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Produção noticiosa dos alunos de Jornalismo | PUC-Campinas

Guerra no Oriente Médio impacta economia mundial

Conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã ameaça rotas estratégicas de petróleo e pressiona comércio global, gerando impactos que podem atingir até mesmo o Brasil

Por Clara Dejean, Lara Gallo e Valentina Sclauser

Iniciado no último dia 28 de fevereiro, o conflito no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, produz efeitos que ultrapassam as fronteiras da região. A atual escalada ocorre em meio a ataques e retaliações entre os países, com ofensivas direcionadas principalmente a instalações militares e estratégicas, mas com milhares civis também atingidos

Segundo o professor de geopolítica e especialista em Oriente Médio, Victor Begeres Bisneto, os ataques recentes buscam enfraquecer a capacidade militar iraniana, especialmente relacionada ao desenvolvimento de tecnologia nuclear. “O grande temor agora é uma escalada regional. O Irã está bombardeando bases americanas em países vizinhos, que é o que dá para fazer, já que eles não conseguem atacar o território dos Estados Unidos. É uma luta pelo controle do espaço aéreo”, explica o professor.

Com a intensificação do conflito existe a possibilidade de fechamento do Estreito de Ormuz, rota por onde passam cerca de 20% do petróleo e do gás comercializados no mundo. Os impactos sobre a economia global e o comércio internacional podem se estender a diversos países, incluindo o Brasil. O cenário global ainda é incerto em relação ao comércio exterior e a diplomacia dos países envolvidos. Por isso, os próximos movimentos desse conflito devem ser decisivos para definir até onde esses efeitos podem chegar.

Para a diretora do curso de Relações Internacionais da PUC Campinas, Professora Doutora Kelly de Souza Ferreira, o impacto nacional vai muito além do aumento do valor do combustível fóssil.

O Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, declarou que o Brasil pode sofrer com escassez, por exemplo, no recebimento de insumos para produção de medicamentos. Ou seja, o impasse também está em rotas comerciais, já que o trajeto marítimo é essencial para o intercâmbio de produtos.

Rota da economia global 

A região do Golfo Pérsico ocupa um papel estratégico na circulação de recursos energéticos e nas rotas do comércio internacional. Segundo Adauto Ribeiro, professor de economia na PUC-Campinas, o conflito ocorre em “uma região economicamente muito importante na dinâmica da economia global”, tanto pela produção de energia quanto por sua localização entre o Ocidente e o Oriente, funcionando como um importante centro de transporte entre essas duas regiões. 

Uma perturbação duradoura nessa área pode afetar diretamente o transporte de matérias-primas essenciais para vários setores econômicos. Importações, exportações e viagens internacionais podem ser impactadas, como observa Ribeiro.

O Estreito de Ormuz, passagem marítima que liga o Golfo Pérsico ao oceano Índico, concentra grande parte dessas preocupações. Aproximadamente um quinto do petróleo consumido no mundo passa diariamente por esse estreito. Um bloqueio ou mesmo uma paralisação parcial da rota teria consequências imediatas para os mercados energéticos. “O principal mercado afetado é o de energia, em especial, petróleo e gás”, explica Ribeiro. “A interrupção de produção e de transporte levará a um aumento de preço desta matéria prima, que ocasionará um aumento de custos para os bens industriais, o que resultará em uma taxa de inflação maior no mundo”, complementa o professor.

Caso essa pressão inflacionária se intensifique, governos podem recorrer à elevação das taxas de juros para conter a alta dos preços. Porém, essa estratégia também tende a desacelerar a atividade econômica global. Como ressalta o economista, se os países adotarem essa medida, “isto levará a uma queda na demanda e na taxa de crescimento da economia em muitos países”.

Para alguns analistas, a dimensão do impacto dependerá principalmente da duração e da expansão do conflito. O assessor contábil, Ataides Rufino da Silva, afirma que se o confronto permanecer limitado geograficamente, os efeitos podem ser relativamente controlados. No entanto, um conflito prolongado poderia gerar dificuldades de abastecimento para países dependentes do petróleo iraniano, como a China. Segundo ele, isso poderia provocar “paralisações por falta de matéria prima e combustível”, mesmo que alguns países consigam buscar alternativas, como petróleo proveniente da Rússia ou um aumento da produção por parte da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).

Os mercados financeiros também costumam reagir rapidamente a crises geopolíticas dessa magnitude. Segundo Ribeiro, diante da incerteza, investidores tendem a procurar ativos considerados mais seguros. “O mercado financeiro é arisco, qualquer risco ele reage fugindo para ativos reais”, afirma. Nesse cenário, a riqueza busca refúgio “no ouro, em criptomoedas ou em moedas com altas taxas de juros, ou com maior credibilidade”. Esse movimento pode elevar as taxas de juros e reduzir o ritmo do crescimento econômico.

Se os preços do petróleo continuarem subindo, alguns setores da economia global devem ser os primeiros a sentir os efeitos. O transporte está entre os mais vulneráveis, pois depende diretamente do combustível. Ribeiro explica que o aumento dos custos logísticos acabará sendo repassado para os preços dos produtos.

Questão histórica

As relações entre Irã e EUA não são recentes. O que hoje é uma rivalidade marcada por ameaças nucleares e guerras por procuração, já foi uma aliança estratégica baseada em petróleo e contenção regional.

