Instalação será o primeiro laboratório NB4 da América Latina e o único no mundo conectado a uma fonte de luz síncrotron
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Por Júlia Domingues, Marília Coimbra e Henrique Alves
Começou oficialmente em Campinas-SP a construção do Projeto Orion, o primeiro laboratório de biossegurança nível 4 (NB4) da América Latina. O empreendimento, que integra o campus do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), será também o único do mundo com conexão direta a uma fonte de luz síncrotron, o acelerador de partículas Sirius.
Com orçamento previsto entre R$ 1 bilhão e R$ 1,5 bilhão, o complexo representa um marco para a pesquisa científica no Brasil. A proposta é dotar o país de infraestrutura capaz de estudar com segurança agentes biológicos altamente perigosos, como o vírus Sabiá (associado à febre hemorrágica brasileira), Junín e Machupo, além de doenças virais comuns em áreas tropicais, como dengue, zika e chikungunya.
Laboratório NB4
Os laboratórios de nível de biossegurança 4 (NB4) são os mais restritivos que existem. São projetados para manipular microrganismos com alto potencial de contágio e letalidade, geralmente sem vacina ou tratamento disponível. As exigências de segurança incluem trajes pressurizados, filtros especiais de ar, múltiplas barreiras físicas e controle rigoroso de acesso.
No caso do Orion, a entrada nas áreas mais sensíveis será feita por meio de reconhecimento da íris, e todos os cientistas deverão utilizar equipamentos de proteção com pressão positiva, o que impede que agentes patógenos entrem nas roupas mesmo em caso de vazamento.
Conexão com o Sirius
Um dos diferenciais do Orion será sua conexão com o Sirius, o maior acelerador de partículas do hemisfério sul. Essa estrutura gera luz síncrotron, um tipo de radiação que permite visualizar estruturas moleculares em altíssima resolução. Três linhas de luz — batizadas de Sibipiruna, Timbó e Hibisco — estarão dedicadas à análise tridimensional de patógenos, o que poderá acelerar o desenvolvimento de vacinas, medicamentos e diagnósticos.
Segundo o CNPEM, essa integração é inédita e pode colocar o Brasil na vanguarda mundial da pesquisa em biossegurança.
O complexo ocupará cerca de 20 mil metros quadrados e abrigará laboratórios dos níveis NB2, NB3 e NB4, além de instalações de apoio para bioimagem, diagnóstico molecular e testes pré-clínicos. Um destaque é o laboratório “mock-up”, uma réplica das instalações de contenção máxima, que permitirá o treinamento de equipes em protocolos de segurança sem exposição real aos agentes biológicos.
Financiado com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), o Orion deve ter as obras concluídas até 2026. A previsão é que entre em operação em 2028, após testes e certificações internacionais.

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O que ainda falta?
Apesar da dimensão do projeto, o CNPEM ainda não detalhou quais parcerias internacionais estão previstas, nem como será feita a seleção de projetos de pesquisa ou o acesso por cientistas de outras instituições. Também não há menção aos protocolos éticos, ambientais ou à escuta de comunidades locais, o que levanta questões sobre transparência e governança — aspectos essenciais em megaprojetos de risco biológico. O desafio será manter o equilíbrio entre ambição tecnológica e responsabilidade social. Assista o vídeo institucional de anúncio do projeto.
Edição: Nicole Heinrich
Orientação: Artur Araujo

