Imunidade e juventude atraem consumidores, que enfrentam riscos para a saúde
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Por Lara Nave
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O consumo de suplementos alimentares está presente em 54% dos lares brasileiros, o que representa a popularização de produtos antes recomendados apenas para atletas e pacientes com deficiências nutricionais específicas. Os dados, levantados pela Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (ABIAD), apontam que, entre os entrevistados, 76% admitiram não fazer qualquer dieta e revelaram falta de acompanhamento de um médico ou nutricionista.
Dados do Global Wellness Institute, apontam que entre 2019 e 2023, esse número cresceu. Assim, os gastos per capita com o bem-estar – nutrição, fitness, saúde mental, sono e beleza – cresceram 5,9% ao ano. Produtos associados à melhora da imunidade e à manutenção da juventude encontram terreno fértil nas redes sociais, com influenciadores digitais impulsionando suplementos que parecem inofensivos, mas que podem trazer riscos importantes à saúde.
O clínico geral Saulo Rodrigues, explica que a suplementação só deve ocorrer em casos de necessidade comprovada. “A gente só deve repor nutrientes, vitaminas e proteínas se estiverem em falta. Acham que um multivitamínico ou um soro de imunidade vai melhorar a saúde, mas não é assim que funciona”, afirma. Ele alerta que essas substâncias em excesso no organismo podem levar a arritmias, insuficiência renal e até parada cardíaca em casos graves.
O médico relembra um caso que testemunhou, quando um paciente estava sendo tratado com vitamina D por um tempo prolongado. Ele conta que o paciente precisou de diálise ( tratamento médico que substitui a função dos rins ). “O quadro evoluiu para várias complicações durante a internação e ele morreu”, disse.
A Associação Paulista de Medicina (APM) destaca complicações frequentes do uso indiscriminado de suplementos: interações medicamentosas, toxicidade por excesso de nutrientes, mascaramento de doenças, dependência psicológica e até contaminação dos produtos. Rodrigues dá exemplos de interações medicamentosas, como ferro prejudicando absorção de fármacos e excesso de proteína piorando a função renal em hipertensos e diabéticos.
Além da procura espontânea por suplementos, a exposição a propagandas e influenciadores digitais contribui para o consumo sem critério. A farmacêutica Ana Paula Tanno observa que suplementos muitas vezes são vistos como inofensivos e podem ser adquiridos facilmente, sem receita, tanto em farmácias quanto pela internet.
“Existe um marketing muito forte por trás desses produtos. Às vezes uma blogueira indica uma gominha de creatina e milhares de pessoas passam a consumir sem orientação”, afirma Ana Paula. Ela complementa dizendo haver produtos sem eficácia comprovada, como colágeno para a pele via oral.
Segundo a farmacêutica, há denúncias de adulteração de produtos vendidos online. “Esses produtos continham anabolizantes ou anti-inflamatórios sem aviso no rótulo. Isso é extremamente grave, porque mascara sintomas, sobrecarrega fígado e rins e pode levar a infartos ou falência hepática.”
O perigo da automedicação fica evidente nos relatos de consumidores. Letícia Bortolin, por exemplo, conta que já utilizou diferentes tipos de suplementos e medicamentos sem acompanhamento profissional. Entre eles, multivitamínicos que começaram a provocar fisgadas no fígado. “Assim que parei de tomar, os sintomas desapareceram”, relata. Letícia também chegou a usar um medicamento emagrecedor que provocava tremores e dormência nos lábios, sinais de sobrecarga no sistema nervoso.
História semelhante viveu Gabriel Almeida, jovem adepto de treinos de academia. Após consumir um pré-treino, ele relata ter sentido coceira, suor excessivo e tremores. Assim como Letícia, ele nunca procurou acompanhamento médico para avaliar se havia de fato necessidade de suplementação.
Na prática clínica, os impactos da suplementação indiscriminada têm se tornado recorrentes. A endocrinologista Paula Fernanda Cardoso explica que deficiências nutricionais muitas vezes não existem, e os sintomas de cansaço atribuídos à falta de vitaminas podem estar relacionados a má alimentação e desidratação.
Ela relata casos graves de intoxicação, como pacientes que desenvolveram síndrome de Cushing após consumir o suplemento irregular Bálsamo Je´s, encontrado facilmente em sites, mas que continha corticoide em doses elevadas. “Atendi uma paciente que quase morreu. O corticoide realmente tira a dor, mas pode desregular completamente o metabolismo e levar a complicações severas”, relata.
A especialista também cita o Lipobell, vendido por blogueiras como natural, mas com efeitos colaterais semelhantes a anfetaminas: “Eu já atendi três pacientes que tiveram efeitos colaterais gravíssimos. De tremor, taquicardia, insônia, usando esse remédio para emagrecer”.
A farmacêutica Ana Paula alerta que “as vitaminas lipossolúveis — A, D, E e K — são as mais perigosas, porque se acumulam no organismo. O excesso de vitamina D pode causar cálculos renais, e a K, quando combinada a anticoagulantes, aumenta o risco de hemorragia”, explica. Ela acrescenta que até produtos como chás diuréticos e termogênicos, podem provocar arritmias e falência renal.
A endocrinologista Paula lembra que suplementos podem interferir em exames laboratoriais, levando a diagnósticos equivocados — como é o caso da biotina, que altera resultados de tireoide — e que substâncias como o iodo (em fórmulas como o Lugol) podem induzir doenças na glândula.
Apesar dos riscos, os especialistas reforçam que suplementos têm papel relevante quando bem indicados. “A reposição deve ser individualizada, feita após exames e acompanhamento médico”, conclui Saulo.
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Orientação: Profa. Rose Bars
Edição: Murilo Sacardi