O primeiro grande ponto de tensão ocorreu em 1953, quando o Irã, sob o comando do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, decidiu nacionalizar a indústria petrolífera, até então controlada por interesses americanos e britânicos, dada sua dependência do petróleo do Oriente Médio. A “operação Ajax”, orquestrada pela agência de inteligência americana (CIA) e pelo serviço secreto de inteligência britânico (SIS), derrubou por um golpe de Estado o primeiro governante iraniano eleito democraticamente.

Como destaca o professor Victor Begeres, esse “atentado à democracia iraniana” serviu para consolidar o poder do Xá Reza Pahlavi, um monarca alinhado aos interesses ocidentais. Embora tenha promovido uma modernização acelerada e secular, o governo do Xá não era visto com bons olhos por grande parte da população.

Foi então, na Revolução Islâmica de 1979, que o descontentamento popular com a intromissão estrangeira e a crise econômica implodiu: milhões de pessoas foram às ruas exigindo mudanças políticas, justiça e o fim da monarquia. Com o Xá Reza Pahlavi deposto, o Aiatolá Khomeini, símbolo da revolução, retornou ao Irã e estabeleceu uma república teocrática islâmica. “Ele (Khomeini) mudou a orientação política e ideológica contra os Estados Unidos. Foi aí que ele criou aquela nomenclatura: o ‘Grande Satã’, que eram os Estados Unidos e o ‘Pequeno Satã’, que era Israel, país que sempre teve um apoio muito grande dos americanos”, explica o professor.

Um dos episódios mais tensos dessa ruptura foi a invasão da embaixada americana em Teerã, no qual 52 norte-americanos foram mantidos reféns por 444 dias, em apoio à Revolução Islâmica. Além disso, a relação entre Israel e Irã também se rompeu após 1979, já que o novo regime iraniano passou a apoiar a causa palestina e a oposição a Israel como pilares de sua identidade política e religiosa. 

O cenário atual é agravado por uma crise de liderança. Após a morte de Khomeini em 1989, Ali Khamenei assumiu o posto, ocupando-o até os recentes eventos de instabilidade, quando foi morto. No domingo, 08 de março, foi  anunciado Mojtaba Khamenei, filho do líder assassinado, como novo líder supremo do país.

“Desde 79, o Irã teve basicamente dois líderes supremos. Um dos candidatos possíveis para o lugar de Khamenei seria seu filho, mas digamos que a população não veria isso com bons olhos, porque ocupar o lugar do pai configura uma monarquia, que é exatamente o que eles derrubaram na revolução”, analisa Begeneres.

Para o especialista, o maior desafio para o Ocidente e para a própria resistência interna não é apenas a troca de nomes, mas a estrutura do Estado. Ele alerta para uma dura realidade geopolítica, “você pode derrubar um líder, como eles fizeram matando o Khamenei, mas você não consegue derrubar o regime. Uma coisa é tirar a liderança, outra é substituir o regime que está em vigor há décadas.”

Com a morte do líder Ali Khamenei o confronto toma outros rumos e evidencia a potência por busca territorial estadunidense. No áudio a seguir, a professora Kelly Ferreira aborda questões envolvendo políticas internacionais que influenciaram esse ataque.

Urânio no foco do conflito

O enriquecimento de urânio aparece como um dos pilares para justificar o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã. Esse processo, que consiste em aumentar a concentração de urânio-235, pode ser utilizado tanto para fins civis, como a geração de energia, quanto para fins militares, na produção de armas nucleares, um dos principais pontos de preocupação mundial. 

Nesse cenário, programas nucleares, como o iraniano, são observados com grande desconfiança, pois podem desencadear novos ciclos de competição militar e alterar o equilíbrio de poder entre diferentes países. “Teve durante muito tempo a ideia de desarmamento. Então, todo mundo se atenta. Mas muitos países estavam desencorajados a ceder as suas armas”, afirma Kelly Ferreira. 

O poder desse tipo de armamento está na sua função estratégica de dissuasão, que afronta e pode conter os adversários. “A questão não é você ter a intenção de usar. O fato de você ter uma arma nuclear já serve como elemento dissuasório”, explica a professora de relações internacionais. Nesse sentido, para países que se sentem ameaçados por potências militares, a busca por capacidade nuclear pode funcionar como uma tentativa de evitar intervenções externas, ainda que isso aumente as tensões e preocupações no cenário internacional. 

O argumento de que o Irã enriquece urânio para fabricação de bomba nuclear sempre é utilizado pelos Estados Unidos. Mesmo após uma verificação feita em 2015 pela Agência Internacional de Energia Atômica que apontou ausência de atividades relevantes para o desenvolvimento de explosivos nucleares após 2009, o país norte americano insiste nesse ponto. A professora Kelly explica que esse tipo de tensão é um importante elemento dissuasório, “não é que se planeja usar, se planeja ter (a tecnologia) para justamente evitar exatamente o que aconteceu, uma invasão americana”. 

Durante os primeiros nove dias de guerra (até a elaboração desta reportagem) os ataques de Estados Unidos e Israel atingiram de forma grave, porém não total, as usinas nucleares Fordo, Natanz e Isfahan do Irã.


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Orientação: Profa. Karla Ehrenberg
Edição: Luísa Viana