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Estudo revela a desigualdade no acesso a áreas verdes

Mapeamento feito pela Unicamp aponta concentração de praças e parques longe de regiões pobres e majoritariamente negras

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Por Fayollah Souza, Johnny Lima e Lizandra Lima

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O direito ao lazer é garantido pela Constituição e deveria ser acessível a todos os moradores de Campinas. No entanto, uma pesquisa desenvolvida por doutorandos do curso de Políticas Públicas de Lazer e Esporte da Unicamp, publicada na Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, revela que as áreas verdes da cidade estão concentradas nas regiões mais ricas, enquanto bairros com maioria da população negra e parda seguem com infraestrutura precária ou inexistente.

Utilizando ferramentas de georreferenciamento e dados do Censo de 2010, os pesquisadores mapearam a localização dos parques públicos e os cruzaram com os dados de distribuição racial. O resultado mostra um padrão claro: quanto mais negra a população de um bairro, menor é o número de áreas verdes acessíveis.

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Áreas Verdes de Função Social do Município de Campinas (2015) (Revista de Estudos Urbanos e Regionais – “Espaços de lazer de natureza e equidade”)

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“Existe um grande déficit de espaços de lazer nas áreas mais pobres, onde há mais mulheres negras responsáveis pelos lares. Isso não é coincidência, é reflexo direto de um urbanismo excludente”, afirma o professor Danilo Ciaco Nunes, um dos autores do estudo.

Danilo Ciaco Nunes, Professor de educação física, um dos escritores do artigo Espaço de Lazer de natureza e iniquidade racial (Foto: Arquivo pessoal)

Desde o fim da escravidão, a população negra foi sendo afastada dos centros urbanos, ocupando periferias distantes. O crescimento urbano de Campinas seguiu a lógica do mercado imobiliário, com condomínios fechados, dotados de lazer privado, e sem políticas públicas que incluíssem as periferias no planejamento.

O estudo alerta que apenas calcular a quantidade de área verde por habitante é insuficiente. O importante é considerar as chamadas Áreas Verdes de Função Social (AVFS), ou seja, aquelas efetivamente acessíveis e utilizadas para o lazer. Um bairro pode até ter vegetação, mas se ela estiver em terrenos privados, áreas degradadas ou sem segurança, o direito ao lazer não está garantido.

Como resposta parcial à ausência de parques, o poder público tem investido na construção de pequenas praças, mas elas frequentemente contam com equipamentos mínimos ou inexistentes, funcionando mais como justificativa administrativa do que como solução concreta.

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Equipamentos de ginástica ao ar livre instalados em praça pública de Campinas. Iniciativas como essa buscam ampliar o acesso ao lazer e à saúde, mas ainda não alcançam igualmente todas as regiões da cidade (Foto: Fayollah Souza)

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A moradora Elaine Aparecida, de 49 anos, sente isso diariamente no Jardim Oziel: “no meu bairro tem uma praça enorme, mas não tem nada, nem um parquinho ou equipamentos de ginástica, se torna um espaço vazio. O governo desenvolve essas praças para tapar buraco, mas muitos lugares não têm nem isso. Existe uma exclusão, quem tem paga e quem não tem acaba ficando sem.”

Ela também lamenta a distância até as áreas bem cuidadas: “o mais perto daqui é o Taquaral, e eu levo quase uma hora para chegar. Tem que pagar passagem, levar lanche, cuidar das crianças… vira um evento. Lazer não é só diversão, é um jeito de viver melhor. Mas pra gente, parece que isso nunca foi prioridade.”

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Equipamentos de ginástica ao ar livre instalados em praça pública de Campinas. Iniciativas como essa buscam ampliar o acesso ao lazer e à saúde, mas ainda não alcançam igualmente todas as regiões da cidade (Foto: Fayollah Souza)

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Frente a esse cenário, os moradores criam formas próprias de convivência, mesmo em espaços improvisados. “Os campos de futebol, os parquinhos improvisados e as praças mal cuidadas acabam sendo espaços de resistência”, comenta Danilo. Ainda assim, ele adverte: “Isso não substitui a responsabilidade do Estado em garantir o acesso digno ao lazer.”

Projetos como os parques lineares, criados para oferecer lazer e preservar o meio ambiente em regiões mais vulneráveis, também têm sido apropriados por interesses do mercado imobiliário. “O próprio mercado impõe onde o poder público vai investir. E quem continua de fora são as mesmas pessoas de sempre”, critica Danilo.

A ausência de áreas verdes acessíveis não é apenas uma questão de conforto: impacta diretamente na qualidade de vida, no direito ao descanso, à saúde e ao convívio comunitário. O lazer é um componente da cidadania. Quando negado, revela a persistência de um modelo de cidade excludente, baseado em desigualdades raciais e econômicas.

Como propôs o geógrafo Milton Santos, é necessário construir uma geografia cidadã, na qual o espaço urbano seja planejado com justiça social. Isso implica ouvir moradores como Elaine, que conclui: “Não deveria existir essa exclusão, é necessário existir uma inclusão, um acesso maior, para todos, sem qualquer tipo de restrição ou racismo.”

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Edição: Murilo Sacardi

Orientação: Prof. Artur Araújo

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