>
Apresentado pelo Grupo Oriki, espetáculo traz a criação do mundo na visão Iorubá e estabelece diálogo sobre racismo
>

Kartê Okano, Ayo Bento e Renata de Oliveira em apresentação no auditório da PUC-Campinas
>
Texto e Imagens: Fayollah Souza
>
O espetáculo Olorum Ayé foi apresentado nessa última quinta-feira, 13/11, no auditório Ângelo Rossi, na PUC-Campinas. Desenvolvido pelo Grupo Oriki, que trabalha para contar histórias pretas e conservar narrativas e tradições em Iorubá. O grupo é formado por Ayo Bento, Kartê Okano, Renata de Oliveira e Nico Vilas Bôas. Ele costuma ser apresentado em espaços abertos, até mesmo em escolas, faculdades e de forma gratuita.
>
O espetáculo, que vem sendo apresentado desde 2023, conta uma história Iorubá, apresentando a criação do mundo por meio de cantigas e contos antigos, que trazem itens ligados ao orixá Exu. A criação da terra pelo senhor todo poderoso Olorum e pelo orixá Oranyã, o nascimento do vento por Iansã, os sabores e encantamentos das ervas de Ossaim e a criação do ser humano por Oxalá e Nanã.
>
A obra, que foi desenvolvida após a criação de um projeto da atriz e pesquisadora Ainá Ayofemi de Campos Bento, retrata danças e músicas que seguem a Cultura Iorubá. Após a apresentação aconteceu um debate aberto para o público onde cada pessoa pode falar sobre as sensações despertadas pelo Olorum Ayé. A proposta foi trazer uma conscientização a respeito do racismo estrutural e religioso que ainda existe e que precisa ser quebrado.
>
Ayo Bento desenvolvedora do espetáculo reafirma a importância desse espaço para apresentações voltadas para a cultura negra em espaços fechados ou abertos. “É muito importante esse movimento para fortalecer quem somos, o que podemos fazer é mostrar. Então mostramos o que muitos já conhecem, mas num lugar de respeito, para que essa cultura seja cada vez mais respeitada”.
>


Ayo Bento recitando a criação do mundo pelo Oriki de Oranian // Intérprete de libras Flávia Batista
>
Ayo Bento disse ainda que o espetáculo já chegou a ser cancelado simplesmente porque a palavra Exu aparecia na sinopse. Ouviu que “pode falar de cultura, mas não de religião”, e sente que, de dois anos para cá as pessoas estão ainda mais reativas. Ela lembra também de três situações que marcaram a trajetória do grupo — entre elas, a apresentação no SESI de Cosmópolis, quando o prefeito proibiu a liberação dos ônibus escolares ao descobrir que o espetáculo falaria sobre orixá. Sem público, apenas uma pessoa esteve presente. Mesmo assim, se emocionou, agradeceu e disse estar feliz por ver o esforço em quebrar estigmas — na política, nas escolas, em tudo.
>
Uma das propostas do espetáculo é justamente quebrar estigmas do preconceito, trazendo diálogo e interação com o público, tentando derrubar de vez o preconceito com a cultura afro-brasileira, o culto aos orixás e toda a cosmogonia do povo Iorubá. Robson de Lima, espectador que faz parte do movimento do Maracatu e do Hip-Hop, disse que está no processo de entender aos poucos o que foi apresentado e relata que Campinas foi uma cidade onde muitos negros sofreram na época da escravidão, deixando marcas até hoje. “Dependendo do local onde estou tocando maracatu, vem a Guarda Municipal nos questionar, saber o que estamos fazendo. Sempre tem uma desculpa para falar do som, das músicas.”
>
Orientação e edição: Adauto Molck
.
.
.
.
.

