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ENTREVISTA – Psicólogo e psicanalista Vinicius Belbuche aponta caminhos para melhorar as marcas que a pandemia deixou
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Por Maria Eduarda Matoso e Yasmin Souza
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A pandemia de Covid-19 acabou oficialmente em maio de 2023, mas deixou marcas profundas em todo o país; seus efeitos foram especialmente intensos nas periferias brasileiras. Entre perdas, instabilidade financeira, aumento da violência e falta de acesso a serviços de saúde mental, moradores desses territórios mais marginalizados enfrentaram uma sobrecarga emocional fortíssima.
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Para entender como esse período afetou a saúde mental dessas comunidades e quais caminhos podem ajudar na recuperação, conversamos com o especialista Dr. Vinicius Douglas Santos Belbuche. Ele é psicólogo clínico e social, psicanalista e doutor em Psicologia Hospitalar. Formado pela Universidade São Francisco, atua há mais de 22 anos na área social, onde também é coordenador técnico social em uma OSC – Organização da Sociedade Civil.
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Dr. Vinicius Douglas Santos Belbuche em seu local de atendimento (Foto: Maria Eduarda Matoso)
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O que a pandemia escancarou sobre a desigualdade no acesso a serviços de saúde mental no Brasil?
Mostrou que o acesso à saúde mental ainda é um privilégio social. Classes médias conseguiram migrar para o atendimento online, enquanto moradores da periferia esbarraram em problemas de conectividade, falta de dispositivos tecnológicos e ausência de privacidade em casa para uma sessão terapêutica. Além disso, a rede pública de saúde mental já era insuficiente antes da pandemia, com CAPS sobrecarregados, filas longas e carência de profissionais. A pandemia deixou evidente a urgência de fortalecer a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), ampliar investimentos no SUS e garantir políticas de saúde mental que cheguem até os territórios mais vulneráveis.
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Depois de tantas perdas, que tipo de apoio concreto ainda falta para que a periferia consiga se recuperar emocionalmente?
O cuidado emocional só é possível quando há políticas sociais que sustentem minimamente a vida. Isso significa renda básica permanente, segurança alimentar, acesso a moradia digna, transporte e saneamento. Mas, além disso, faltam projetos de saúde mental comunitária: rodas de conversa em escolas, grupos terapêuticos nos CRAS, oficinas culturais e esportivas que funcionem como espaços de acolhimento e elaboração. Apoio concreto significa aproximar a saúde mental do cotidiano, e não a restringir a consultórios distantes da realidade da periferia.
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O que deveria ser prioridade hoje quando pensamos em políticas públicas de saúde mental voltadas para as periferias?
A prioridade deve ser territorializar o cuidado. Isso significa abrir mais CAPS em áreas periféricas, formar agentes comunitários em saúde mental, ampliar o número de psicólogos e assistentes sociais na rede básica e criar programas de prevenção que cheguem às escolas e coletivos comunitários. É necessário investir também em estratégias coletivas: grupos de apoio para famílias enlutadas, projetos de enfrentamento à violência e iniciativas de promoção cultural e esportiva como parte do cuidado psicológico. A saúde mental não deve ser vista apenas como tratamento de doença, mas como promoção de bem-estar comunitário.
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Como a pandemia afetou a saúde mental de quem vive nas periferias, onde as condições de moradia e trabalho já eram mais vulneráveis?
A pandemia chegou às periferias como um fenômeno de múltiplas camadas. Para além da ameaça do vírus em si, ela escancarou desigualdades históricas: casas pequenas, falta de saneamento básico, necessidade de se locomover em transportes coletivos lotados, ausência de espaços de lazer e a dependência de trabalhos informais. Isso significa que o “ficar em casa” tão difundido como estratégia de proteção, não foi vivido como um espaço de cuidado, mas muitas vezes como um ambiente de sobrecarga, conflitos e restrições severas. Do ponto de vista psíquico, isso gerou altos níveis de estresse, sensação de falta de controle sobre a própria vida e intensificação de quadros de sofrimento mental já existentes.
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O medo da perda de emprego e da falta de renda agravou os quadros de ansiedade e depressão nessas regiões?
Sem dúvida. Para quem já vivia em condições de instabilidade, a pandemia trouxe um medo concreto de não conseguir alimentar a família, pagar o aluguel ou manter uma mínima dignidade. Esse cenário de incerteza mobilizou altos níveis de ansiedade, que se manifestaram em insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração e sintomas somáticos. O desemprego e a insegurança financeira funcionaram como gatilhos para depressão, ampliando sentimentos de desesperança e inutilidade. É importante compreender que, nas periferias, sofrimento mental não pode ser separado das condições materiais de sobrevivência: saúde psíquica e segurança econômica caminham juntas.
