Alunos aprendem a respeitar as expressões tradicionais de matrizes africanas, alternativa para o ensino histórico e cultural
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Por Raquel Piveta e Valentina Sclauser
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Patrimônio cultural imaterial de Campinas desde 2013, o Jongo é uma forma de expressão e comunicação afro-brasileira desenvolvida no contexto da escravidão. Vindo principalmente do Sudeste, servia como estratégia de sobrevivência ao circular informações codificadas através de metáforas em cantigas, de acordo com a Alessandra Ribeiro, liderança e mestre da Comunidade Jongo Dito Ribeiro.
O professor Marcus Vinícius da Silva contribui na organização das atividades de matrizes africanas na Escola Associativa Waldorf Veredas, a fim de garantir aos alunos experiências ligadas a diferentes tradições culturais. “É uma maneira de reconhecer formas de expressão cultural, tanto para aqueles reconhecem a sua própria cultura dentro da escola, como aqueles aprendem a reconhecer outras formas de manifestação cultural”, frisa.
A direção da Escola Associativa Waldorf Veredas sempre realiza eventos com a Comunidade Jongo Dito Ribeiro, segundo o professor André Rosa, da coordenação da escola, que afirma que o convite é uma tradição anual para que os alunos reconheçam a importância de conhecer diferentes expressões culturais que contam a história do próprio país.
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No jongo, desde pequenos as crianças são ensinadas a valorizar suas tradições e culturas (Foto: Raquel Piveta)
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A estudante Luiza Yaari participa há quatro anos das atividades e enfatiza que a cultura contribui para a união de um grupo. “Eu sinto que a vivência me agregou muito, mas o Jongo tem esse caráter de ser uma comemoração grupal, uma dança grupal. Mesmo quem não está dentro da roda, está ali com a roda aberta, abriu a roda junto. Tem uma energia constante, muito marcante”, conta.
Para o professor Marcus Vinícius, ter o Jongo nas escolas contribui a formar os alunos em cidadãos de diversas maneiras, especialmente por proporcionar uma visão de mundo mais aberta aos estudantes. “É uma forma de apresentar expressões culturais que eles provavelmente não teriam contato fora desse ambiente, mostrando visões de mundo diversificadas”.
Criada dentro da comunidade do jongo, Bianca Lúcia Ribeiro, bisneta de Benedito Ribeiro, que trouxe o jongo de Minas Gerais para Campinas, reforça a importância do jongo em diversas áreas da vida de quem o vivencia. “Foi através do Jongo que eu me formei academicamente, tive minhas oportunidades trabalhistas, entendi que eu posso sobreviver e viver a partir da cultura e da tradição. Então, o Jongo é não só comunicação, mas é abertura de caminhos, possibilidades, encontro e conexão. É o criar de possibilidade a partir de ser uma jovem jongueira”, diz.
Bianca Lúcia Ribeiro, jovem liderança da Comunidade Jongo Dito Ribeiro, relata como estar dentro da comunidade do Jongo pode influenciar diretamente na busca pela educação
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Na opinião de Bianca, o Jongo também ajuda o jovem na sua formação não apenas acadêmica, mas como cidadão. “Por ser uma dança originalmente criada como forma de comunicação, é algo feito essencialmente em grupo, ensinando todos aqueles que participam a conviver e trabalhar em comunidade”, afirma.
O professor André Rosa diz que “o ensino de história e cultura afro-brasileira como algo obrigatório é essencial para combater um racismo enraizado que cresce, muitas vezes, pela falta de conhecimento devido a uma educação centrada na cultura europeia. No entanto, a participação do povo negro teve grande impacto na formação histórica e cultural do Brasil, e mostrar isso nas escolas é ensinar a valorização da própria cultura através de valores que perpassam a história”, afirma.
As letras dos cantos de jongo são letras muito libertárias. “Nos ajuda a compreender a forma como o país se organizava, com estrutura escravocrata, e ajuda os alunos a reconhecer como essas relações sociais aconteciam no país”, frisa o professor Marcus Vinícius.
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Orientação: Prof. Rose Bars
Edição: Raquel Piveta

