ à experiência de trabalho e pertencimento social: “O trabalhador também é LGBTQIA+, nós somos parte da classe trabalhadora.”
Os números das eleições e os relatos de quem já ocupa espaços institucionais apontam para uma mudança simultânea em duas frentes: mais pessoas que se identificam como LGBTQIAP+ estão entrando na disputa eleitoral, enquanto permanecem debates sobre violência, igualdade de condições e comunicação.
Mais do que disputar atenção, a proposta apresentada é usar novas linguagens para manter uma conversa entre tempos diferentes. Aproximar os jovens dos repertórios que já fazem parte de sua rotina e, ao mesmo tempo, transmitir a memória das lutas que antecederam as conquistas atuais.

“Não tem nada mais poderoso do que semiótica para disputar a juventude”
Erika Hilton
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