Reportagens

Lavagem com água reduz resíduos nos alimentos

Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) levantou preocupações nos consumidores em relação às irregularidades encontradas em 36,4% das amostras de alface pesquisadas e 31% nas de tomate. Sendo detectadas ou níveis superiores ao limite máximo de resíduos (LMR), ou o uso de agrotóxicos não autorizados para esta produção.

Porém, empresas produtoras de agrotóxicos, como a Bayer, afirmam que a toxicologia desses alimentos considerados irregulares não revela números tão alarmantes. Tanto que, em fevereiro deste ano a ANVISA publicou uma nota técnica que ressalta a diminuição drástica de resíduos com a simples lavagem em água corrente. A alface tem 45% de seus resíduos diminuídos e o tomate, 80%.

 

Centro de pesquisa da Bayer em Socorro-SP produz diversos tipos de frutos e hortaliças para monitorar a quantidade de resíduos com o uso dos defensivos agrícolas da empresa

 

O estudante de 21 anos, Johnny Ueda acredita que o maior problema é que a informação pode não chegar de forma clara, “tem que ter consciência que a solução pode ser mais fácil que parece, mesmo não concordando com o uso de veneno, todo mundo tem que sempre lavar o que come por segurança.”

O uso de agrotóxicos se tornou uma ferramenta necessária para a produção em massa de alimentos, “a agricultura não é algo natural, ela facilita as nossas vidas, mas também a dos inimigos das plantas, bichos e pragas”, explica o Dr. Heitor Cantarella do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), “não conseguimos alimentar o mundo apenas com agricultura orgânica.”

 

O consumidor é o principal fator a afetar hortifrúti em 2017

A busca para a diminuição máxima dos resíduos é importante não só para o consumidor, mas também para a representação dos produtores brasileiros. Apesar da agricultura brasileira ser mais reconhecida pela produção da soja e cana-de-açúcar, o Brasil é o oitavo maior produtor de tomate do mundo, segundo uma publicação da revista Hortifruti da organização homônima da Esalq da Universidade de São Paulo (USP).

São cerca de 63 mil hectares no Brasil (equivalente a 630 mil quilômetros quadrados) cultivados com diferentes tipos de tomate, podendo atingir uma produção de 3,5 milhões de toneladas. Já a alface, de acordo com a Associação Brasileira do Comércio de Sementes e Mudas (ABCSEM), é a terceira hortaliça em maior volume de produção no Brasil, desde o grande ao pequeno agricultor.

Garantir a confiança do brasileiro se tornou mais importante esse ano, já que, segundo a organização Hortifruti Brasil da USP, o cenário econômico indica que o bolso do consumidor pode continuar apertado. Enquanto em 2015 o pior fator foi o clima e em 2016 foram os custos de repasse do câmbio nos preços dos insumos que afetaram a produção, esse ano existe o risco de haver mais oferta de frutas e hortaliças de um clima mais favorável, mas menos consumidores, afetando o preço e a rentabilidade.

 

O agrotóxico na agricultura familiar

Um dos pequenos agricultores no Brasil é José Stoco, de 71 anos, que com sua família produzem alface e algumas outras hortaliças e tomate para um mercado de Indaiatuba. “Nós colocamos só [a quantidade de agrotóxico] que é permitido”, conta Stoco, “toda a semana vem um agrônomo profissional verificar a produção.”

O tipo e quantidade de agrotóxico é sempre de acordo com as necessidades apontadas pelo agrônomo que inspeciona, explica Estela Martins, 30, nora de José: “É como se fosse um receituário médico. Ele vem, analisa e receita exatamente o que a planta precisa naquela semana.”

Vindo de gerações de trabalho na roça, José Stoco trabalha todos os dias com a família, a esposa, dois filhos e noras produzindo em maior quantidade a alface. Ele chegou a trabalhar com uva, cana-de-açúcar e café, mas hoje afirma que prefere continuar na produção de folhosas, “a verdura é mais rápida na produção e o retorno também, os outros são bem mais demorados.”

Ainda assim, engana-se quem pensa que a roça é lugar de sossego. O trabalho é de domingo a domingo e não há férias como é conhecido nas zonas urbanas, Estela conta que com a menor demanda comparada à época de verão e primavera, “os invernos são nossas ‘férias’, podemos levantar mais tarde, umas 4h ou 5h.”