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O luto foi ainda mais intenso em comunidades periféricas, que tiveram altos índices de mortes por Covid-19. Como lidar com essa dor coletiva?
O luto vivido nas periferias foi duplo: pela perda de pessoas queridas e pela percepção de que muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas se houvesse igualdade no acesso à saúde. Essa vivência coletiva de morte sem despedida adequada, sem rituais tradicionais, trouxe sensação de injustiça, revolta e abandono. Lidar com essa dor exige reconstruir rituais comunitários de memória, criar espaços coletivos de escuta e expressão cultural, como rodas de conversa, grupos religiosos, projetos de arte e movimentos sociais que deem significado à perda. O luto coletivo precisa ser acolhido de maneira comunitária, porque individualizá-lo seria negar sua dimensão social.
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“É importante compreender que, nas periferias, sofrimento mental
não pode ser separado das condições materiais de sobrevivência:
saúde psíquica e segurança econômica caminham juntas”
Dr. Vinicius Belbuche
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O isolamento social foi diferente na periferia, onde muitas famílias vivem em casas pequenas e com pouca estrutura. Que impactos psicológicos isso trouxe?
O isolamento na periferia significou confinamento em espaços reduzidos, muitas vezes com várias pessoas compartilhando um ou dois cômodos. Essa realidade gerou desgaste emocional, maior exposição a conflitos familiares, sobrecarga para mulheres (que acumulavam cuidado com filhos, idosos e trabalho doméstico), além de sensação de aprisionamento. Crianças e adolescentes, privados de espaços públicos e escolares, perderam referências de convivência e atividades de desenvolvimento. O impacto psicológico foi traduzido em aumento de irritabilidade, ansiedade, sentimentos de opressão e, em alguns casos, violência.
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Crianças e adolescentes periféricos ficaram sem escola por muito tempo. Quais efeitos emocionais essa ruptura pode gerar no futuro?
A escola, nas periferias, não é apenas um lugar de aprendizado acadêmico: é também espaço de socialização, de alimentação regular (merenda escolar), de proteção contra situações de violência e, muitas vezes, o único ambiente estruturado da rotina de crianças e adolescentes. A ausência prolongada trouxe prejuízos cognitivos, atraso na alfabetização, intensificação da evasão escolar e maior exposição a contextos de risco, como violência doméstica e exploração do trabalho infantil. No campo emocional, há efeitos de insegurança, baixa autoestima, dificuldades de socialização e sensação de exclusão em relação a pares de contextos sociais mais privilegiados. Isso pode gerar impactos de longo prazo na construção da identidade e no acesso a oportunidades futuras.
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A violência doméstica e comunitária aumentou durante a pandemia. Como isso repercute na saúde mental desses moradores?
A violência funciona como uma ferida coletiva que se repete no íntimo das pessoas. Dentro de casa, mulheres e crianças ficaram mais expostas a situações de abuso físico, psicológico e sexual. Nos territórios, a crise econômica e social intensificou disputas ligadas ao tráfico, à criminalidade e à repressão policial. Essa vivência constante de ameaça produz um estado de hipervigilância: medo, ansiedade crônica, insônia e, em muitos casos, sintomas de transtorno de estresse pós-traumático. Além disso, a naturalização da violência como parte inevitável da vida cotidiana dificulta que os moradores reconheçam o direito a viver sem medo.
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Que caminhos a psicologia pode propor para reduzir o abismo social no cuidado com a saúde mental?
A psicologia social tem o papel de articular teoria e prática para enfrentar desigualdades. Alguns caminhos possíveis são:
Atuação comunitária: promover grupos de escuta, práticas coletivas de cuidado e valorização das redes sociais de apoio já existentes nos territórios.
Defesa de políticas públicas: a psicologia precisa se colocar politicamente, defendendo o SUS, os CAPS e a ampliação da RAPS como direito universal.
Educação popular em saúde mental: traduzir conceitos psicológicos em linguagem acessível, valorizando saberes comunitários e integrando-os ao cuidado
Parcerias com lideranças locais: trabalhar junto com associações de bairro, coletivos culturais, projetos sociais e movimentos religiosos que já exercem papel de cuidado comunitário.
Desnaturalizar desigualdades: denunciar a ideia de que sofrimento periférico é “normal” ou inevitável, mostrando que ele é resultado de desigualdades estruturais.
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Orientação e edição: Adauto Molck
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