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Unesp participa da descoberta de novo tipo sanguíneo

Grupo raro, associado à ausência de um antígeno, pode causar reações graves em casos de transfusões e durante a gravidez

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Tubos de separação dos glóbulos vermelhos ou hemácias dos pacientes para identificar os antígenos so COST (Foto: Arquivo Pessoal)

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Por Laura Penariol e Giovana Perianez

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Uma equipe internacional de pesquisadores identificou um novo grupo sanguíneo humano, o sistema COST, com potencial para transformar práticas médicas em transfusões de sangue, transplantes e no cuidado de gestantes. A descoberta, publicada na revista científica Blood, é resultado de uma investigação genética iniciada há sete anos.

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O grupo recebeu o nome COST em referência aos pacientes Copeland e Sterling, cujos antígenos (proteínas que ajudam a identificar o tipo sanguíneo) haviam sido observados há mais de 50 anos. Apesar de conhecidos, os mecanismos genéticos por trás desses antígenos permaneciam um mistério até agora.

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Durante um estudo genético voltado à anemia falciforme, os pesquisadores encontraram uma variante extremamente rara: indivíduos com uma combinação genética chamada HNA-3b/b apresentavam um tipo sanguíneo até então não completamente compreendido, caracterizado pela ausência do antígeno Csa, sendo chamados de Cs negativos. Essa ausência define o novo grupo sanguíneo do sistema COST.

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Os envolvidos
O estudo foi liderado pelos doutores Jonathan Rios, Romain Duval, Slim Azouzi e Claudia Domingos-Bonini, com colaboração da Université Paris Cité, na França, e da Universidade Estadual Paulista (UNESP), em São José do Rio Preto. Todos são especialistas reconhecidos nas áreas de genética e hematologia.

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Dr. Jonathan Rios realizando experimentos em Paris, na Université Paris Cité (Foto: Arquivo Pessoal)

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Implicações clínicas
A identificação do grupo COST tem implicações diretas na segurança transfusional. Pacientes com esse grupo sanguíneo podem ter reações adversas graves quando recebem sangue de doadores comuns. Além disso, mulheres com esse tipo podem enfrentar complicações durante a gravidez, como a doença hemolítica do recém-nascido, em que os anticorpos da mãe atacam as células sanguíneas do bebê.

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Segundo Jonathan Rios, a descoberta “permite um avanço em bancos de sangue e medicina personalizada, salvando vidas”.

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Ao contrário dos sistemas mais conhecidos, como ABO, Rh, Kell ou Duffy, a pesquisa investigou variantes genéticas raríssimas por meio do sequenciamento completo do DNA de pacientes com anemia falciforme. Com isso, foi possível identificar proteínas inéditas presentes nas membranas dos glóbulos vermelhos (hemácias) e dos neutrófilos (tipo de glóbulo branco).

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O avanço foi reconhecido oficialmente pela Sociedade Internacional de Transfusão de Sangue (ISBT), que incluiu o sistema COST entre os mais de 40 grupos sanguíneos humanos já catalogados.

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Material genético dos pacientes testados pelos pesquisadores para o grupo sanguíneo COST (Foto: Arquivo Pessoal)

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Menos de 1%
De acordo com os pesquisadores, o antígeno Csa, cuja presença define o grupo, é extremamente raro: ocorre em menos de 1% da população mundial. Em pessoas com ancestralidade europeia, essa frequência pode chegar a 5%. No entanto, o grupo não está restrito a uma região específica. “Apesar de muitos casos terem sido relatados na costa do Mediterrâneo, o grupo não está ligado exclusivamente a uma área geográfica”, explica Rios.

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Para saber se uma pessoa pertence a esse grupo, é necessário realizar um teste de genotipagem molecular, que analisa o DNA do indivíduo em busca de uma pequena variação genética chamada SNP (sigla em inglês para polimorfismo de nucleotídeo único). Essa variação define se a pessoa produz ou não o antígeno Csa.

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O exame pode ser feito por meio da técnica conhecida como PCR (reação em cadeia da polimerase), utilizada amplamente durante a pandemia da COVID-19. Ela permite “ampliar” trechos específicos do DNA, facilitando a análise genética. Hemocentros, laboratórios especializados e hospitais com infraestrutura molecular já dispõem dessa tecnologia.

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Edição: Nicole Heinrich
Orientação: Artur Araujo

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