 

Como é a produção da alface em agricultura familiar

O trajeto da alface, da semente à prateleira, chega a durar em torno de 25 a 40 dias, dependendo das condições do clima e solo. A semente natural é minúscula, para protegê-la de insetos e garantir maior produtividade, a família Stoco investe em sementes já revestidas de vitaminas. Mesmo assim, como pode-se observar na foto a seguir, a semente quase some entre os dedos do agricultor. Em uma semana, ela estará uma muda formada e pronta para ser inserida no canteiro.

José Stoco, 71, é um agricultor familiar que se especializou em alface, entre os dedos segura uma semente da hortaliça revestida de vitaminas

Para maior segurança do alimento, as sementes são colocadas uma a uma em bandejas de isopor, com a quantidade exata de terra para que a plante se desenvolva propriamente antes de ir para a terra. Cada bandeja de isopor cabe 200 mudas, uma peça de plástico faz os buracos na terra, para que sejam todos de um centímetro de profundidade. Em seguida, as sementes são cobertas e guardadas em uma estufa.

As bandejas usadas pela família Stoco suportam 200 sementes, José planta-as uma por vez.

 

Com uma produção contínua, Stoco recolhe as mudas que já estão prontas para serem inseridas no solo. Elas são levadas para outra estufa e plantadas.

Mudas de alface em estado ideal para serem inseridas no solo são levadas ao canteiro já preparado para recebê-las

 

Com a ajuda da esposa Olivia, o agricultor retira com cuidado as mudas formadas e as insere no canteiro, são cerca de mil mudas plantadas por dia.

José Stoco e esposa Olivia trabalham juntos para plantar mais de mil mudas diariamente na terra

 

Seguindo as medidas impostas pelo agrônomo responsável, os agricultores usam de defensivos agrícolas para combater pragas e bichos que persistem em atacar suas plantações.

Mesmo a agricultura familiar faz uso de agrotóxicos para garantir a segurança do alimento contra pragas, mas sempre na quantidade indicada por profissionais qualificados

 

A família levanta de madrugada para colher e enviar as hortaliças maduras para o mercado. O horário varia com a demanda, podendo acordar às 2h em épocas como o verão que tem mais pedidos, e às 4h no inverno, que são consideradas umas férias por permitir uma jornada de trabalho mais curta.

Na escuridão da madrugada, os olhos de José se ajustam para colher as alfaces

 

Depois de colhida, quilos de alface ainda passam por um processo de preparo antes de serem encaixotadas para o mercado. Em um espaço pequeno, mas organizado, a família trabalha antes mesmo do sol raiar.

Em um espaço pequeno, mas organizado, os agricultores se organizam para preparar a hortaliça para o consumidor

 

Para ganhar tempo, a família se divide em tarefas: um limpa, outro faz a lavagem e o último amarra e encaixota. Antes mesmo da alface chegar ao consumidor, ela já passou por um tipo de processo de lavagem, com a eliminação das folhas amareladas e do excesso de terra.

Antes de ser enviada ao mercado, a alface é limpa de folhas imperfeitas e excesso de terra, amarrada e encaixotada

 

Quando todo esse processo é finalizado e com a ajuda da luz da manhã, as caixas são colocadas no caminhão para serem transportadas ao mercado. Lá, são conservadas em prateleiras refrigeradas para garantir sua qualidade nos olhos do consumidor.

Até que, enfim, as caixas são levadas para o caminhão, para serem levadas ao mercado

 

Essa rotina pode parecer muito para os que são acostumados com as profissões urbanas, mas o trabalho nunca assustou José Stoco, para ele “é muito bom ser o próprio chefe, poder almoçar a hora que quer e gerenciar o próprio serviço.” Seu conselho para quem entra no mercado de agricultura é que “tem que gostar do que faz e do que produz. Tem que ter amor no que está fazendo, senão, não funciona.”

 


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Digitais é um produto laboratorial da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas, com publicações desenvolvidas pelos alunos nas disciplinas práticas e nos projetos experimentais para a conclusão do curso. O layout foi desenvolvido em parceria com o Departamento de Desenvolvimento Educacional (DDE) da instituição. Alunos monitores/editores de Agosto a Dezembro de 2017: Breno Behan, Breno Martins, Caroline Herculano, Enrico Pereira, Giovanna Leal, Láis Grego, Luiza Bouchet, Rafael Martins. Professores responsáveis: Edson Rossi e Rosemary Bars. Direção da Faculdade de Jornalismo: Lindolfo Alexandre de Souza.

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