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Descendência indígena aumenta risco de diabetes tipo 2

Gene que auxilia no armazenamento de energia, aumenta o risco a obesidade e diabetes

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Por: Felipe de Souza 

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Em estudo recente, o Laboratório de Sinalização Celular e Metabolismo da FCM (Faculdade de Ciências Médicas – Unicamp) identificou a presença de uma variação genética ligada ao risco de diabetes tipo 2 no grupo de pessoas descendentes de indígenas residentes na região da RMC. Iniciado em 2020, o estudo genético divulgou que, por meio da análise de genomas de moradores da região, foi identificado a frequência da variação no gene PPP1R3B, que regula como o organismo armazena glicose no fígado, a variação melhora a eficiência do processo, acumulando mais gordura e aumentando a chance da diabetes tipo 2. 

A pesquisa provou que historicamente a mutação se mostrou útil para os povos originários brasileiros quando havia a escassez de alimento, resultando com que os indivíduos que a carregavam fossem mais bem sucedidos, tendo mais acúmulo de energia nos períodos mais difíceis. Atualmente, com dietas ricas em carboidratos e ultraprocessados, pessoas com essa mutação que não passam por escassez de alimento, enfrentam esse armazenamento excessivo, aumentando o risco à obesidade e ao diabetes tipo 2. “Os povos indígenas viveram muito tempo em ambientes de escassez, então variantes que ajudavam a guardar energia foram se tornando mais comuns. Hoje, esse traço passou para seus descendentes na população da região, mas em vez de proteção virou fator de risco,” explicou o pesquisador Ricardo Amorim. 

Segundo ele, entender esse funcionamento pode auxiliar políticas públicas, ajudando a identificar e proteger os indivíduos com tais predisposições. “Dá para usar esses dados em campanhas direcionadas, triagem precoce e até para ajustar programas de saúde à realidade genética local”, completou. 

O biólogo Alexandre Reis complementa a visão do pesquisador, afirmando que a seleção natural foi a responsável por essa mutação. “É resultado de seleção natural, isolamento de populações e da própria história genética do Brasil, que misturou diferentes ancestrais buscando a melhor solução para a escassez de alimento na região. Diferentes sociedades viviam desafios distintos, essa foi a melhor reação possível no contexto”, pontua. 

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O biólogo e professor Alexandre Reis, em sala de aula, explica como é a evolução da doença  (Foto: Felipe Souza)

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A pesquisa abre portas para a prevenção, com a conscientização dos grupos afetados, para indivíduos que podem evitar problemas futuros como a obesidade, ou até a própria diabetes tipo 2, doença que ainda não tem cura. “Uma saída é a alimentação, que pode solucionar de maneira parcial os problemas, para complementá-la, o exercício físico pode dar conta da saúde dessa população e o mais recomendado é somar os aeróbicos à musculação”, completa. 

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Efeitos da hiperglicemia e da normoglicemia no intestino e a regulação da produção de glicose. (Foto: Google Gemini e Fapesp)  

Para a nutricionista Jenifer Moneda é possível reduzir riscos com a alimentação. “Mesmo com a mutação, dá para reduzir riscos escolhendo alimentos com menos açúcar e mais fibras, controlando porções e evitando picos de glicose”, aponta. A profissional ressaltou que no Brasil ainda não existem dietas personalizadas baseadas na descendência, por isso é essencial buscar o auxílio de um especialista. “Ainda é algo restrito a pesquisas e clínicas específicas, mas a nutrição de precisão deve ganhar espaço nos próximos anos.” 

Além da alimentação e exercício, a descoberta permite a ciência evoluir nas terapias, somando na solução deste empecilho. “Essas descobertas ajudam a ciência a planejar remédios e terapias específicas para o grupo afetado, atuando nesse mecanismo”, afirma o farmacêutico Roberto Firmin. Segundo ele, “ainda não há uma terapia focada no PPP1R3B, mas pesquisadores estão estudando formas de regular o gene e entender melhor como ele funciona para assim criar uma resolução” explica.   

O farmacêutico ainda lembrou que a prevenção pode ser ainda mais eficiente que o tratamento. “No curto prazo, prevenção é o caminho mais forte: identificar quem tem risco maior e agir cedo com estilo de vida e acompanhamento médico.”  A pesquisa na FCM (Unicamp) segue, sem nenhuma conclusão final divulgada até o momento. 

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Orientação: Profa Rose Bars

Edição: Raquel Piveta

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